Flávio em debate se inspira em Marçal, Trump e em Jair – 19/10/2026 – Política

Quem se lembrava de um Flávio Bolsonaro (PL) cambaleante em debate na eleição municipal de 2016 do Rio de Janeiro, quando passou mal ao vivo e foi socorrido pelos adversários, viu uma performance muito diferente na noite de domingo (18), na Band.

Em embate direto contra o presidente Lula (PT), oponente no segundo turno das eleições presidenciais, o senador deu pistas de que havia sido bem treinado, repetindo frases de efeito, garantindo cortes para as redes sociais, fugindo de perguntas e assumindo uma postura provocativa e debochada contra o petista.

Lula, por outro lado, se deixou influenciar pelo comportamento do adversário —ficou irritado e exaltou-se em vários momentos, mostrando dificuldade para superar a estratégia de Flávio e controlar o debate.

A postura do senador no encontro deste domingo deu pistas da influência de três personagens: o influenciador Pablo Marçal (PRTB), o presidente americano Donald Trump e o próprio pai, Jair Bolsonaro (PL).

Poucos dias antes do debate, Marçal, que se aproxima do senador desde o início do ano e ajuda a estruturar o Ministério da Prosperidade anunciado pelo candidato do PL, afirmou ao jornalista Paulo Cappelli que haveria um “elementozinho surpresa” no encontro da Band.

O empresário sugeriu que colaborava com o treinamento do senador para o debate.

Segundo relatou um integrante da campanha de Flávio à Folha, a preparação ocorreu em Brasília e em São Paulo. Outro afirmou que ela envolveu apenas a equipe da campanha, mas que o senador pode ter ouvido conselhos de Marçal.

“Era meu sonho estar debatendo com Lula, só que agora vai ser o pesadelo do Lula debater com o Flávio, porque ele está sendo treinado por alguém que manja de… Espera que você vai ver”, disse o influenciador ao jornal Correio da Manhã.

“O Flávio está muito bem treinado, agora vocês vão perceber algo completamente diferente. Lembra da Dilma quando estava meio tonta no debate do SBT? É o que a gente vai começar com o Lula nesse debate da Band.”

Nesta segunda (19), a Folha questionou Marçal sobre qual conselho deu ao filho de Jair Bolsonaro (PL). “Pra ele desfrutar do debate. Não cair em provocação e responder rápido”, disse o empresário por mensagem de texto.

O influenciador chegou ao encontro como convidado do congressista, numa van junto ao ex-juiz Sergio Moro (PL) e ao ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo-PR), da Operação Lava Jato, e ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Durante entrevista que o senador deu a jornalistas da Band, Marçal apareceu próximo ao marqueteiro Duda Lima.

Os dois têm um histórico conturbado. Em 2024, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, Duda, que à época comandava a campanha do prefeito Ricardo Nunes (MDB), levou um soco de um assessor de Marçal, o videomaker Nahuel Medina. O marqueteiro deixou o debate no podcast Flow com o rosto sangrando.

Antes do encontro, no estúdio, o influenciador afirmou que Lula era a única pessoa no local já condenada por corrupção e lavagem de dinheiro, frase repetida por Flávio durante o debate. Ao longo do confronto, Marçal foi gravado na plateia dando orientações para Flávio.

O ex-candidato à Prefeitura de São Paulo, que disse que seria um “escudo” para o filho de Bolsonaro, produz uma onda de conteúdos em apoio ao candidato.

O PT protocolou uma ação de investigação judicial eleitoral no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pedindo a cassação da chapa do senador por suposto uso irregular das redes sociais de Marçal para disseminação de propaganda eleitoral e informações falsas.

O influenciador fez o grande debute na política quando concorreu ao Executivo paulistano. Naquele período, ele ficou marcado por disseminar mentiras contra Guilherme Boulos (PSOL), adversário na disputa. Como revelou a Folha, o empresário se aproveitou de um processo envolvendo um homônimo para acusá-lo falsamente de usar drogas.

Marçal também protagonizou momentos históricos nos debates daquela eleição, como quando provocou o apresentador José Luiz Datena e levou uma “cadeirada”, e quando irritou Boulos ao empunhar contra ele uma carteira de trabalho.

Esse DNA provocativo encarnou neste domingo em Flávio, ainda que em proporção reduzida. Os dois se mostraram adeptos da tática retórica conhecida no inglês como “whataboutism” —quando confrontados com uma pergunta difícil ou uma crítica, em vez de respondê-las, mudam de assunto com uma contra-acusação.

O caráter mais provocador do senador ficou evidente nos sucessivos momentos em que ele se colocava atrás de Lula no enquadramento das câmeras, fazendo gestos negativos com as mãos e balançando a cabeça.

Nesse aspecto, Flávio parece ter se inspirado em Donald Trump, que adotou a estratégia contra a democrata Hillary Clinton nos debates das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.

“Se ele estiver zombando de mim, eu quero direito de resposta. Se tiver um palhaço aqui é ele, não sou eu”, afirmou Lula em uma dessas ocasiões, irritado.

Ao fim do debate, Flávio apareceu pulando e comemorando com os aliados, como quem havia vencido o embate. Nas redes, apoiadores se comportaram da mesma forma e debocharam da performance de Lula.

Um integrante da campanha do senador afirmou que o encontro não foi brilhante, mas que considera que ele se mostrou mais sereno e controlado do que o presidente, conseguindo tirar o petista da zona de conforto.

Em pesquisa qualitativa da Quaest feita durante o debate, o desempenho do filho de Bolsonaro aparece levemente à frente do de Lula, na visão dos eleitores participantes. Segundo o estudo, Flávio foi visto como mais seguro, direto e claro, ainda que tenha sido criticado por deixar perguntas sem respostas.

Outra pesquisa com grupos focais, segundo relatos feitos à reportagem, porém, indicou que o senador foi visto pelos participantes como agressivo e violento, o que poderia afastar eleitores indecisos, que devem decidir o pleito de domingo (25).

Lula, por outro lado, para o grupo envolvido neste estudo, perdeu a chance de convencer o eleitorado e de falar de futuro, caindo na armadilha do filho de Bolsonaro.

No encontro, atitudes do senador também remeteram ao comportamento do pai. Assim como fazia Jair, Flávio escreveu com caneta um recado na mão —a palavra “corrupto”, para dizer que tinha “duas letrinhas, ‘PT'”.

O senador também reeditou uma cena muito similar ao debate da Globo entre Bolsonaro e Lula, em 2022. Naquele programa, o então presidente pediu que o petista ficasse mais perto: “Fica aqui, rapaz”. “Não quero ficar perto de você”, rebateu Lula.

Em 2026, Flávio repetiu a dose: “Fica aqui do meu lado, Lula, eu não sou um cara violento, não”. O presidente se esquivou, afirmando que quer “distância de miliciano”.

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