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Red pill: Veja qual o significado da tatuagem de borboleta – 19/04/2026 – Equilíbrio

A tatuagem de borboleta é o novo alvo do movimento red pill, que prega ideologias machistas sobre papéis de gênero. Segundo eles, mulheres que têm o símbolo no corpo seriam promíscuas, emocionalmente instáveis e, portanto, sem valor.

De acordo com tatuadoras, mulheres tatuadas e uma pesquisadora ouvidas pela Folha, a ideia não tem fundamento e é apenas mais uma forma de espalhar discurso misógino.

Tatuadores usam a imagem da borboleta desde que a tatuagem começou a ser praticada no Ocidente, explica a socióloga Beatriz Patriota, que fez pesquisas sobre tatuagem no mestrado e doutorado. No Brasil, ela se popularizou a partir dos anos 1990, quando a mídia passou a mostrar essa prática em novelas e músicas.

“A borboleta é um dos símbolos colados a essa moda de estetização dos corpos”, afirma Patriota. Desde o início, vinculada ao conceito de feminilidade e delicadeza. Também foi associada à liberdade, por ser um animal que voa, e à transformação, por causa da metamorfose.

A tatuagem é uma construção social, diz a pesquisadora, e ainda estigmatizada. Ela afirma que é comum, ao longo da história, que grupos tentem estereotipar ou estigmatizar um símbolo —a exemplo da imagem do palhaço, associada pela polícia ao crime.

O significado de uma tattoo é subjetivo, e cada pessoa imprime um valor individual, reforça Jessica Huang, tatuadora do Sampa Studio, formado apenas por mulheres. Há muitas interpretações para um mesmo desenho, “e não cabe aos outros tachar e julgar o caráter de alguém com base numa tatuagem”.

A terceira tattoo que fez na carreira foi uma borboleta, conta Huang. Em quatro anos de trabalho, foi um pedido comum entre as clientes, majoritariamente mulheres, de diferentes faixas etárias. O inseto virou um símbolo de superação de doenças —como o lúpus, que adotou a imagem— e de acontecimentos marcantes, como um luto.

“Assim como a borboleta, que passa por um processo de transformação”, diz a tatuadora. “É um ser delicado que transmite força e liberdade.” Mas também tiveram clientes que só acharam bonito mesmo.

A médica Renata Gregorio, 29, marcou na pele uma borboleta roxa pousando num girassol como homenagem à melhor amiga, que tirou a vida em 2024. “Simboliza a liberdade dela indo em direção ao girassol, que representa luz, acolhimento e paz”, conta. Para ela, o desenho sempre passou uma imagem positiva e de transformação. “Minha tatuagem é sobre um amor que não acaba, mas muda de forma.”

A representação pejorativa da borboleta começou a circular há cerca de um ano e foi popularizada por influenciadores da chamada “machosfera”. Para esses homens, a tatuagem é a pior de todas e as mulheres que a têm vão dar golpes.

A partir da declaração dos influenciadores, homens passaram a fazer comentários negativos em publicações de mulheres com a tatuagem e a perguntar a pretendentes se elas tinham a marca. O tema voltou à tona após o 8 de Março, no Dia Internacional da Mulher.

Para Gregorio, essa é uma leitura superficial e totalmente misógina. “Reduzir um símbolo carregado de significados pessoais a um rótulo raso diz muito mais sobre quem julga do que sobre quem carrega essa arte”, ela diz.

A tatuadora e a pesquisadora acreditam que o discurso tenha partido de uma experiência individual e foi generalizado com ares de teoria da conspiração. “Talvez alguns indivíduos desse movimento tiveram uma experiência frustrada com mulheres seguras de si, que não compactuam com ser submissa”, avalia Huang.

A publicitária Drielle Sá, 31, nunca tinha pensado em tatuar uma borboleta, mas decidiu fazer uma depois de ver as declarações de ódio. “Eu sou completamente o oposto do que eles rotulam, tenho minha carreira, sou casada há anos. Mesmo assim, esse tipo de discurso poderia tentar me encaixar num rótulo”, ela diz.

Essas narrativas tentam desqualificar as mulheres e reduzi-las a rótulos, afirma Sá, que já tinha outras tattoos. A de borboleta foi uma maneira de dizer que ela não aceita ser definida por isso.

Antes apenas uma imagem delicada, a tatuagem de borboleta virou um símbolo de resistência para muitas. “Ela mostra nossa liberdade, o poder que temos sobre o nosso próprio corpo e carimba nossa autonomia como mulher na sociedade”, diz Sá. Também deve funcionar como um “filtro que afasta homens inseguros, limitados e incapazes de profundidade emocional”, completa Gregorio.

É uma espécie de “vacina contra red pill”, brinca Rodrigo Marques, tatuador há oito anos e fundador da Tattoo House. Em 22 de março, ele ofereceu tatuagens de borboleta de graça a 30 mulheres no estúdio em Mauá, no ABC. Para as clientes seguintes, cobrou o valor promocional de R$ 100. Marques calcula que cerca de 150 pessoas participaram da ação.

“Usamos esse discurso de que é algo ruim contra eles mesmos” diz. Ele próprio tatuou uma borboleta no braço, “para simbolizar o dia”. O desenho também é pedido frequente do público feminino no seu estúdio. “Ela fala muito sobre as fases da vida.”

Fonte: Link da fonte

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