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Ao infinito e além: está aberta uma nova era nas viagens de ultralonga distância

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No início do século XX, o brasileiro Alberto Santos Dumont fez história ao voar com seu 14-Bis no campo de Bagatelle, em Paris. A aviação despontava com um trajeto curtíssimo, de meros 220 metros — e, claro, a evolução das aeronaves de lá para cá ampliou significativamente as possibilidades de voar. No mais novo capítulo dessas inovações, a companhia europeia Airbus anunciou na semana passada o primeiro voo do A350-1000ULR, seu novo modelo de longa (ou melhor, longuíssima) distância, que acena com a quebra do recorde de voo comercial com a maior rota do mundo sem escalas. A marca hoje pertence ao trajeto Singapura-Nova York, que dura cerca de dezenove horas, a bordo de uma versão anterior do mesmo Airbus, o A350-900. Agora, após a finalização de todos os testes, a empresa australiana Qantas Airways receberá os doze primeiros modelos para operar a nova rota comercial mais longa do globo, que soma cerca de 17 000 quilômetros entre Sydney e Nova York ou Londres — percurso equivalente a quase meia circunferência da Terra.

O Airbus A350-1000ULR faz parte do enorme grupo de aeronaves criadas para as chamadas viagens de ultralonga distância, ou seja, com mais de quinze horas de duração. Em 2017, a Qantas lançou o Projeto Sunrise como forma de desafiar fabricantes de aviões a ultrapassar os limites conhecidos e aumentar as possibilidades de distância dos voos. O nome Sunrise vem de um momento da II Guerra em que a Qantas operava hidroaviões entre a Austrália e o Sri Lanka, carregando três passageiros e cerca de 70 quilos de correspondência. O trajeto durava 33 horas e permitia aos tripulantes observar o nascer do sol duas vezes.

PASSADO - Voo dos anos 1950: era possível até fumar — mas não evitar escalas (Frederic Lewis/Getty Images)

O voo de teste do primeiro Airbus A350-1000ULR aconteceu em Toulouse, na França, e durou cerca de três horas. Após mais uma rodada de checagem do avião, ele será remodelado para atender ao padrão requisitado pela Qantas. O primeiro modelo que será efetivamente entregue à empresa está em fase final de construção e chegará só em abril de 2027.

Criar a primeira rota de quase 22 horas de duração, saindo de Sydney rumo à Inglaterra ou à Costa Leste americana, é uma façanha tecnológica possível graças à inserção de um novo tanque de combustível na aeronave, o que aumenta a capacidade total do avião em quase 20 000 litros, o equivalente a cerca de 1 800 quilômetros adicionais no trajeto. Com ele, o Airbus A350 consegue percorrer a incrível distância de mais de 18 000 quilômetros (veja no quadro).

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Apesar da evolução, outro fator entra em campo nos voos de ultralonga distância: a capacidade do ser humano de permanecer em um ambiente pressurizado por tanto tempo. “Por mais que você viaje com níveis de conforto elevados, há limites físicos”, diz Gianfranco Panda Beting, publisher da revista Flap International. O ambiente pressurizado das aeronaves não é ideal para o corpo humano a longo prazo. O excesso de tempo no ar pode causar alterações no ciclo circadiano, com impactos no sono, no apetite e até nas habilidades cognitivas. “Estamos chegando a mais um limiar”, completa o especialista.

Infográfico comparando recordes de voos diretos: o atual, de Singapura a Nova York (18h40min, 15.349 km) com o Airbus A350-900ULR, e o prometido, de Sydney a Londres (22h, 17.016 km) com o A350-1000ULR, cujo alcance máximo é 18.520 km

O cuidado com a saúde dos passageiros é visível na aeronave que será utilizada pela Qantas. Após a entrega dos doze modelos, a companhia vai remodelar seus interiores. O que significa apostar na tendência global de mais regalias premium. Os assentos da primeira classe terão armários, televisão, cama e suíte fechada, e os da executiva, poltrona reclinável, mesa e armário menor. Já a classe econômica continuará viajando no mesmo espaço módico de sempre. Como consolo, a aeronave de 238 assentos terá um espaço batizado de Wellbeing Zone, onde qualquer passageiro poderá aliviar os desconfortos causados pelo demorado voo com alongamentos e afins.

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A chegada do novo Airbus A350-1000 assinala uma evolução exponencial desde os pioneiros grandes voos, no início do século XX. As viagens comerciais eram muito diferentes do que se vê hoje. Não apenas porque se podia fumar e até mesmo beber até cair durante o voo. Antes de surgirem os primeiros jatos — como o DC-8 e o 707, nos anos 1950 —, as viagens costumavam ser pouco prazerosas, já que as cabines não eram pressurizadas e se voava em baixa altitude. Viajar para um destino longínquo, como por muito tempo foi a Austrália, poderia levar dias, numa sucessão de escalas. A partir dos anos 1990, novas tecnologias e modelos cada vez mais avançados foram pouco a pouco rompendo as barreiras do tempo e do alcance. Ao infinito e além — eis o mantra da aviação hoje.

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999

Fonte: Link da fonte

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