Guaxinins aprendem a fazer brinquedos em ilha no México – 27/09/2026 – Ciência

Enquanto turistas bebiam margaritas e relaxavam em um clube de praia próximo, em um dia quente de janeiro em Cozumel, no México, uma cientista observava um guaxinim fêmea jovem se divertindo.

A pesquisadora viu a guaxinim retirar de uma lata de lixo um longo recibo de papel, moldá-lo em forma de bola e começar a passá-lo de uma pata para outra, como se fosse uma bola de futebol.

Mas então, segundo os pesquisadores, o animal fez algo ainda mais surpreendente: ensinou sua família a fazer as bolas e a brincar com elas também.

De acordo com pesquisadores da Universidade de Miami, a descoberta é a primeira evidência já documentada de guaxinins fazendo brinquedos e brincando com eles.

A pesquisa, publicada no mês passado na revista Wild, revela uma prática cultural até então desconhecida e como ela é aprendida pelos animais.

Os cientistas definem cultura como informações ou comportamentos transmitidos pelo aprendizado, e não pela hereditariedade. Embora a fabricação de ferramentas —e até de brinquedos— já tenha sido observada em outras espécies, o estudo publicado na Wild representa a primeira vez em que guaxinins foram registrados praticando cultura material: usando objetos e aprendendo com outros a utilizá-los.

“Já assisti a centenas de horas de imagens de guaxinins”, diz Louis Lazure, biólogo e especialista nesses animais da Universidade Concordia, que não participou da pesquisa, “mas nunca vi nada parecido”.

O estudo se concentra nos guaxinins-pigmeus, espécie criticamente ameaçada de extinção da qual restam menos de 200 indivíduos na natureza e que vive exclusivamente na turística ilha de Cozumel. Os pigmeus são menores e têm pelagem mais clara que seus equivalentes do continente, adaptações adequadas aos verões quentes e úmidos do sudeste do México.

Os animais, que vivem nos manguezais e ecossistemas costeiros da ilha, tem como base de sua alimentação caranguejos e caracóis; porém, hoje, alimentam-se cada vez mais do lixo descartado pelos turistas.

“Há muita desnutrição entre esses guaxinins por causa de uma alimentação extremamente rica em salgadinhos de tortilla”, afirma Nessie O’Neil, bióloga especializada em guaxinins e primeira autora do estudo.

Os guaxinins frequentemente pedem os salgadinhos aos turistas ou os procuram nas lixeiras. Mas, ao observar os animais em janeiro, O’Neil notou que um deles buscava outra coisa.

“Vi uma das jovens correr até as lixeiras e, em vez de ir às lixeiras comuns de resíduos orgânicos, onde a mãe havia ensinado os filhotes a procurar salgadinhos de tortilla, ela foi até a de materiais recicláveis”, conta O’Neil. Foi então que pegou o recibo e começou a moldá-lo em forma de bola, mergulhando-o na água, rolando-o na areia e transformando-o em um brinquedo.

“Depois, colocou a bola no chão e começou a empurrá-la de um lado para o outro”, explica O’Neil.

Ao longo de 64 horas de observação, divididas em períodos de oito horas, O’Neil presenciou um total de 14 tentativas de fazer bolas. A irmã da primeira guaxinim também tentou fazê-las, mas, inicialmente, retirou do lixo os tipos errados de material.

“Se você fizer isso com papel-toalha ou guardanapo, ele vai se desfazer”, explica O’Neil. Quando conseguiu o material correto —um pedaço de papel mais resistente—, a irmã ainda assim fracassou. Isso levou a primeira guaxinim a pegar uma das tentativas malsucedidas e dobrá-la corretamente para ela.

Depois de observar, a irmã conseguiu criar seus próprios brinquedos. Mais tarde, ela e a irmã usaram uma das bolas que haviam feito para brincar com um grupo de quatis jovens, mamíferos aparentados que também são endêmicos de Cozumel.

“Estamos diante de algum tipo de interação social ou aprendizado social realmente fascinante e inédito”, afirma Michelle Szydlowski, bióloga da Universidade de Miami e coautora do estudo.

A mãe das fêmeas também tentou fazer bolas, mas não conseguiu, afirmam os pesquisadores, aparentemente porque estava bêbada. Depois de beber os restos de uma margarita abandonada, a mãe guaxinim saiu cambaleando e tentou fazer uma bola. Mas, após fracassar, a guaxinim mais velha se resignou a ficar largada na areia quente.

Essa foi “a parte realmente empolgante”, diz Szydlowski. “Como os guaxinins são muito táteis, vê-los manipulando objetos não foi uma surpresa tão grande. Mas ver uma tentando imitar a primeira, depois a primeira pegando o objeto e meio que refazendo-o, e então a mãe tentando também —é aí que a coisa fica realmente empolgante.”

Fazer brinquedos não é algo inédito no reino animal. Em 2010, pesquisadores relataram que chimpanzés fêmeas selvagens em Uganda faziam e brincavam com “bonecas” de gravetos. Golfinhos também já foram observados fazendo brinquedos com conchas, estrelas-do-mar e até baiacus vivos. Eles provocam os baiacus para que inflem e se transformem em bolas espinhosas, antes de passá-los de um lado para outro.

Segundo Lazure, o comportamento recém-documentado nos guaxinins se assemelha ao de outros mamíferos cujos filhotes gostam de brincar enquanto os adultos permanecem por perto, relativamente desinteressados. Ainda assim, neste caso, o comportamento é muito mais complexo e ressalta a capacidade cognitiva dos guaxinins, afirmou.

Szydlowski acredita que a descoberta evidencia os traços culturais distintos que podem surgir entre esses animais, o que talvez ajude lutar por sua proteção. “Sempre que conseguimos provar que existe uma sociedade aqui, que existe uma cultura aqui, temos mais chances, assim esperamos, de conseguir proteção para eles”, disse.

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