A revista Scientific American incluiu um brasileiro em sua lista de 28 jovens cientistas em ascensão. O biólogo e neurocientista Kauê Costa, 36, é um dos nomes na relação que saiu na mais recente edição da publicação americana voltada à divulgação científica.
Hoje, o paraense é professor associado da Universidade de Birmingham, no estado do Alabama, Estados Unidos.
Antes de assumir o posto, em 2024, ele completou seu doutorado no Instituto Max Planck para Circuitos Neurais, na Alemanha, e fez pós-doutorado no Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês), parte da rede de Institutos Nacionais de Saude (NIH). Este último ocorreu sob supervisão do neurocientista Geoffrey Schoenbaum, pesquisador do Nida.
“Acredito que estou [na lista] porque meu ex-orientador me indicou”, diz o brasileiro. “Além disso, considero que os anos em que fui pesquisador de pós-doutorado com o Jeff [Schoenbaum] foram muito produtivos: publiquei 14 artigos em revistas como Nature, Nature Neuroscience e Current Biology. Tive muita sorte.”
Segundo a equipe editorial da Scientific American, fundada em 1845, a seleção envolveu centenas de candidatos indicados por pesquisadores e instituições. Após uma análise dos candidatos e do impacto científico dos seus trabalhos, foram escolhidos os 28 nomes que compõem a lista deste ano.
Costa diz que sempre quis ser cientista. Crescendo em Belém, imaginava que sua carreira estaria ligada ao estudo da fauna e flora amazônicas. “Aos 13 anos, ainda no ensino médio, recebi um prêmio do Museu Paraense Emilio Goeldi por um trabalho de observação de aves migratórias e pensei ‘essa vai ser minha carreira’.”
Porém, na graduação em ciências biológicas na UFPA (Universidade Federal do Pará), descobriu que seu interesse era mais nos cérebros do que na floresta. “Percebi que não era muito a minha praia essa coisa de campo, eu gosto mesmo de uma sala com ar-condicionado e banheiros”, brinca.
Foi também na UFPA que teve o primeiro contato com a neurociência, por meio do professor Manoel da Silva Filho, seu orientador de iniciação científica.
O pesquisador realizou iniciação científica em neurociência na UFPA e mestrado na FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP. Embora estivesse interessado nos mecanismos de quimiorrecepção do sistema nervoso, sentia que faltavam recursos para desenvolver suas pesquisas plenamente.
Inscreveu-se em programas de doutorado internacionais e foi aceito em três, nos EUA, na França e no Max Planck, na Alemanha. Escolheu o último porque as condições de salário eram melhores. “Lá descobri o sistema dopaminérgico, que até hoje é um dos focos principais do meu trabalho.”
Um dos neurotransmissores mais estudados do cérebro, a dopamina está associada a processos como aprendizado, recompensa e dependência. O biólogo investiga seu papel em um mecanismo conhecido como erro de previsão de recompensa, o sinal gerado quando a realidade contraria expectativas previamente estabelecidas. Esse processo, diz ele, é um dos motores do aprendizado.
Sua pesquisa busca entender como a dopamina atua em diferentes escalas: no funcionamento dos neurônios, nos circuitos cerebrais e em modelos computacionais capazes de prever matematicamente esses processos.
“Percebemos que a dopamina não está envolvida apenas em mecanismos de erro e acerto. Algumas regiões cerebrais geram representações cognitivas do mundo, e a dopamina também parece sinalizar erros de previsão relacionados a esses estados”, explica.
Em seu laboratório, os estudos combinam modelos animais, como ratos e camundongos, com ferramentas computacionais usadas para formular hipóteses e prever resultados. O grupo também iniciou colaborações com pesquisadores de psicologia da universidade para expandir essas análises em humanos.
Costa classifica sua pesquisa como ciência básica, voltada para compreender princípios fundamentais do funcionamento biológico. Um de seus artigos mais citados surgiu da descoberta de que uma linhagem transgênica de camundongos amplamente utilizada em estudos dopaminérgicos apresentava alterações comportamentais causadas pela própria modificação genética dos animais. A constatação levou à reavaliação de resultados anteriores obtidos com esse modelo.
“Muitos pesquisadores poderiam simplesmente ignorar os dados. Eu preferi investigar o que estava acontecendo”, afirma.
Casado com uma médica armênia e pai de dois filhos, de 5 e 3 anos, Costa diz que não pretende retornar ao Brasil de forma permanente neste momento. Ele mantém, porém, uma rede de colaboradores com pesquisadores de sua cidade natal, em Belém.
Nos EUA, a inspiração do logotipo de seu laboratório foi a arte marajoara, típica da região do Pará, uma forma que encontrou de se aproximar de suas origens. “Já é difícil encontrar brasileiros no círculo de pesquisadores do qual faço parte. Alguém do Norte, com uma história e ascendência cabocla e indígena, como a minha, é ainda mais raro. Por isso quis chamar atenção para algo único.”
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