Uma leitora do The New York Times envia uma pergunta à terapeuta Lori Gottlieb: Meu marido, com quem sou casada há 38 anos, fez psicoterapia semanal presencial por 17 anos sem qualquer mudança em seu comportamento ou caráter. Acredito que o tratamento era voltado para ansiedade generalizada, procrastinação profunda e indiferença em relação a ganhar uma renda razoável.
A terapeuta dele, que também já foi minha, só reforçava esse padrão: não cobrava pagamento adiantado e aceitava apenas o que o convênio reembolsava, o que raramente acontecia, porque ele não fazia os pedidos de reembolso.
Fiquei incomodada, mas tolerei a situação porque não queria ficar sem ele. Eu disfarçava as bagunças que ele deixava, cuidava de todas as questões financeiras e o valorizava por ser um homem inteligente, gentil e amoroso. Acho que se trata de uma questão bioquímica: ele tem déficit de atenção sem hiperatividade. A terapia acabou há alguns anos, quando ele parou de ir, de repente.
Há dois anos, ele começou uma nova psicoterapia semanal remota, para as mesmas dificuldades. Consegui que ele passasse a pedir os reembolsos regularmente, mas o tratamento ainda custa um valor considerável. Ele diz “podemos pagar” —graças a mim.
Ele quer mudar, sinceramente, mas tem 87 anos e está com boa saúde. Sinto que não deveria interferir em seu processo. Um relacionamento anterior meu terminou quando meu noivo da época reclamou: “até quando você vai ficar em terapia?”
Meu marido se recusa a falar sobre a terapia dele, mas acho que ele faz isso por um suporte emocional supérfluo. Quero estabelecer um limite de mais um ano. Como devo lidar com isso?
Resposta da terapeuta: Entendo sua frustração, mas para ajudar você a decidir como agir, quero que fique claro o que pretende alcançar ao dizer ao seu marido que ele precisa parar a terapia.
Você mencionou três preocupações: o custo do tratamento, a falta de progresso visível e o peso de assumir responsabilidades financeiras e domésticas por causa do diagnóstico dele. Vamos analisar as três.
Sobre o dinheiro, pelo que você descreve, a terapeuta anterior cobrava apenas o que o convênio reembolsava e, mesmo quando ele não enviava os pedidos, continuava atendendo. Deixando de lado se essa era uma decisão clínica sensata, você gastou pouco ou nada com o tratamento dele.
Agora, com a terapia atual, ele está enviando os pedidos de reembolso e acredita que o valor restante é viável. A questão é que você considera o custo proibitivo, mesmo que ele não pense assim? Se for esse o caso, seu “limite” pode ser que ele precise encontrar um terapeuta que caiba no orçamento de vocês.
Se o custo não é proibitivo, mas você sente ressentimento porque gostaria de usar esse dinheiro com outra coisa —viagem, um hobby, uma paixão—, talvez valha a pena conversar sobre prioridades financeiras no casamento.
Pergunte a si mesma: se os papéis fossem invertidos e você sentisse que se beneficia de uma terapia semanal de longo prazo, estaria de acordo em encerrar o tratamento se seu marido dissesse “podemos pagar, mas prefiro gastar com algo mais importante para mim”? A resposta pode ajudar a entender se as prioridades de vocês estão alinhadas ou precisam ser negociadas.
Claro, sua resposta pode ser: “eu gastaria com prazer com a terapia dele —se estivesse funcionando.” E isso nos leva à questão do progresso. Para você, progresso seria uma “mudança no comportamento” dele, mas você também diz que ele tem déficits de atenção, que estão na raiz dos próprios comportamentos que tanto a frustram. (O transtorno de déficit de atenção sem hiperatividade hoje é diagnosticado como TDAH, tipo predominantemente desatento.)
Algumas pessoas com TDAH respondem bem a medicação. Se ele ainda não consultou um psiquiatra, explorar essa possibilidade pode ser um limite razoável a estabelecer.
Mas, se a medicação não for indicada —porque ele já tentou sem benefício, ou porque não tolera os efeitos colaterais e riscos médicos na idade dele—, talvez a terapia ainda seja útil. Não para reduzir os sintomas do TDAH, que são vitalícios, mas para ajudá-lo a lidar com eles.
Você lembra que terminou um relacionamento quando seu então noivo perguntou “até quando você vai ficar em terapia?”. Chamar a terapia dele de “suporte emocional supérfluo” soa como um eco daquele momento.
Seus próprios objetivos terapêuticos podem ter sido crescimento, autoconhecimento e mudança concreta, mas e se ele estiver buscando outra coisa, como regulação emocional, redução da ansiedade, estrutura ou um espaço para falar sobre aspectos importantes da vida —envelhecimento, morte, experiências com as quais quer fazer as pazes— na segurança e privacidade de uma relação terapêutica?
Ele pode se recusar a falar sobre a terapia justamente porque antecipa que você vai considerar supérfluo o que ele faz ali.
Assim como a terapeuta anterior foi útil para os seus objetivos, talvez valha a pena se perguntar como a terapia dele tem sido útil para ele. Imagine também como seria o estado emocional dele se não estivesse em terapia. É significativo que, depois de uma pausa curta, ele tenha sentido necessidade de voltar —ele deve encontrar algum benefício nisso.
E, se você conseguir reconhecer até as pequenas mudanças, como o fato de ele agora enviar os pedidos de reembolso, talvez veja a situação dele de forma mais ampla, em algum ponto entre “nenhuma mudança” e “mudança significativa”.
Nada disso, claro, diminui seu cansaço por assumir a maior parte da gestão da casa. Para isso, você poderia contratar um assistente ou alguém para cuidar das finanças, e liberar parte do seu tempo e energia?
Muitas vezes vejo casais em que uma pessoa é bagunceira e a outra é organizada. Quando sugiro contratar um serviço de limpeza que caiba no orçamento, a pessoa organizada às vezes diz: “mas se meu parceiro simplesmente arrumasse, não precisaríamos disso!” É verdade, eu costumo responder, mas você não se casou com alguém organizado. Essa é a pessoa que você tem. Então você pode ficar com raiva todos os dias, ou pode fazer outra coisa.
No seu caso, você se casou com um homem que valoriza por ser “inteligente, gentil e amoroso”. São qualidades importantes, e você pode levá-las em conta na hora de decidir como agir.
Uma opção é dizer: “querido, sua terapia é um desperdício de dinheiro porque você não está mudando, então não vou mais pagar por ela depois deste ano, e você pode lidar com o que precisar resolver em terapia por conta própria, pelo resto da vida.”
Ou você pode decidir ser quem muda: deixar de insistir que a terapia dele não serve para nada e passar a aceitar que ele a considera útil; deixar de sentir ressentimento por pagar pelo cuidado com a saúde mental dele e passar a considerar se ele, com toda sua disposição amorosa, pagaria pela sua, se a situação fosse invertida; deixar de focar no que não mudou e passar a notar as pequenas coisas que mudaram —ou que poderiam estar piores sem a terapia—; e deixar de fazer dele o problema para passar a construir uma solução, como buscar ajuda externa para as tarefas que parecem exaustivas demais.
O que mais me tocou na sua carta é que, apesar de todos esses problemas reais, você diz que não quer ficar sem ele. Aos 87 anos e com boa saúde, ele ainda está aqui. Você também. Depois de 38 anos de casamento, talvez seja a hora de aceitar o que pode e o que não pode mudar, e de aproveitar o tempo que vocês têm pela frente nessa história de amor, com todas as suas forças e imperfeições.
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