Em um cenário marcado não somente por juros altos como também por elevada inadimplência, fazer com que o dinheiro renda até o fim do mês, de modo a quebrar o ciclo de viver de salário em salário e poupar uma parte da renda, pode se tornar um verdadeiro desafio.
Conforme uma pesquisa recente feita pela Serasa em parceria com a Opinion Box, cerca de 50% da população brasileira gastou mais do que havia planejado no primeiro semestre deste ano.
O dado apresentado vem na esteira de outro, que aponta os níveis recordes de endividamento no Brasil. Segundo a Serasa, o país chegou à marca de 83,9 milhões de consumidores inadimplentes em agosto, o maior número já registrado na série histórica.
Para a empresa, esse número reflete um problema maior, relacionado às dificuldades de gerir o orçamento especialmente em um contexto em que gastar se tornou muito mais simples devido à facilidade de compras via internet e ao uso abundante do crédito e das compras parceladas.
Pequenos gastos que pesam no orçamento
De acordo com análise feita pelo economista Presley Vasconcellos, um dos principais pilares que sustentam esse panorama é a perda de vista da percepção dos gastos mensais, algo que resulta não somente da falta de planejamento orçamentário, mas do próprio advento da tecnologia, que permitiu uma maior facilidade para compras pontuais por meio do celular.
“O problema não é gastar. É perder a percepção de quanto da sua renda já foi comprometida”, menciona o economista.
“Hoje, você compra com poucos cliques, parcela sem sentir o valor total naquele momento e pode até apostar pelo celular. Quando cada decisão parece pequena, fica mais difícil enxergar o impacto que todas elas terão juntas no orçamento”, acrescenta.
A planejadora financeira CFP® Myrian Lund reforça essa perspectiva ao afirmar que essas pequenas compras pontuais de menor valor tendem a ter um impacto maior nas finanças na comparação, por exemplo, com gastos mais selecionados de maior valor agregado.
“São o que chamamos de gastos fantasmas: lanchinhos, estacionamento, presentes, bem como as despesas pontuais, tal como manutenção do carro, dentista, farmácia. Esse somatório das pequenas despesas, em geral, é o que arrebenta os orçamentos”, diz.
Quando o crédito compromete a renda futura
A amostra da Serasa aponta ainda a dependência em relação ao crédito por parte do consumidor brasileiro. Segundo os dados, pelo menos 57% dos entrevistados declararam usar essa opção com frequência e 49% mencionaram que utilizam o crédito como auxiliar para pagar despesas no dia a dia.
Isso ocorre, em parte, pela possibilidade proporcionada pelo parcelamento. Essa estratégia não é, por si só, um problema. A atenção ao fazê-la, contudo, precisa ser redobrada pois pode resultar em um quadro de deterioração das finanças no longo prazo, devido à possibilidade de juros associados, bem como ao acúmulo de prestações, que fazem gastos corriqueiros se sobreporem ao longo dos meses.
Vasconcellos destaca a ideia errônea de que o crédito seria uma extensão do salário como uma das principais causas da degradação das finanças. O economista compara essa situação, guardadas as devidas proporções, com as casas de apostas, em que ambos teriam um ponto em comum no que tange à ilusão de um complemento de renda dentro do orçamento.
“Assim como limite no cartão não é renda, uma possibilidade de ganho em uma aposta também não é dinheiro disponível. A pergunta não deve ser apenas ‘quanto eu posso gastar hoje?’, mas ‘quanto da minha renda futura já está comprometida e quanto da renda atual está investida?’”, questiona.
Planejamento ‘à prestação’
A ideia central não consiste numa demonização do uso do crédito, mas no foco em uma estrutura de planejamento que consiga lidar com ele e possibilitar um maior controle sobre gastos pontuais.
Como saída, Lund sugere a tática de montar um planejamento financeiro visando o longo prazo: um orçamento para os próximos 12 meses, de modo a incluir as despesas correntes e também os eventuais gastos pontuais já programados, como aqueles com presentes, datas comemorativas e viagens planejadas.
“Reproduzo os valores que se repetem e relaciono àqueles esporádicos, como material escolar, IPTU, IPVA, revisão do carro, dentista, médico particular. Depois de tudo incluído, vemos que a sobra a cada mês é diferente e verificamos a sobra anual. Daí, tira-se uma parte destinada à reserva de emergência e à aposentadoria”, afirma.
Além do próprio planejamento, é importante que as escolhas feitas referentes ao orçamento familiar sejam bastante ponderadas, para evitar o colapso.
“Infelizmente, não é possível fazer tudo que queremos, temos que fazer escolhas. Mais gastos em lazer, por exemplo, pedem uma maior disponibilidade de capital, e aí será necessário abrir mão de outros gastos, às vezes mais essenciais”, diz Lund.
Presley Vasconcellos, em sua análise, menciona que o ponto central consiste em um equilíbrio entre essas escolhas e o orçamento disponível. Os dois critérios precisam ser compatíveis para que haja a manutenção de uma vida financeira saudável e estruturada.
“No fim, toda escolha financeira compete pelo mesmo dinheiro e precisa caber não apenas no mês de hoje, mas também nos próximos”, conclui o economista.
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