Nesta quarta-feira, 16, o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo do atual ciclo de flexibilização. Desde março de 2026, a taxa já recuou 1,25 ponto percentual, depois de atingir 15% ao ano.
O corte era amplamente esperado pelo mercado. A dúvida agora é se o BC continuará reduzindo os juros na próxima reunião, marcada para novembro, ou fará uma pausa para avaliar os efeitos das reduções já realizadas. Em seu comunicado, o Copom afirma que “seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
O mercado se divide em relação ao futuro da taxa básica de juros. O BTG Pactual e o Itaú BBA projetam Selic em 13,75% no fim de 2026, enquanto a XP Investimentos prevê mais dois cortes de 0,25 ponto, levando a taxa a 13,25%.
A melhora recente da inflação ajuda a explicar por que o ciclo continua. Em agosto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,32%, e a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,44% para 4,22%. Boa parte da queda veio da redução de 7,63% na tarifa de energia elétrica, provocada pelo bônus de Itaipu. No entanto, Jucelia Lisboa, economista e sócia da Siegen, lembra que “0s fatores que contribuíram para a desaceleração da inflação nos últimos meses possuem natureza predominantemente temporária”. Por isso, outros componentes da inflação continuam no radar da autoridade monetária.
A atividade econômica também dá sinais de perda de fôlego. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, em ritmo menor que no primeiro trimestre, enquanto o consumo das famílias recuou. O movimento é relevante para a política monetária pois juros elevados por mais tempo tendem a encarecer o crédito e reduzir o consumo — justamente dois canais pelos quais a política do BC afeta a inflação.
Corte não significa crédito barato imediatamente
A redução da Selic também cria uma expectativa de melhora nas condições de financiamento, mas o efeito sobre as taxas cobradas de consumidores e empresas não é automático. O custo dos empréstimos depende de fatores como risco, prazo, garantias, inadimplência e spread bancário.
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, chama atenção para essa diferença. “A decisão reduz o custo básico do dinheiro e pode melhorar gradualmente as condições de financiamento, porém o preço final do crédito também depende de risco, prazo, garantias, inadimplência e spreads”, afirma. “Spread” é o termo usado para definir a diferença entre o preço da compra e o preço da venda de uma transação financeira.
Na avaliação do executivo, setores que dependem mais de financiamento, como construção, mercado imobiliário e agronegócio, podem sentir antes os efeitos de uma melhora nas condições de crédito. Empresas que precisam financiar capital de giro ou expansão também estão entre as mais diretamente expostas à trajetória da Selic.
A questão é que o ambiente externo pode limitar a velocidade dessa melhora. O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%, aumentando a atenção sobre o diferencial entre as taxas brasileiras e americanas.
Para Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, a diferença na direção das políticas monetárias merece atenção porque pode pressionar o câmbio. “O desafio central para os próximos meses será monitorar como essa redução da taxa interna impactará a inflação e a volatilidade dos ativos diante de um cenário global mais restritivo”, afirma.
Petróleo, câmbio e possíveis efeitos climáticos sobre commodities completam a lista de fatores que podem dificultar uma queda mais rápida da Selic. O El Niño, por exemplo, pode afetar preços de alimentos e outras commodities, adicionando pressão a uma inflação que ainda não está totalmente controlada.
Fiscal e eleições entram no radar
Os riscos não estão apenas fora do país. Os especialistas também apontam o cenário fiscal e as incertezas relacionadas ao ciclo eleitoral como fatores que podem influenciar as expectativas de inflação e os juros de longo prazo.
Rafael Pastorello, portfólio manager do Banco Sofisa, destaca que a política fiscal continua sendo um dos principais pontos de atenção no cenário doméstico. Nesse ponto, os quatro especialistas têm uma avaliação semelhante: a inflação melhorou e a atividade perdeu ritmo, mas ainda existem obstáculos para uma queda acelerada dos juros. A diferença está principalmente no peso atribuído a esses fatores e no espaço que cada um vê para o Copom continuar cortando a Selic.
O resultado é um cenário em que o quinto corte consecutivo já está no preço para boa parte do mercado, mas a trajetória depois dos 13,75% ainda está em aberto. Até a reunião de novembro, a evolução da inflação, das expectativas, do câmbio e da atividade será acompanhada de perto para definir o espaço para novos cortes.
Em relação às expectativas para o Ibovespa amanhã, Augusto Parente, especialista em investimentos e fundador da AW Capital, acredita que o mercado pode ter uma abertura positiva para a Bolsa devido ao BC não ter fechado a porta a novos cortes nas próximas reuniões em 2026. “Quanto aos juros futuros, penso que o mercado possa precificar novos ajustes a curva pode fechar novamente amanhã. Quanto ao dólar, é mais difícil prever. Acredito que a moeda americana possa abrir em tom positivo, dado que ela será muito afetada também pelos investidores digerindo as informações do Fed nos EUA.”
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