Ted Bundy: tecnologia de DNA ligou serial killer a caso – 30/10/2026 – Ciência

Avanços recentes na ciência forense, incluindo um poderoso software capaz de reconstruir DNA degradado, permitiram que as autoridades policiais de Utah, nos Estados Unidos, encerrassem nesta semana um caso que havia sido arquivado 52 anos atrás e atribuíssem a Ted Bundy o assassinato de uma adolescente em 1974.

Cientistas do Departamento de Serviços Forenses de Utah ligaram o serial killer ao assassinato de Melissa Ann Smith. Foi o segundo assassinato ocorrido décadas atrás no estado americano atribuído a Bundy neste ano. Em abril, investigadores concluíram que ele também matou Laura Ann Aime. As duas vítimas tinham 17 anos.

O corpo de Smith foi encontrado algumas semanas antes do de Aime. Agora, os casos delas foram solucionados com meses de diferença, depois que o DNA encontrado em uma das cenas do crime se tornou fundamental para esclarecer o assassinato da outra.

Ligação entre as vítimas

Antes de ser executado, em 1989, Bundy confessou ter matado Aime. Mas foi só neste ano que uma nova e sofisticada tecnologia o ligou definitivamente ao assassinato dela.

Essa tecnologia não apenas encerrou o caso Aime, como também forneceu aos investigadores novas evidências para reexaminar o caso Smith.

“Foi o caso de Aime que se mostrou decisivo para solucionar o caso de Melissa Smith”, afirmou Heather Mills, gerente de ciências forenses do Escritório de Serviços Forenses de Utah.

Os cientistas forenses conseguiram estabelecer uma ligação entre os casos e Bundy usando uma tecnologia amplamente disponível chamada genotipagem de STR, além de um software conhecido como STRmix.

STR é a sigla em inglês para “repetição curta em tandem”, blocos repetitivos de DNA encontrados em determinados locais do nosso genoma. Esses locais têm nomes como CSF1PO e D8S1179. Cada pessoa possui STRs de diferentes comprimentos ao longo do genoma; portanto, se duas amostras apresentarem códigos repetitivos de comprimento idêntico em muitos locais diferentes, é provável que tenham vindo da mesma fonte.

“O que estamos analisando aqui são regiões que podem ser diferenciadas umas das outras não necessariamente com base em sua sequência, e sim em seu comprimento”, disse o especialista em bioinformática Dan E. Krane, da Wright State University, em Dayton, Ohio.

Probabilidade de correspondência

Em 2011, o Departamento de Polícia da Flórida inseriu o DNA de Bundy no Codis, o banco de dados forense de abrangência nacional, depois que um frasco com o sangue dele foi encontrado em um tribunal do estado.

Mais de uma década depois, investigadores de Utah analisaram uma amostra degradada de DNA encontrada na cena do crime de Aime usando o STRmix, um programa que realiza um tipo de análise chamado genotipagem probabilística.

Desenvolvido por cientistas da Nova Zelândia e da Austrália, o STRmix distingue diversas fontes de DNA presentes em uma única amostra. Isso pode ser especialmente útil quando o DNA de várias pessoas está misturado em uma cena de crime. O software usa modelagem para separar os perfis genéticos e fornece um resultado estatístico sobre a probabilidade de correspondência.

“Se duas pessoas estivessem usando a mesma camiseta, você poderia achar isso incomum, mas ainda poderia ser uma coincidência”, disse a geneticista biomédica Shoumita Dasgupta, da Universidade de Boston, ao explicar como o STRmix funciona. “No entanto, se duas pessoas estivessem usando a mesma camiseta, calça, meias, sapatos, relógio, colar e óculos, então a coincidência começaria a se tornar uma explicação menos provável.”

Depois de identificar um provável perfil de DNA por meio do STRmix, os investigadores o consultaram no banco de dados Codis. Houve uma correspondência.

Segundo Mills, os resultados deixaram poucas dúvidas de que o DNA encontrado em Aime pertencia a Bundy.

Pistas em amostra degradada

O caso de Smith apresentou um desafio diferente. “Tínhamos evidências coletadas de Melissa Smith, mas eram evidências de Y-STR”, afirmou Mills.

Esse Y se refere ao cromossomo Y, o que significava que os investigadores sabiam que o material vinha de um homem, mas determinar sua origem seria mais difícil.

“O teste de Y-STR pode ser muito valioso para identificar especificamente o DNA masculino”, disse Mills. “Ele é muito útil quando se têm amostras com baixa concentração ou degradadas, nas quais pode haver uma grande quantidade de DNA humano, mas só uma quantidade muito pequena de DNA masculino.”

Foi exatamente isso que ocorreu na análise do material genético relacionado ao assassinato de Smith.

O teste de Y-STR busca precisamente o mesmo tipo de blocos repetitivos que o teste de STR autossômico, porém se restringe ao cromossomo Y, o que o torna uma ferramenta valiosa em casos de violência sexual.

Havia, porém, um obstáculo. O DNA de Ted Bundy armazenado no banco de dados federal não seria útil desta vez. “Não sabemos qual é o perfil Y-STR dele, então podemos ter evidências, contudo não temos nada com que compará-las”, afirmou Mills sobre o impasse enfrentado por ela e seus colegas no laboratório forense.

Mas os investigadores já sabiam, graças à análise anterior, que Bundy havia matado Aime. “Sabemos que ele é o homem presente nessa amostra”, afirmou Mills. O teste de Y-STR, em conjunto com evidências não genéticas, confirmou que Smith, assim como Aime, foi vítima de Bundy.

Mills disse que foi gratificante ver uma nova tecnologia dar nova vida a evidências antigas.

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