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Quando aprender exige coragem para mudar

Filha mais velha de Justina e Manoel, Glaucia Faria Young nasceu em 1973, em Pontalina, cidade de aproximadamente 18 mil habitantes, no centro-sul de Goiás. Sua irmã mais nova, Cleide, nasceu apenas 16 meses depois. Glaucia sempre sentiu uma ligação profunda com a cidade, fundada em terras doadas por seus antepassados. Essa sensação de pertencimento permanece até hoje e se expressa no contato frequente, por WhatsApp, com os pais e outros parentes no Brasil.

O pai começou a trabalhar muito cedo, enquanto a mãe se dedicou ao cuidado da casa e ao futuro das filhas. Embora não tivessem cursado uma graduação, os dois levavam o potencial das meninas muito a sério: compravam enciclopédias, exigiam boas notas e davam a Glaucia liberdade para escolher o próprio caminho. Por volta da oitava série, o pai a matriculou em um curso temporário de programação, oferecido por um curso técnico privado em Pontalina. A experiência despertou seu fascínio por computadores e abriu novas possibilidades para sua trajetória.

Na juventude, uma de suas grandes inspirações foi a prima Delaide Miranda Arantes. Advogada trabalhista e uma das poucas pessoas de seu convívio com formação superior, ela mostrou a Glaucia que o mundo oferecia outras possibilidades. Glaucia cursou a educação básica em Pontalina, onde as escolas ainda não ofereciam preparação adequada para os vestibulares das universidades federais. Por isso, um grupo de pais fundou o Colégio Integração, que contava com professores de Goiânia e buscava elevar o nível de ensino. Ela estudou na instituição de 1989 a 1991 e recebeu o apoio de professores que aprofundavam os conteúdos e doavam livros. Em 1992, ingressou no curso de Ciências da Computação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Em março de 1998, concluiu o mestrado em Ciência da Computação na Universidade Estadual de Campinas, período em que morou sozinha pela primeira vez.

A síndrome do impostor existe e distorce a percepção

Chegar à Microsoft, em 1998, foi uma aventura que Glaucia não havia planejado. Enquanto finalizava a dissertação de mestrado, concluída em março daquele ano, candidatou-se a concursos públicos, incluindo uma vaga no Banco Central, e a oportunidades em empresas multinacionais no Brasil. Recebeu várias respostas negativas. Então, um ex-colega da UFG comentou que a Microsoft estava recrutando no Rio de Janeiro. Mesmo sem os três anos de experiência exigidos, ela enviou o currículo.

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A primeira entrevista, realizada por telefone, foi difícil, pois Glaucia ainda não se sentia segura para conversar em inglês com um americano nativo. Mesmo assim, avançou no processo, foi aprovada na etapa presencial, no Rio de Janeiro, e convidada para a fase final, em Seattle, em janeiro de 1998.

Entre o medo e a empolgação, viajou aos Estados Unidos pela primeira vez. Recebeu a proposta de trabalho e, em abril de 1998, ingressou na Microsoft como Software Test Engineer, engenheira de testes da equipe do Exchange Server, em Redmond, no estado de Washington. Pensava em permanecer por algum tempo para aprender e crescer. O que seria uma experiência temporária transformou-se em uma longa trajetória na empresa. Daí por diante, o desafio foi desenvolver um sentimento de pertencimento. Cercada por profissionais brilhantes, Glaucia se sentia fora de lugar e precisava se adaptar à nova cultura. Com o tempo, entendeu que não precisava ser perfeita, mas curiosa, disposta a aprender e corajosa para continuar.

Ao chegar à Microsoft, Glaucia encontrou na comunidade de brasileiros conhecida como Brasilex uma importante rede de apoio. Também criou vínculos em uma igreja local, onde conheceu Bryan A. Young, que se tornaria seu marido e um de seus pilares. Bryan a ajudou a aprimorar a fluência em inglês, revisando e-mails e documentos, e aprendeu português para se comunicar com a família dela. O apoio do marido a motiva a seguir adiante e a oferecer o melhor aos filhos do casal, Alexander e Nicolas. 

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Adaptabilidade para reconhecer novas oportunidades

Ao olhar para trás, Glaucia reconhece que a capacidade de adaptação foi decisiva para seu desenvolvimento profissional. Para ela, quem está começando não deve tentar comandar, mas contribuir para o fortalecimento do time. Isso exige compreender o ambiente, integrar-se de maneira intencional e entregar um trabalho de excelência antes de tentar transformar a cultura.

No início de sua carreira na Microsoft, Glaucia cresceu, foi promovida e assumiu seu primeiro papel de liderança em 2001, como Test Lead de uma pequena equipe de engenheiros de testes do Mobile Information Server. Em 2006, alcançou sua primeira posição formal de gerente, como Senior Test Manager do Windows Mobile.

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Até então, reagia às oportunidades mais do que fazia escolhas conscientes. Ao perceber isso, decidiu conduzir o próprio caminho e buscar novos desafios. Desde então, procura desenvolver-se ao máximo em cada função antes de assumir uma responsabilidade maior. Ao longo dos anos, Glaucia passou a ocupar posições cada vez mais estratégicas. Desde outubro de 2025, atua como Vice President of Product Management em Microsoft 365 Copilot Extensibility, liderando iniciativas que capacitam pessoas e organizações a personalizar o Microsoft Copilot e, assim, impulsionar a transformação dos negócios.

Confiança e colaboração também impulsionam a carreira

Glaucia conheceu profissionais talentosos que prejudicaram a própria carreira de maneiras evitáveis. Em um ambiente essencialmente colaborativo, ela acredita que a reputação de quem inspira confiança, age com justiça e facilita a cooperação pode valer mais do que uma habilidade técnica isolada.

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Por natureza, Glaucia se considera uma pessoa intensa. Vive as situações profundamente e não permanece em silêncio quando discorda: questiona, apresenta argumentos e busca o debate. Essa franqueza já provocou atritos, mas ela aprendeu, com o tempo, a canalizar a energia com mais intenção. Hoje, procura fazer perguntas antes de afirmar, ouvir por completo antes de responder e escolher o momento adequado para uma conversa difícil.

Outra armadilha, em sua visão, é a estagnação. Parar de aprender por comodidade ou medo de correr riscos pode limitar silenciosamente uma carreira. Segundo Glaucia, as grandes mudanças de sua trajetória aconteceram quando percebeu que havia atingido um limite de aprendizado.

Redes de confiança reduzem a solidão na liderança

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A solidão na liderança não decorre da falta de pessoas ao redor, mas do peso de tomar decisões difíceis, ambíguas e de grande impacto.

Glaucia, entretanto, não considera essa solidão inevitável. Para enfrentá-la, construiu uma rede de confiança formada pela família, por um grupo de mulheres-líderes chamado GNO, sigla de Girls’ Night Out, e por profissionais como Dennis Batchelder, seu mentor há mais de dez anos. São pessoas que lhe dizem a verdade, discordam de suas opiniões e não estão interessadas apenas em agradá-la.

Ela também procura equilibrar vulnerabilidade e capacidade de decisão. Quando está incerta, admite a dúvida, mas toma uma decisão, explica seu raciocínio e convida o time a corrigir a rota diante de novas informações. Essa abertura contribui para criar a segurança psicológica de que as equipes precisam para realizar um bom trabalho.

A fé também é essencial para esse equilíbrio. Glaucia entrega a Deus as decisões mais difíceis e encontra nessa prática a clareza necessária para permanecer conectada aos próprios valores, especialmente quando a pressão do cargo se intensifica.

Os fracassos também podem trazer aprendizado

A motivação de Glaucia vem do propósito do trabalho, não do cargo ou dos números. Seu foco está no impacto que pode gerar na vida das pessoas.

Diante de uma perda, ela procura viver o processo com honestidade, reconhecer sua parcela de responsabilidade, elaborar o luto e compreender o aprendizado. Em muitos momentos, a introspecção provocada por um fracasso foi mais transformadora do que as lições de um sucesso. Esse processo a ajuda a seguir adiante, mesmo quando as coisas não acontecem como esperado.

No dia a dia, Glaucia procura ser prática: divide problemas complexos e paralisantes em etapas claras e possíveis. Celebra pequenas vitórias de forma intencional e recorre às relações de confiança quando está com menos energia. Para ela, cada pessoa oferece um tipo de apoio, pois ninguém consegue sustentar tudo sozinho.

Educação e trabalho ampliam possibilidades

Para quem está no início da carreira e ainda não sabe qual caminho seguir, Glaucia reconhece o peso da incerteza. Sua trajetória, porém, lhe ensinou que educação e trabalho não são fins em si mesmos, mas ferramentas para construir uma vida com mais opções e maior capacidade de cuidar das pessoas amadas e contribuir para o mundo.

Glaucia enfrentou experiências ruins que serviram de preparação para o que viria depois. Por isso, recomenda começar por algum lugar, escolhendo a menor versão daquilo que desperta curiosidade. Também aconselha cultivar relações com pessoas curiosas e ambiciosas, formar uma rede de apoio e pedir ajuda nos momentos de dificuldade. Quando surgir a vontade de desistir, a orientação é lembrar o motivo que deu origem à jornada.

Para alimentar a curiosidade, Glaucia lê obras que desafiam sua maneira de pensar sobre a vida, a liderança e o tempo. Entre suas recomendações estão Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca; Working Backwards, de Colin Bryar; The Art of the Start 2.0, de Guy Kawasaki; Quatro Mil Semanas: Gestão de Tempo para Mortais, de Oliver Burkeman; e Stories That Stick, de Kindra Hall. As obras tratam de propósito, desenvolvimento de produtos, empreendedorismo, gestão do tempo e uso de histórias nos negócios.

Para Glaucia, cada pessoa tem algo a oferecer ao mundo. Por isso, ninguém deve desistir antes de descobrir o próprio potencial.

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