Transtornos alimentares e neurodivergência têm em comum – 20/10/2026 – Não Tem Cabimento

Aversão à textura, cor, temperatura, cheiro e sabor dos alimentos; refeições restritas e repetitivas; rigidez cognitiva; dificuldade de interação social. Esses são alguns comportamentos que se sobrepõem entre transtornos alimentares e neurodivergências, como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Estudo clínico de 2020 indica que 20% a 35% das mulheres com anorexia nervosa atendem aos critérios diagnósticos para o TEA ou apresentam traços autistas elevados. A expressão do autismo em mulheres pode explicar a associação. Critérios diagnósticos baseiam-se no perfil masculino, enquanto elas costumam camuflar comportamentos e canalizar a necessidade de rotinas para o controle da dieta, calorias, imagem corporal e exercícios.

Segundo José Carlos Apolinário, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), sintomas da anorexia podem esconder o autismo. O isolamento para ocultar a alimentação, distorções perceptivas ou roupas largas se confunde com constrangimento e sobrecarga social apresentados por autistas.

Relatos da literatura médica, como o de Brede e colaboradores (2020), reúnem depoimentos de mulheres neurodivergentes para as quais a anorexia foi consequência do autismo: uma forma desadaptativa de lidar com o esgotamento autista (autistic burnout) e com a sobrecarga sensorial.

O TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo), associado ao autismo, restringe a alimentação por paladar, textura e outras características, não pela autoimagem. “Pode haver uma sobreposição de sintomas, já que a pessoa com transtorno do espectro autista pode ter o paladar muito aguçado, resistência a determinados sabores e texturas, porque sente que tem coisas diferentes na boca”, explica José Apolinário.

O tratamento requer equipe multiprofissional, com psiquiatra, psicólogo e nutricionista especializado em transtornos alimentares.

Segundo Ana Carolina Pereira Costa, supervisora de nutrição do Ambata (Ambulatório de Transtornos Alimentares da Santa Casa de São Paulo), o tratamento deve ajudar a reconhecer fome e saciedade, organizar rotinas e regular emoções sem recorrer à comida. Ela destaca que alguns casos podem requerer a inclusão de profissional de educação física, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, entre outros.

A combinação de autismo e TDAH opõe rigidez e impulsividade, alternando restrição e compulsão. Pode gerar ciclos de restrição, compulsão e purgação, como na bulimia nervosa ou no transtorno de compulsão alimentar, além de dificultar o reconhecimento de fome e saciedade e a regulação emocional.

No caso do uso de medicamentos que podem inibir a fome, como alguns usados para o TDAH, a nutricionista diz que é preciso alinhar com a equipe médica para entender qual é a menor dosagem que cause benefício terapêutico sem deixar o paciente completamente sem fome. Estabelecer o horário em que o paciente irá tomá-lo e outras diretrizes devem ser acordadas pela equipe. “É preciso trabalhar e conversar sobre essas questões com a equipe multidisciplinar que atende o paciente”, enfatiza.

A especialista sugere buscar nutricionistas no Programa de Transtornos Alimentares do IPqHCFMUSP (Ambulim) e na Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral).


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