Com ingressos para partidas da Copa do Mundo da Fifa (Federação Internacional de Futebol) sendo vendidos a preços exorbitantes —e a NJ Transit planejando cobrar US$ 150 (R$ 744) por uma passagem de trem de ida e volta para jogos no MetLife Stadium— fica claro que assistir a jogos de futebol é caro. Um novo relatório afirma que jogar futebol também é.
O relatório, elaborado pelo Aspen Institute, aponta para um “sistema fragmentado”, no qual o acesso a campos de jogo muitas vezes depende da geografia e do custo.
“Sabemos que, assim como existem desertos alimentares, existem desertos de futebol”, disse Laurie M. Tisch, a filantropa cuja fundação encomendou o relatório. O documento afirma que “desertos de futebol” em partes dos bairros do Bronx, do Brooklyn e do Queens, na cidade de Nova York —assim como em Newark, Nova Jersey— deixam “bairros carentes sem locais para praticar futebol”.
Para agravar a escassez existente, o relatório aponta para uma enorme demanda por futebol que superou a oferta de espaços para crianças e adolescentes, inspirados por times como Real Madrid, Barcelona ou New York City FC, agora que seus jogos estão disponíveis por streaming.
O relatório afirma que a escassez de campos na cidade foi agravada pelo cambismo de autorizações no mercado negro, embora diga que o Departamento de Parques e Recreação revogou autorizações e mudou as regras para dificultar a venda de horários para times ou grupos.
O relatório também encontrou disparidades de gênero: meninas representam apenas 38% dos jogadores do ensino médio na cidade de Nova York e 42% no norte de Nova Jersey. A média nacional é de 45%.
Tisch, cuja família é coproprietária do New York Giants —”Eu entendia de futebol americano”, ela me disse— afirmou que esses números eram preocupantes. Ela disse que começou a prestar atenção ao futebol depois de conhecer Jessica Berman, comissária da National Women’s Soccer League, e depois que sua filha, Carolyn Tisch Blodgett, se tornou a proprietária principal do Gotham FC. O time venceu o campeonato da liga em 2023 e novamente no ano passado.
Quem joga?
O relatório diz que 250 mil crianças jogam futebol na região de Nova York e norte de Nova Jersey, e outras 150 mil crianças e adolescentes têm interesse em jogar. Só no Brooklyn, o relatório afirma, 110 mil crianças e adolescentes jogaram ou expressaram interesse em jogar nos últimos 12 meses, o maior número de qualquer bairro, seguido por Queens com 85 mil e Bronx com 63 mil.
“Uma das chaves para incentivar mais crianças a praticar esportes —especialmente futebol— é ter a oportunidade de jogar diretamente em seus bairros”, disse Jon Solomon, diretor de pesquisa do Programa de Esportes e Sociedade do Aspen Institute.
Tisch afirmou que sua fundação, em parceria com outra organização sem fins lucrativos, a Street Soccer USA, está construindo um campo de futebol no Queens, que será inaugurado em algumas semanas.
O departamento de parques informou que, em 2024, para lidar com o que um porta-voz chamou de “uso indevido de permissões”, reforçou a linguagem de seu sistema de inscrição online para “ajudar a reduzir as oportunidades de uso indevido”.
Os agentes de fiscalização de parques e os coordenadores de permissões também realizam inspeções “para confirmar se o grupo que recebeu a permissão é o que está usando o espaço”, disse ela.
Consciência sobre custos
Solomon disse que existe uma “pressão direta ou indireta que as crianças sentem” devido aos custos. Ele afirmou que as famílias gastaram 46% a mais com o esporte principal de uma criança em 2024 do que em 2019, o dobro da taxa de inflação nesse período.
“As crianças não são ingênuas sobre o que está acontecendo”, disse ele. Uma pesquisa para o relatório revelou que, quando perguntados sobre o que menos gostavam em jogar futebol, 32% dos jovens jogadores responderam que era “muito caro”. A preocupação com os custos foi, de longe, a resposta mais comum.
O relatório diz que o acesso ao jogo é frequentemente determinado pela posse de carro, em si um limiar econômico: cerca de 86% dos jogadores de alta renda são levados de carro aos treinos, enquanto apenas 21% dos jogadores de baixa renda são. Ao mesmo tempo, houve um declínio nas partidas que não envolvem deslocamento —as peladas.
“A ironia é que o futebol é um dos esportes mais fáceis de praticar, certo?”, disse Solomon. “Tudo o que você realmente precisa é de uma bola de futebol e encontrar um espaço. Pode ser um pequeno pedaço de grama ou até terra, e então criar algumas traves improvisadas.”
Mas, acrescentou ele, “perdemos a capacidade de permitir, de incentivar, que as crianças joguem futebol espontaneamente, sem programação, por conta própria.”
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