Segurando uma prancha de surfe entre os seus três novos sócios —os empresários Giancarlo, Mauricio e Gianlucca Gariglia—, o ex-atacante Ronaldo Fenômeno anunciava em fevereiro deste ano que estava disposto a cumprir algo prometido em diversas entrevistas ao longo de 2025: dar uma pausa nos investimentos em clubes de futebol.
O investimento no Reserva Beach Surf, complexo de lazer com tecnologia de ondas artificiais em Alphaville, na Grande São Paulo, parecia a confirmação do distanciamento após o esgotamento mental que conta ter encarado durante a gestão de Cruzeiro e Valladolid, cujas ações ele vendeu em 2024 e 2025, respectivamente.
“Decidi que por um tempo eu quero coisas mais ‘tranquilas’, entre aspas, do que a indústria do futebol”, disse na ocasião.
Quase seis meses depois, o antigo craque está próximo de anunciar a compra de mais um clube: a tradicional Internacional de Limeira, a cerca de 150 km de São Paulo.
Ao lado do ex-lateral e amigo pessoal Roberto Carlos, o Fenômeno terá participação no grupo de investidores que fará a aquisição do projeto de SAF (Sociedade Anônima do Futebol) da agremiação de 112 anos.
“Eu e o Ronaldo estamos comprando a Inter de Limeira agora junto com o Enrico e com dois sócios nossos, um africano e um árabe. Ou seja, vamos pouco a pouco entrar outra vez no futebol do interior para que possam, além de ter grandes jogadores indo para a seleção, reorganizar esses clubes”, afirmou Roberto Carlos ao canal Wamo.
O novo projeto é encabeçado pelo engenheiro de formação Enrico Ambrogini, que desde 2013 trabalha como executivo de futebol. Ele já trabalhou com Ronaldo no Valladolid e atuou como diretor de Operações do Cruzeiro, além de ter sido CEO da própria Inter de Limeira entre 2019 e 2021.
“O Roberto, o Ronaldo e os outros sócios vão compor uma holding para fazer o investimento. Isso está dentro da proposta que apresentei ao Conselho [Deliberativo]. Alguns números já saíram, como um ‘business plan’ de R$ 454 milhões de receitas em dez anos. O aporte ainda é confidencial, mas tudo deve ser assinado até o fim de agosto”, explicou Ambrogini à Folha, sem detalhar como se dará a participação do Fenômeno.
“Isso eu não posso abrir ainda”, resumiu. “Ele está me ajudando, mas não está à frente do projeto”, continuou.
A proposta formalizada em abril ainda precisará ser aprovada em assembleia geral por pelo menos dois terços do Conselho do clube, composto de cerca de 70 pessoas.
Na última terça-feira (21), em reunião extraordinária, somente 1 dos quase 50 conselheiros presentes foi contrário ao acordo, que agora é alinhado entre os departamentos jurídicos do clube e dos investidores.
“Na verdade, começamos a conversar em dezembro com o Enrico. Inicialmente, a oferta era para o controle de 50% da SAF, mas indicamos que, se houvesse outro investidor qualificado, poderíamos negociar 80% das ações. Foi o que ocorreu com a entrada do Ronaldo”, conta Paulo César Scavariello Júnior, presidente do Conselho.
Até o momento, há entre as partes um memorando de entendimento assinado, com cláusula de confidencialidade, que impede as partes de divulgar maiores detalhes do projeto.
A Folha apurou que, nas tratativas, a Inter negocia a construção de um centro de treinamento. Atualmente, a equipe treina em um espaço de 67.453 m² localizado no quilômetro quatro da via Prefeito Jurandyr da Paixão de Campos Freire, ao lado do Horto Florestal de Limeira.
Apesar de o local contar com dois campos, vestiários e estacionamento, a área cedida pertence à União e seu uso pode ser descontinuado.
“Trabalhamos muito estes anos com a coletividade da Inter. Empresários locais ajudaram o clube, arregaçaram as mangas. Existia até um lema: ‘Ajude a Inter ou será o fim’. A chave da virada foi em 2017, no primeiro acesso. Depois, fomos para a A2 e para a A1, mas agora precisamos de outro modelo de gestão. Acho que será bom para os dois lados”, afirmou Scavariello.
O plano prevê, ao menos nos dois primeiros anos, em 2026 e 2027, um aporte de até R$ 20 milhões, com recursos destinados ao investimento nas categorias de base, à modernização da estrutura administrativa e a melhorias pontuais no centro de treinamento e no estádio Major Levy Sobrinho.
A longo prazo, o projeto prevê a recolocação da equipe na elite do futebol nacional e estadual. Atualmente, a Inter lidera a Série C do Brasileiro e disputará a Série A2 do Paulista.
“Hoje funcionamos só como clube de futebol. A parte social, em virtude de ações trabalhistas, teve a sede penhorada”, explica Scavariello.
“Tínhamos quase R$ 35 milhões em dívidas. Pagamos toda a parte trabalhista, praticamente toda a cível, e falta agora um rescaldo da tributária, que está hoje na casa de R$ 6 milhões”, completa.
Desde o seu aniversário de 110 anos, em 2023, o clube acena com a possibilidade de transição para SAF, quando foi aprovado por unanimidade o novo estatuto que permitia abrir capital para investidores.
Fundado em 5 de outubro de 1913, o clube viveu seu auge na década de 1980, quando venceu o Palmeiras na final do Campeonato Paulista de 1986 e, dois anos depois, sagrou-se campeão da Série B do Brasileiro.
A equipe viveu uma queda brusca logo em seguida —chegando até o último patamar estadual—, e só voltou à elite de São Paulo em 2019 após longa espera, mas acabou rebaixada novamente em 2025.
Fonte: Link da fonte
















