Subir, cair ou ficar de lado? Como o mercado enxerga a trajetória do dólar até o fim de 2026

Após um primeiro semestre de forte volatilidade, o dólar chega à segunda metade de 2026 sem rumo definido, mas com espaço para leves valorizações.

Tensões geopolíticas, eleições, além de decisões de juros do Federal Reserve e do Banco Central brasileiro fazem os especialistas divergir sobre os próximos passos da moeda americana. Eles acreditam que a volatilidade veio para ficar.

Um estudo da Elos Ayta Consultoria mostra a dimensão deste cenário. No acumulado de 2026, até o dia 3 de agosto, o real acumulava valorização de 8,48% frente ao dólar, a segunda maior alta entre as principais moedas do mundo, atrás apenas do peso colombiano (19,49%).

O dado chama atenção porque, no mesmo período, o DXY (índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes) subiu 1,61%. O estudo revela que no Brasil, o dólar foi perdendo terreno.

Valorização das moedas globais em relação ao dólar americano em 2026 até dia 03 de agosto 

Pais Moeda Valorização (%) 
Colômbia Peso Colombia 19,49 
Brasil Real 8,48 
Noruega Norwegian Krone 5,77 
Israel New Israeli Shekel 4,93 
Australia Dollar Australia 4,90 
México Peso Mexico 3,86 
China  3,70 
DXY  1,61 
Coreia do Sul Won 1,06 
Africa do Sull South African Rand 0,30 
Arábia Saudita Saudi Riyal 0,21 
Inglaterra Pound Sterling 0,00 
Japão Yen -0,15 
Hong Kong Dollar Hong Kong -0,77 
Peru Sol -1,05 
Russia Russian Ruble -1,62 
Chile Peso Chile -1,86 
Dinamarca Danish Krone -2,00 
Canadá Dollar Canada -2,14 
Argentina Peso Argentina -2,28 
Zona do Euro Euro -2,30 
Suiça Franc Switzerland -2,47 
Taiwan Dollar Taiwan -3,21 
Filipinas Peso Philipinas -3,33 
Suécia Swedish Krona -3,55 
India Indian Rupee -5,60 
Indonesia Rupiah Indonesia -7,07 
Turkia Turkish Lira -9,61 
Fonte: Elos Ayta Consultoria 

Primeiro semestre de solavancos

Para Emerson Vieira Junior, analista da Convexa Investimentos, o balanço do primeiro semestre aponta para um movimento de queda da moeda americana. “Começamos o ano com o câmbio próximo a R$ 5,45 e, atualmente, operamos em patamares consideravelmente inferiores”, aponta ele.

Já em relação aos picos de alta observados durante a primeira metade do ano, Vieira acredita que não foram uma tendência estrutural, mas sim fruto de reações diante de dois eventos de estresse. O primeiro foi a guerra do Oriente Médio, em março, e o segundo pico foi quando o mercado começou a precificar as eleições, a partir de maio. “Esses fatores ainda não foram resolvidos”, reforça Vieira.

Desta forma, o risco geopolítico e a volatilidade pré-eleitoral têm potencial de voltar a fazer preço no câmbio.

Raissa Florence, diretora executiva da Oz Câmbio e especialista em economia política internacional, concorda que o primeiro semestre foi marcado pela elevada volatilidade cambial, impulsionada principalmente por fatores externos, como a escalada de tensões no Oriente Médio, a guerra comercial e tarifária dos Estados Unidos e a postura restritiva do Fed (banco central americano). Outro fator que contribuiu, na visão dela, foi o debate fiscal e a precificação antecipada do risco eleitoral no Brasil.

“Os principais vetores permanecem presentes e devem continuar influenciando a dinâmica do dólar até o fim do ano”, avalia Florence.

Diego Hernandez, economista e sócio da Ativo Investimentos, soma um detalhe técnico. Para ele, a queda do dólar no primeiro semestre não ocorreu de forma linear e suavizada, mas foi um movimento natural com tendências fortes e direcionais.

O dólar vai subir ou cair nos próximos meses?

Segundo o último Boletim Focus, do Banco Central, agentes de mercado esperam que o dólar encerre 2026 no patamar de R$ 5,20. Mas a projeção dos especialistas consultados pelo Bora Investir é ainda mais otimista para a moeda americana.

“Meu cenário-base é de um dólar encerrando 2026 próximo de R$ 5,50, dentro de uma faixa entre R$ 5,40 e R$ 5,60”, aponta Raissa Florence, que espera um segundo semestre mais volátil e com viés de leve valorização do dólar frente ao real.

Ela destaca que o diferencial de juros reais no Brasil sustenta o fluxo estrangeiro para a renda fixa local. Além disso, a sensibilidade a temas fiscais deve aumentar com o calendário eleitoral, na visão da economista. “E se o Fed mantiver postura cautelosa, o diferencial pode não ser suficiente para neutralizar completamente o aumente da percepção de risco”, pontua Florence.

Vieira, da Convexa Investimentos, também vê espaço para valorização, mas no curto prazo. Para ele, a perspectiva é de alta do dólar até novembro. O analista lembra que em anos de eleição presidencial, o dólar costuma subir entre abril e outubro. Já o comportamento depois disso, segundo ele, dependerá não apenas de quem vencer, mas da viabilidade e do tom das propostas fiscais apresentadas na reta final.

Hernandez tem uma visão mais otimista e acredita que a reversão de tendência de queda, iniciada em maio, está bem consolidada e deve levar a moeda a um patamar próximo de R$ 5,30, principalmente apostando no diferencial de juro real entre o Brasil e EUA, com possível queda de 0,25 pontos percentuais na Selic e alta da mesma magnitude nos juros americanos.

Eleições ainda representam risco?

As eleições são um ponto de consenso entre os especialistas como principais variáveis do câmbio até outubro. Para Vieira, da Convexa Investimentos, o risco eleitoral continuará no radar dos investidores de forma intensa até a realização do segundo turno. O analista descreve o cenário político como “bastante complexo”, com um candidato à reeleição de perfil favorável com expansão de gastos, um adversário desgastado por controvérsias e um “outsider” ganhando tração. “Essa incerteza institucional é o maior de todos os gatilhos para a disparada do dólar”, afirma ele.

Hernandez, da Ativo Investimentos, reforça que enquanto a credibilidade do ambiente institucional está sob análise, a qualquer momento o fluxo estrangeiro pode voltar para casa com mais ênfase, apreciando o dólar novamente.

Para Florence, da Oz Câmbio, o ponto central não é necessariamente quem vence a eleição, mas qual será a percepção sobre a condução da política econômica, do ajuste fiscal e da estabilidade institucional.

O que pode impulsionar a alta do dólar

Segundo os especialistas consultados pelo Bora Investir, o cenário externo ainda deve ter forte influência, com fatores como inflação persistente nos EUA, juros altos do Fed, tensões geopolíticas e desaceleração global, que aumentariam a demanda por ativos-refúgio.

Vieira elenca ainda um fator pouco precificado pelo mercado. O fenômeno climático El Niño, que deve ter impacto nas safras, na inflação de alimentos e na infraestrutura. “Em situações de choque sistêmicos, o capital corre para o dólar como porto seguro”, destaca.

No campo doméstico, Florence cita a deterioração fiscal, perda de credibilidade das contas públicas, aumento da incerteza política e redução do fluxo de investimento estrangeiro como fatores que podem impulsionar a moeda.

Hernandez cita também o caso Master, que coloca na mira todos os poderes, e traz aversão ao risco.

O que vai derrubar o dólar

Para Florence, o movimento contrário da moeda americana viria de uma melhora simultânea dos cenários externo e doméstico, puxada por cortes de juros do Fed, redução das tensões geopolíticas, capital estrangeiro e confiança fiscal, somados às commodities. “Preços elevados para produtos exportados pelo Brasil fortalecem nossa balança comercial e contribuem para a entrada de dólares na economia”, comenta.

Para Vieira nada está garantido. O analista da Convexa relembra que em 2025 havia um consenso de que o dólar terminaria o ano nas máximas, mas a moeda acabou cedendo forte. “Isso não ocorreu porque o Brasil resolveu seus problemas fiscais, mas porque os tarifaços de Donald Trump fizeram com que diversos países reduzissem sua exposição em dívida americana, inundando o mundo de liquidez em dólares”, explica.

Ele acredita que as próprias eleições podem ser o gatilho de queda do dólar desta vez, caso o vencedor adote tom “sereno, pragmático e focado em reformas e responsabilidade fiscal”. Vieira defende que a confiança atrai recursos e derruba o câmbio.

Hernandez, da Ativo Investimentos, reforça que o aumento de prêmio de risco local ou a instabilidade maior na economia americana pode incorrer em mais fuga de capital para os países emergentes.

Vale a pena dolarizar a carteira agora?

Para os três especialistas existe um consenso: a dolarização deve ser vista como estratégia estrutural de diversificação e não como tentativa de acertar o melhor momento do câmbio.

Florence aconselha construir uma posição em dólar de forma gradual e por meio de aportes periódicos.

Já Vieira acredita que o investidor precisa entender que o dólar não é uma aposta direcional, mas uma ferramenta excepcional de proteção e diversificação. “Tentar acertar a melhor janela do câmbio é a receita para a frustração”, diz.

A recomendação de Vieira é destinar uma meta de compra, por exemplo, 20% do patrimônio a cada novo aporte. Já para quem possui capital acumulado, a dica é fazer remessas parciais ao longo de vários meses, diluindo o risco de comprar tudo de uma vez. “Esse foi um erro que custou caro aos investidores entre o fim de 2024 e o início de 2025”, diz.

Com o calendário eleitoral avançando, a única certeza entre os especialistas é que a volatilidade deve seguir ditando o rumo do dólar até dezembro, reforçando a importância da diversificação como estratégia.

Quer analisar todos os seus investimentos em um só lugar, em uma plataforma intuitiva? Baixe o APP B3

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore