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A União Europeia busca recuperar seu protagonismo global em meio a crises, fragmentação política e a ascensão de EUA e China. Com acordos comerciais e uma política industrial mais assertiva, o bloco tenta redefinir seu lugar no mundo, enfrentando desafios como a dependência energética e divisões internas que ameaçam sua coesão.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Ao longo de séculos, a Europa ocupou o centro da economia mundial, seja como berço das grandes rotas comerciais, da expansão colonial ou da revolução industrial que moldou o capitalismo. O Velho Continente concentrou poder financeiro, tecnológico, militar e político, influenciando padrões de consumo e regras que ajudaram a definir a globalização. Esse protagonismo, no entanto, vem sendo gradualmente diluído, à medida que o dinamismo econômico se desloca para outras regiões, especialmente a Ásia. Em 2026, a União Europeia enfrenta um cenário internacional turbulento, marcado pela eclosão do conflito entre Estados Unidos e Irã e pela agressividade diplomática de Donald Trump, pelo avanço tecnológico da China e pela infindável guerra na Ucrânia. Nesse ambiente em que predominam diretrizes agressivas, subsídios e barreiras tarifárias, o bloco tenta agora recuperar seu poder de influência — e, para isso, aposta em uma rede mais ampla de alianças comerciais.
Sob a coordenação da Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, a política comercial do bloco passou a ser centralizada em um núcleo executivo que negocia acordos em nome dos 27 Estados-membros e traduz interesses nacionais fragmentados em uma estratégia externa unificada. Esse desenho fortalece o uso das trocas como instrumento geopolítico, ao integrar abertura de mercados, política industrial e segurança econômica em uma mesma lógica de poder. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul se tornou um dos símbolos dessa tentativa de reposicionamento. Assinado em janeiro de 2026, após mais de duas décadas de negociação, ele cria uma zona de livre comércio entre economias que somam mais de 720 milhões de pessoas e cerca de 21 trilhões de dólares em PIB, prevendo a eliminação gradual de tarifas sobre 90% das trocas ao longo de até quinze anos. Hoje, o fluxo bilateral supera 120 bilhões de dólares por ano, com a Europa exportando sobretudo máquinas, veículos e produtos químicos, enquanto importa principalmente commodities agrícolas e minerais.

Em paralelo, Bruxelas avança em outras frentes estratégicas. A conclusão recente de um acordo com a Índia — um dos mercados que mais crescem no mundo — amplia o acesso europeu a uma economia de escala continental, enquanto negociações com países do Sudeste Asiático, como Indonésia e Tailândia, buscam diversificar cadeias industriais e reduzir a dependência da China. Já na relação com os Estados Unidos, o maior parceiro comercial do bloco, o esforço tem sido menos de abertura e mais de coordenação, ante uma crescente disputa por subsídios e investimentos. “O que a Europa busca agora é redefinir seu lugar no mundo”, diz Varg Folkman, diretor do European Policy Centre, de Bruxelas.
Esse movimento também se traduz em uma política industrial mais assertiva. Apenas o European Chips Act — um pacote de incentivos criado para reduzir a dependência externa e atrair fábricas de semicondutores para o continente — mobiliza mais de 49 bilhões de dólares em investimentos públicos e privados até 2030, com o objetivo de dobrar a participação europeia na produção global de chips, hoje em torno de parcos 10%. Em paralelo, regras de auxílio estatal foram flexibilizadas, permitindo financiamento a setores estratégicos nos países-membros, enquanto novas iniciativas ampliam o uso de subsídios, incentivos e compras públicas como instrumento de política industrial.

O chamado plano Buy EU, ainda em negociação, pretende direcionar parte dos mais de 2,3 trilhões de dólares anuais em compras públicas do bloco para produtos fabricados localmente, com exigências como até 70% de componentes europeus em veículos elétricos. A meta é elevar a participação da indústria no produto interno bruto europeu de 14% para 20%. Trata-se de uma resposta tanto aos subsídios implementados nos Estados Unidos quanto ao poderio industrial da Ásia, liderado pela China. Mais que abrir mercados, portanto, a Europa volta a proteger e reconstruir a base produtiva. “Sem uma atitude ambiciosa, eficaz e pragmática, a União Europeia está condenada a se tornar apenas um campo de atuação para seus concorrentes”, diz Stéphane Séjourné, comissário europeu para a indústria, ao defender a estratégia made in Europe.

Mas a tentativa dos europeus de fomentar um ciclo virtuoso esbarra na realidade. A eclosão da guerra no Irã trouxe de volta ao centro do debate a vulnerabilidade do bloco, sobretudo sua dependência energética. A União Europeia importa cerca de 60% da energia que consome, o que a torna altamente sensível a choques externos. A pressão sobre os preços já vinha desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. O Velho Continente passou a buscar alternativas ao gás da Rússia, então responsável por cerca de 40% do combustível consumido no bloco.
Desde então, o fornecimento foi substituído por fontes mais caras, como o gás natural liquefeito vindo do Catar. Como era de esperar, os preços dispararam. De 2021 a 2023, as contas de energia subiram até 50%, levando famílias a comprometer até 10% da renda com eletricidade. Para conter a escalada, os governos europeus injetaram cerca de 650 bilhões de euros em subsídios. Ainda assim, o resultado foi uma energia muito mais cara, que pressiona tanto a competitividade da indústria quanto o orçamento das famílias. “A questão energética deixou de ser meramente de mercado e passou a ser de segurança nacional”, diz Simone Tagliapietra, economista do centro de estudos Bruegel, da Bélgica.

A resposta europeia aos choques da geopolítica esbarra também em divisões internas. As divergências aparecem em temas como migração, política externa, sanções à Rússia e a própria condução da transição energética. Formado por 27 países, o bloco depende de consensos que vêm se tornando mais difíceis. Nos últimos anos, cresceram lideranças que contestaram abertamente as posições de Bruxelas. Na Hungria, Viktor Orbán foi o caso mais evidente. Em confronto recorrente com a União Europeia, ele adotou um modelo que chamou de “democracia iliberal”, em clara oposição aos princípios do pacto. Derrotado nas eleições de abril de 2026 por Péter Magyar, após dezesseis anos no poder, Orbán deixa um legado de atrito com a União Europeia que o novo governo promete reverter. Ao mesmo tempo, forças extremistas avançam em outros países. Na Itália, Giorgia Meloni governa com uma agenda nacionalista. Na França, o Reagrupamento Nacional, da radical Marine Le Pen, amplia sua influência. O resultado é um bloco menos coeso. “A Europa está mais dividida do que esteve em décadas e diverge em questões fundamentais, como imigração”, diz Timothy Garton Ash, historiador da Universidade de Oxford.
No horizonte mais amplo, o que se desenha não é apenas uma sucessão de crises, mas a lenta reconfiguração do papel da Europa no mundo. O continente viu sua participação no PIB global cair de cerca de 30%, no início dos anos 1990, para algo próximo de 15% hoje, segundo o Banco Mundial, enquanto o centro de gravidade da economia se deslocava para a Ásia. Não foi uma ruptura, mas um desgaste que veio corroendo, pouco a pouco, a capacidade europeia de ditar os termos da globalização que ela mesma ajudou a construir. “A Europa pode morrer, tudo depende das escolhas que fizermos”, afirmou o presidente francês Emmanuel Macron em discurso na Universidade de Sorbonne. Há nessa frase algo que vai além do alerta político: o reconhecimento de que o mundo moldado à imagem e semelhança da Europa já não existe. E que a nova ordem global se forma, em grande medida, sem ela.
Publicado em VEJA, abril de 2026, edição VEJA Negócios nº 25
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