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Só seres conscientes compreendem o zero? – 20/01/2026 – Marcelo Viana

O zero foi descoberto pelo menos duas vezes na história da humanidade: na Mesopotâmia ao final do século 4 a. C. e, independentemente, na Mesoamérica perto do início da nossa era. Nos dois casos, inicialmente servia apenas para marcar posições vazias na representação posicional de números (como em 203, cuja posição das dezenas está vazia). Só mais tarde, por volta do século 7, na Índia, ele começou a ser considerado um número de pleno direito. No Ocidente houve muita resistência: a ideia de um número para representar o nada não tinha sentido no pensamento grego até porque, segundo Aristóteles (384 a.C.- 332 a.C.), o nada não existe.

Como essa dificuldade em desenvolver o conceito de zero se relaciona com o modo como ele é representado no cérebro humano, e o que a resposta nos ensina sobre como compreendemos a ideia de “nada”, de “ausência”? Quem coloca essas questões é Benjy Barnett, pesquisador do Departamento de Neurociência da Imagem da University College de Londres.

Em experimentos realizados uns dez anos atrás, pesquisadores monitoraram a atividade cerebral de macacos ao mesmo tempo que lhes mostravam conjuntos formados por diferentes números de pontos. Assim descobriram que existem certos neurônios especializados em zero! Foi a primeira evidência experimental de que o cérebro de primatas trata o número zero de modo diferenciado.

Alguns desses neurônios reagem apenas a conjuntos vazios (zero pontos), ficando indiferentes a quaisquer outras quantidades. Outros têm comportamento mais gradual: ainda que demonstrem mais interesse por conjuntos vazios, também reagem um pouco a conjuntos com um único ponto e, menos ainda, a conjuntos com dois pontos. Esse comportamento sugere que o cérebro também entende o zero em relação com os outros números, como o menor deles.

Mais recentemente, foram realizados estudos semelhantes com humanos, mas desta vez usando tanto conjuntos de pontos quanto a própria representação simbólica dos números por meio dos dígitos 0, 1,…. Um deles analisou o comportamento individual de neurônios, replicando as conclusões dos estudos anteriores com macacos: o nosso cérebro também contém neurônios especializados em zero e outros especializados em números positivos.

Outro estudo, realizado pelo próprio Barnett e um colaborador, estudou a atividade de grupos de milhares de neurônios processando tarefas envolvendo tanto conjuntos vazios quanto o zero representado simbolicamente. Mais uma vez, encontraram indícios de que o cérebro trata o zero, até certo ponto, como o menor dos números. Mas esse estudo também mostrou que as reações neuronais perante conjuntos vazios e perante o símbolo 0 são bastante parecidas. Isso sugere que os neurônios especializados em zero podem estar ligados, de forma mais ampla, à nossa compreensão mental do nada, da ideia de ausência, podendo mesmo ter evoluído dela.

Como é essa compreensão afinal? Voltando à pergunta inicial, o que acontece no nosso cérebro quando olhamos uma árvore e percebemos que não há pássaros nos galhos? Uma reposta aparentemente simples é que pensamos “se os pássaros estivessem presentes nós os veríamos, portanto eles estão ausentes”. Mas essa simplicidade é enganadora, pois essa explicação requer a consciência de nossos próprios processos mentais! Será que apenas seres conscientes podem entender a ausência (e o zero)? Encerraremos a discussão na semana que vem.


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