Os trabalhadores com 40 anos ou mais já respondem por quase metade do estoque de vagas formais no Brasil. A fatia do grupo no estoque de postos formais chegou a 47,8% em 2025, ante 44,4% em 2022 —dado mais antigo disponível no painel da Rais (Relação Anual de Informações Sociais)—, alta de 3,4 pontos percentuais em quatro anos.
O movimento acontece simultaneamente ao envelhecimento da população: entre 2022 e 2025, o total de brasileiros com 40 anos ou mais cresceu 7%, para 92,2 milhões, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), enquanto a população de até 39 anos recuou 2,5%, para 158 milhões.
Já o peso dos trabalhadores com até 39 anos, que representavam 55,6% do total dos empregos em 2022, caiu para 52,2% no ano passado, de acordo com os dados da Rais, que é o registro administrativo dos contratos com carteira assinada.
“Hoje a idade mediana de um trabalhador está acima dos 40 anos. O mercado de trabalho tende a ser reflexo de muitas questões estruturais no Brasil, inclusive a demografia”, diz o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence.
A mudança reflete a própria composição etária da população: a faixa de 40 anos ou mais aumentou porque absorveu quem envelheceu, e a de até 39 anos diminuiu porque há menos jovens para entrar no mercado de trabalho.
Mas existem também componentes comportamentais nesse movimento, segundo especialistas, como, por exemplo, o fato de que os jovens, amparados pelo aumento dos benefícios sociais, estão estudando mais e, portanto, participando menos da força de trabalho, seja trabalhando, seja procurando emprego.
Na contramão, os mais velhos estão mais ativos no mercado de trabalho, já que a população está vivendo mais e com melhores condições físicas e mentais do que nas décadas anteriores.
Nesse contingente está Luciana Kubo, que aos 56 anos encontrou na construção civil uma nova etapa profissional depois de um longo afastamento do emprego formal. Formada em administração, ela começou a trabalhar aos 17 anos e em 1999, durante uma gravidez de risco, precisou deixar o emprego.
Nesse período, ajudou a administrar uma empresa de comércio eletrônico criada pelo ex-marido. O negócio chegou a faturar cerca de R$ 300 mil por ano, mas perdeu espaço com as mudanças tecnológicas e a popularização dos celulares. Luciana se dedicou à criação dos três filhos e ficou cerca de 20 anos fora do mercado formal.
Há cinco anos, quando resolveu retornar, temia que a idade e o tempo afastada dificultassem a recolocação. “Quem é que vai empregar uma mulher de 51 anos?”, perguntava a si mesma.
No entanto, em pouco tempo ela foi contratada para a área administrativa de uma construtora. E, depois de acompanhar de perto a rotina do canteiro, ela começou a atuar como fiscal de obras, no ano passado.
O mestre de obras Edilson da Hora, 44, que trabalha na mesma construtora, diz preferir contratar profissionais mais velhos, que considera mais comprometidos com o trabalho. Para ele, a construção civil tem perdido atratividade entre os jovens, em parte pelo esforço físico exigido.
O salto na participação dos 40+ no mercado de trabalho acende um alerta de longo prazo, de acordo com economistas. Com a transição demográfica em curso e a população economicamente ativa encolhendo progressivamente, qualificar a mão de obra jovem se torna estratégico para o crescimento do país.
“É preocupante que os mais jovens tenham mais dificuldades no mercado de trabalho, porque a população economicamente ativa vai encolhendo. Para o país conseguir crescer, vai ter que fazer mais com menos mão de obra. Essa mão de obra jovem precisa ser capacitada”, diz Janaína Feijó, pesquisadora do FGV Ibre.
MAIS ADMISSÕES E DEMISSÕES
Por trás do crescimento no estoque de vagas, existe uma renovação intensa de pessoal nessa faixa etária, que supera de longe a média do mercado, mostram dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que mede o fluxo do emprego com carteira assinada.
As admissões de trabalhadores 40+ avançaram 32% entre os primeiros oito meses de 2026 e o mesmo período de 2022 —bem acima dos 19% de alta nas contratações registradas pelo total do mercado formal. Já as demissões subiram 40% na mesma comparação, ante alta de 27,4% nos desligamentos totais.
Para especialistas, as admissões crescem tanto por duas razões. Além de a população estar envelhecendo, os empregadores buscam trabalhadores mais experientes para compensar a rotatividade da mão de obra jovem, que é ainda mais elevada do que a dos mais velhos.
Entre janeiro e agosto deste ano, os desligamentos a pedido representaram 38,9% do total das demissões no caso dos que têm até 39 anos, ante 32% entre os com 40 anos ou mais, segundo o Caged.
“Vemos setores contratando pessoas mais velhas, como no caso dos supermercados, que procuram admitir funcionários 50+, porque os empregadores entendem que esse grupo tem maior interesse em permanecer no emprego após a contratação e mostra maior senso de pertencimento”, diz Feijó.
Segundo ela, os jovens enfrentam falta de experiência técnica somada a traços geracionais, como a valorização de flexibilidade e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “Eles também possuem menor custo de troca de emprego, já que em geral ainda não são os principais provedores de suas famílias”, afirma.
Paula Ribeiro engrossa as estatísticas das admissões: em abril deste ano, ela mudou de vida e de estado aos 42 anos. Supervisora de recursos humanos de Macaé, no Rio de Janeiro, aceitou o convite para ser gerente da mesma área em Carangola, em Minas Gerais.
“Para mim foi muito importante ter a possibilidade de ascensão na carreira. Estava tão engessada que acreditava que já tinha acontecido tudo o que tinha para acontecer na profissão”, conta ela, que hoje trabalha em uma empresa de tecnologia para agronegócio.
No dia a dia da profissão, ela nota um interesse maior dos empregadores em contratar trabalhadores mais experientes. “Há casos em que as empresas estão preferindo contratar pessoas mais maduras, desde que estejam recicladas do ponto de vista profissional e antenadas com as novidades”, diz.
CORTES DE CUSTOS E REFORMULAÇÕES
Há um outro lado desse movimento, que é o aumento também expressivo das demissões. Por ganharem salários mais altos, os 40+ também se tornam alvos prioritários nos crescentes cortes de custos.
“Essa faixa acaba virando um alvo quase preferencial para as organizações em cortes de custos porque representam economia alta sem criar um conflito político muito grande, que é o que aconteceria se fossem eliminados os cargos ainda mais altos”, diz Alexandre Pellaes, pesquisador em tendências para o futuro do trabalho e professor da Fundação Dom Cabral.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
A segunda causa é estrutural: os empregadores vêm eliminando camadas intermediárias de gestão, justamente onde se concentram profissionais 40+. “Muitas pessoas que faziam supervisão e coordenação vêm sendo demitidas, com as empresas buscando adotar processos mais ágeis e quase autogerenciáveis”, diz Pellaes.
Fonte: Link da fonte













