Cientistas identificaram o primeiro ovo com embrião de Lystrosaurus, um ancestral de mamíferos que viveu há 250 milhões de anos. O achado foi descrito em um artigo publicado no último dia 9 na revista Plos One.
Assinam o artigo os pesquisadores Julien Benoit e Jennifer Botha, do Instituto de Estudos Evolutivos da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo (África do Sul), e Vincent Fernandez, da Unidade de Radiação de Síncrotron Europeia (ESRF, na sigla em inglês), em Grenoble (França).
O trabalho só foi possível devido ao uso de luz de síncrotron de alta resolução, uma unidade de radiação com mais precisão do que aparelhos de raio-X. Ela permitiu a análise do interior dos espécimes fossilizados envoltos por matriz rochosa, revelando estruturas ósseas em 3D do embrião dentro do ovo. O experimento foi realizado no ESRF, o segundo maior acelerador de partículas da Europa.
“Em quase 200 anos de história na paleontologia, após milhares de fósseis de Synapsida [ancestrais de mamíferos] serem descobertos, ainda não havia sido encontrado nenhum ovo fossilizado. Nosso estudo põe fim a essas especulações ao demonstrar que, sim, os Synapsida punham ovos”, disse à Folha Benoit.
A origem dos mamíferos data do período Carbonífero (entre 332 e 318 milhões de anos), quando os amniotas (grupo de vertebrados com quatro patas e que possuem membranas amnióticas no ovo) divergiram em dois grupos: Sauropsida (que inclui todos os répteis ancestrais e seus representantes atuais) e Synapsida (que inclui diversas linhagens de organismos já extintos e os mamíferos atuais).
Já no Permiano (entre 300 e 252 milhões de anos), esses organismos se diversificaram em formas únicas, muitas das quais desapareceram por completo na extinção ao final do Permiano, encerrando a era Paleozoica e dando início à Mesozoica (também chamada de “Era dos Dinossauros”).
No novo estudo, os cientistas analisaram três espécimes de Lystrosaurus escavados em 2008 em uma expedição liderada por Botha na bacia Karoo (África do Sul). Os pequenos organismos são perinatais, ou seja, foram fossilizados logo antes do nascimento.
Um dos espécimes está encurvado sobre si mesmo, o que já era um indicativo de ser um possível ovo, diz Benoit. “Mas as jazidas fósseis de Karoo têm muitos Lystrosaurus encontrados nesta posição, inclusive adultos, porque acreditamos que esses animais fossem escavadores. Então essa por si só não era uma prova suficientemente robusta.”
Foi apenas ao passar o espécime de Lystrosaurus pela linha de luz do síncrotron, cuja capacidade de gerar feixes de raio-X é dez trilhões de vezes maior do que aparelhos de raio-X comuns, que os pesquisadores conseguiram identificar características particulares do fóssil confirmando o ovo.
Primeiro: a casca fina e mole —ovos de casca dura, como de crocodilos, aves e dinossauros, só surgiram 50 milhões de anos depois.
Segundo: a presença de uma sínfise mandibular, que é um espaço ainda não completamente ossificado entre os dois ossos mandibulares —em todos os mamíferos atuais e também nos sinapsídeos, os filhotes possuem a sínfise completa no momento do nascimento.
“Essa característica não existe após o nascimento. Portanto, nosso animal só poderia ter uma mandíbula incompleta se ainda estivesse no ovo”, afirma Benoit.
O estudo possibilitou também aprofundar o conhecimento biológico da reprodução dos ancestrais de mamíferos (chamados de “stem-mammals”, ou mamíferos basais). Nestes, o leite, em sua origem, não era utilizado para amamentação, e sim para recobrir os ovos com secreções e protegê-los do ressecamento.
“Os ovos grandes, como o de Lystrosaurus, indicam que eles não amamentavam, pois o espaço extra dentro do ovo continha gema [o vitelo] para servir de alimento ao filhote”, afirma o paleontólogo. “Já os monotremados, que são os mamíferos viventes ovíparos, têm ovos muito pequenos, sem vitelo, e os filhotes crescem fora dos ovos graças ao leite produzido pela mãe. Isso calibra, portanto, a origem da lactação em algum momento entre 250 e 200 milhões de anos atrás.”
Os Lystrosaurus atingiam a maturidade sexual precocemente e eram altamente adaptados à vida em locais secos e inóspitos, o tipo de ambiente encontrado após um grande evento de extinção —o que, juntamente com o ovo recoberto por leite, deve ter contribuído para sua sobrevivência após o final do Permiano.
“A teoria mais aceita sobre a origem da lactação estipula que o leite primitivo não servia para alimentar os filhotes, mas para cobrir os ovos e protegê-los da dessecação e bactérias. Sem a prova da oviparidade, essa teoria permanecia em xeque. Nosso artigo finalmente traz evidências inequívocas dessa função.”
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