Ler Resumo
-
A disputa entre big techs acelera a corrida dos óculos inteligentes, vistos como sucessores dos smartphones na era da IA. Meta, Google e outras gigantes apostam alto em dispositivos com IA integrada, superando desafios do passado para revolucionar a interação tecnológica e o dia a dia.
-
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A disputa entre big techs acelera a corrida para transformar os óculos inteligentes no próximo grande dispositivo da era da inteligência artificial — e, possivelmente, nos sucessores naturais dos smartphones
Muito antes de os smartphones se tornarem uma extensão do corpo humano, a ficção científica já imaginava um futuro em que a tecnologia estaria literalmente diante dos nossos olhos. No clássico De Volta para o Futuro 2, lançado nos anos 1980, os personagens atendiam chamadas e interagiam com informações projetadas em óculos futuristas. Quatro décadas depois, a cena deixou o campo da fantasia. Os óculos inteligentes se transformaram em uma das principais apostas dos gigantes da tecnologia na disputa pelo próximo grande dispositivo da era digital, uma corrida que reúne Meta, Google, Samsung, TCL, Xiaomi e uma lista crescente de fabricantes dispostos a mudar a forma como as pessoas interagem com a inteligência artificial.
O Google foi pioneiro no desenvolvimento de óculos inteligentes. Em 2013, lançou o Google Glass, um dos primeiros projetos comerciais de realidade aumentada do mundo. O aparelho permitia projetar informações digitais diretamente no campo de visão do usuário, mas enfrentou obstáculos difíceis de superar: limitações técnicas, preço elevado, baixa autonomia de bateria e dúvidas sobre sua utilidade no cotidiano. Além disso, a câmera integrada provocou uma forte reação em torno da privacidade, já que qualquer pessoa ao redor poderia ser gravada sem perceber. O produto acabou descontinuado anos depois e se tornou uma referência clássica dos desafios de transformar inovação tecnológica em algo útil para o dia a dia das pessoas.
O fracasso, no entanto, não enterrou a ideia. Pelo contrário: serviu de inspiração para uma nova geração de produtos mais discretos, funcionais e integrados à inteligência artificial. E agora o Google está de volta: a empresa anunciou em meados de maio uma nova geração de óculos inteligentes equipada com o Android XR e integrada ao Gemini, sua plataforma de inteligência artificial. O novo dispositivo oferece interação conversacional avançada e integração com o ambiente. A IA consegue interpretar o entorno do usuário em tempo real, responder a perguntas, traduzir conversas, fornecer direções, resumir mensagens e até auxiliar em tarefas do cotidiano enquanto a pessoa caminha pelas ruas — e tudo isso sem exigir que ela tire os olhos do mundo à sua volta. O projeto está sendo desenvolvido em parceria com a sul-coreana Samsung e representa uma tentativa de enfrentar a Meta no segmento. Os novos óculos devem chegar ao mercado americano ainda neste ano, inicialmente em versão limitada. A Samsung também prepara seus próprios Galaxy Glasses, previstos para o fim de 2026, reforçando a percepção de que o setor entrou definitivamente na agenda de prioridades das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Se o Google abriu caminho para os óculos inteligentes, coube à Meta tornar a tecnologia viável comercialmente. O fundador Mark Zuckerberg vê os smart glasses como os sucessores naturais do celular. “Os óculos serão o principal dispositivo computacional da era da inteligência artificial”, afirmou recentemente o executivo, que transformou a categoria em prioridade dentro da companhia. Não por acaso, a Meta lançou uma ofensiva enérgica no segmento ao lado das marcas Ray-Ban e Oakley, controladas pela EssilorLuxottica. O objetivo é combinar tecnologia de ponta com design atraente — um detalhe que o mercado descobriu ser decisivo depois do fiasco do Google Glasses. O primeiro modelo da Meta, o Ray-Ban Stories, chegou ao mercado em 2021 com funções relativamente simples: reprodução de música, chamadas telefônicas e captura de fotos e vídeos. A virada veio em 2023, quando a companhia incorporou sua IA aos dispositivos. Daí por diante, os smart glasses começaram a se tornar verdadeiros assistentes digitais vestíveis.

Hoje, os modelos vendidos pela Meta conseguem interpretar comandos de voz, responder a perguntas em tempo real, traduzir frases, identificar objetos e executar tarefas sem o uso das mãos. No Brasil, os modelos disponíveis incluem o Meta Ray-Ban de segunda geração e os Meta Oakley HSTN e Vanguard, com preços de 3 000 a 4 000 reais. O produto mais sofisticado da companhia, porém, ainda está restrito ao mercado americano. O Meta Ray-Ban Display, equipado com uma pulseira neural (veja quadro), inclui uma tela integrada às lentes, capaz de exibir mensagens, legendas e até videochamadas diante dos olhos do usuário. O dispositivo foi apontado como uma das principais inovações de 2025 no setor de wearables. “Consideramos os óculos a categoria de hardware mais empolgante da era da IA”, afirmou a Meta, em nota. “Nossa visão é que os óculos se tornem nossos principais dispositivos de computação, pois são excepcionalmente capazes de compreender nossa perspectiva.”
A aposta de Zuckerberg acelerou uma corrida global. Segundo estimativas da consultoria Omdia, 8,7 milhões de óculos inteligentes foram vendidos no mundo em 2025. A Meta lidera o mercado com folga: dados da consultoria Counterpoint indicam que 82% dos smart glasses vendidos no segundo semestre do ano passado levavam a sua marca. As concorrentes mais próximas são as chinesas Rokid e Xiaomi. Essa última entrou na disputa com seus AI Glasses, equipados com câmera integrada, assistente virtual e recursos baseados em inteligência artificial. Embora sejam vendidos oficialmente apenas na China, os dispositivos já circulam em mercados internacionais por meio de importadoras. Foi em Nova York que a empresária Camila Miglhorini, CEO da Mr. Fit, a maior rede de fast-food saudável do Brasil, comprou seus pares. Hoje, ela usa os óculos durante reuniões, deslocamentos e viagens de negócios. “Essas ferramentas economizam tempo”, diz ela. “Quanto mais soluções aparecem, mais passam a fazer parte da rotina.”
A chinesa TCL também decidiu avançar com força nesse mercado. O modelo RayNeo X3 Pro, um dos mais sofisticados da categoria, usa telas micro-Oled capazes de criar efeitos tridimensionais diretamente diante dos olhos do usuário. O aparelho custa 6 300 reais e funciona como uma mistura de headset de realidade aumentada com assistente pessoal movido a inteligência artificial — uma proposta que indica até onde o segmento pode chegar quando design e tecnologia finalmente se encontram. Para Níkolas Corbacho, gerente sênior de produtos da TCL Semp, os smart glasses são a aplicação mais promissora da inteligência artificial embarcada em eletrônicos de consumo. Ele afirma que a companhia ainda avalia o mercado brasileiro para decidir quando lançará oficialmente o produto no país.
Por trás de praticamente todos esses dispositivos há uma empresa que raramente aparece nas prateleiras, mas que define os limites do que é possível: a Qualcomm. A fabricante americana domina 95% do mercado de processadores para óculos inteligentes. Seus chips equipam dispositivos de Meta, Xiaomi, TCL e Samsung. “Óculos são moda, mas quem usa os inteligentes tem uma realidade muito mais acurada”, afirma Helio Oyama, diretor de desenvolvimento de negócios da Qualcomm no Brasil. “A eficiência do trabalho, e de tudo no dia a dia, será elevada a outro nível.”
Há uma razão para tanto interesse das big techs nesse segmento. Diferentemente dos smartphones, os óculos inteligentes permitem que a inteligência artificial acompanhe o tempo todo aquilo que o usuário vê, ouve e faz — trata-se de um nível de integração, sem dúvida, revolucionário. O dispositivo também não aguarda ser consultado: ele está presente, observando o mesmo ambiente que seu usuário, pronto para intervir quando for necessário. É justamente essa dobradinha permanente que faz empresas como Meta, Google, Samsung e Xiaomi enxergarem nos smart glasses os possíveis sucessores do celular. Ainda existem obstáculos importantes, como preço elevado, limitações técnicas e preocupações com privacidade. Mesmo assim, a corrida já começou. E, desta vez, o mercado parece acreditar que os óculos inteligentes podem finalmente sair do universo da ficção científica para ocupar espaço no cotidiano das pessoas.
Publicado em VEJA, maio de 2026, edição VEJA Negócios nº 26
Fonte: Link da fonte









