“Aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”, dizia um poeta, e às vezes é difícil discordar dele, em especial quando a gente passa mais tempo do que deveria na internet. Para ser mais exato, o que assusta é a tremenda confiança de estar absolutamente certa da parte de gente que parece não saber do que está falando.
Não se trata de simples impressão, ao menos pelo que indica um novo estudo. Mas ele também mostra que a coisa é mais complicada. Ao que parece, quem sofre de autoconfiança generalizada –o popular “tudólogo”– tende a ser justamente o sujeito que mais engole bobagens sem perceber, enquanto a confiança em estar correto sobre temas específicos muitas vezes corresponde aos fatos.
Talvez a coisa soe um pouco contraintuitiva, concordo, mas tentemos compreender juntos o que diz a pesquisa a que me refiro. Publicada recentemente no periódico científico PNAS Nexus, a análise foi liderada por Akshina Banerjee, pesquisadora da Universidade de Michigan em Ann Arbor (EUA), e teve como objetivo justamente separar os dois tipos de confiança (e seus excessos).
Conforme você já deve ter imaginado, investigar o tema pode ajudar a entender a epidemia de desinformação que temos enfrentado. Trabalhos anteriores tinham sugerido que o problema estava na confiança quanto à própria capacidade de discernimento de modo geral. Banerjee e seus colegas formularam experimentos para testar isso com um grupo de cerca de 500 voluntários americanos.
O primeiro teste, simples e engenhoso, baseava-se em imagens muito embaçadas. Num teste de múltipla escolha, os participantes tinham de dizer qual era o verdadeiro desenho por trás das imagens e, depois, precisavam estimar quantas respostas tinham acertado.
A questão, porém, é que as imagens eram tão embaçadas que ficava impossível acertar as respostas de qualquer modo que não fosse por simples sorte. Portanto, quem afirmava ter gabaritado o teste só podia estar superestimando as suas capacidades, e isso funcionava como uma medida do excesso de confiança generalizado de cada participante.
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O passo seguinte seguiu um esquema já clássico em estudos sobre desinformação: os participantes receberam uma lista de 20 manchetes –títulos de notícias, como os desta Folha. Dez eram verdadeiras, dez eram falsas; metade tinha teor considerado politicamente enviesado, a outra metade tinha teor neutro. Cabia aos voluntários apontar quais eram verdadeiras e, mais uma vez, estimar seu nível de confiança nas próprias respostas (numa escala de 1, ou “nada confiante”, a 7, ou “muito confiante”).
Resultado: as pessoas com a maior confiança “geral” (a dos testes de imagens) foram as que mais se embananaram com as manchetes. Mas, veja você, as que tinham confiança elevada quanto às notícias específicas tendiam a acertar mais.
O trabalho não investigou mais a fundo as causas da diferença, e indiscutivelmente há muitas outras variáveis –como o pertencimento a grupos, por exemplo– que aumentam a vulnerabilidade do público à desinformação. De qualquer modo, não custa ter em mente que a nossa capacidade de discernimento só funciona quando saímos do piloto automático, evitamos o excesso de confiança e pensamos em termos específicos, e não gerais. Isso, claro, em nível individual –enfrentar os aspectos estruturais e econômicos da desinformação é ainda mais urgente.
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