Desde que se tornou um símbolo de inovação nacional, nos anos 1970, o etanol brasileiro esteve associado quase exclusivamente à cana-de-açúcar. Essa lógica começou a mudar nos últimos anos. Graças aos avanços tecnológicos do agronegócio, o milho se converteu em uma fonte competitiva de biocombustível e passou a ocupar espaço estratégico no setor energético. Antes restrito principalmente à alimentação animal e à indústria, o grão ganhou um novo destino nas usinas de etanol, como mostram dados do Balanço Energético Nacional. No mercado de combustível hidratado, vendido diretamente nos postos, a participação do etanol de milho aumentou de 13% para 24% nos últimos quatro anos. O avanço acompanha o crescimento da produção: a safra brasileira de milho, que há duas décadas era inferior a 50 milhões de toneladas, deve superar 130 milhões de toneladas na safra de 2025-2026, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento. Esse movimento também transformou a geografia dos biocombustíveis. Antes concentrada em regiões próximas às áreas tradicionais de cana, a indústria passou a acompanhar a força agrícola do Centro-Oeste, onde a oferta de milho e a infraestrutura da produção de grãos criaram condições para a instalação de novas usinas.
O avanço está diretamente ligado à transformação da agricultura brasileira. A criação da segunda safra de milho, conhecida como safrinha, período em que o grão é cultivado após a colheita da soja no mesmo ciclo agrícola, impulsionada por sementes mais eficientes, máquinas modernas e novas técnicas de cultivo, aumentou a oferta e criou novas oportunidades de uso. O modelo ganhou força principalmente no Centro-Oeste, onde a soja é plantada no início do ciclo e colhida no começo do ano, abrindo espaço para o cultivo do milho na sequência. Segundo Edwal Portilho, presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás, esse sistema elevou a produtividade da safrinha em 50% atualmente, na comparação com 2021. O aumento permitiu tirar mais grãos das terras sem depender da abertura de novas áreas, fortalecendo uma cadeia que passou a buscar novos mercados. “Assim, o que era uma cultura complementar passou a se tornar uma das principais engrenagens do agronegócio brasileiro”, afirma Portilho.
A vantagem está na eficiência energética da matriz de biocombustíveis: quando somadas as cadeias da cana e do milho, o Brasil apresenta alta produtividade e mantém competitividade internacional. “Do ponto de vista econômico, as duas cadeias se complementam”, diz Adenauer Rockenmeyer, do Conselho Regional de Economia de São Paulo.

Durante anos, o país ficou atrás dos Estados Unidos na produção de etanol de milho, principalmente pela escala e pela maturidade da indústria americana. Essa diferença começou a diminuir com a adoção de sementes geneticamente modificadas e a adaptação do cultivo para a entressafra da soja, aumentando o rendimento brasileiro. O etanol brasileiro exportado para os Estados Unidos ainda é principalmente o de cana, que tem uma eficiência energética superior. A disputa de mercado entre os dois países também envolve tarifas, com Washington questionando a entrada do nosso combustível, enquanto o Brasil argumenta que a tributação interna mais alta exige mecanismos de equilíbrio.
Essa briga comercial não interfere no bom momento do etanol de milho, negócio que passou a atrair grandes investidores. Um dos exemplos é a Inpasa, grupo do Paraguai que se tornou o maior produtor da América Latina. O movimento também é impulsionado pela dinâmica do mercado de açúcar. Com a maior rentabilidade do adoçante, parte das usinas prioriza essa produção em determinados momentos, abrindo espaço para uma fonte alternativa de etanol. Mesmo com a recente acomodação dos preços do petróleo, a expectativa de instituições financeiras como o banco Goldman Sachs é de que a cotação permaneça acima dos níveis registrados no início de 2026, mantendo a competitividade dos biocombustíveis. “O que estamos vendo é a construção de uma matriz de etanol mais diversificada, resiliente e conectada à expansão agrícola do Centro-Oeste”, afirma Rafael Chaves, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas. Aliás, a cana mantém a liderança, com 700 milhões de toneladas produzidas por ano. Em meio à transição energética e à busca de alternativas aos combustíveis fósseis, a combinação das duas culturas fortalece a segurança do país, reduz a dependência de uma única cadeia produtiva e amplia a competitividade da economia.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
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