Nós estávamos na estrada a caminho de Bilbao para a conferência da vez quando o zap da família me lembrou que Alemanha x Curaçao começaria em breve. Eu havia instigado a família a assistir apostando que o jogo entre possivelmente o melhor e o pior time da Copa só não acabaria em 12 x 0 porque a Alemanha, cavalheira, se limitaria mais uma vez a uma distância de 6 gols. Eu esperava 6 a 0, ou outro 7 a 1.
Na “parada biológica” seguinte, meu marido pegou o volante e eu resolvi que era chegada a hora do experimento de neurociência que tinha tudo para dar errado: testar se as bolinhas do “Vehicle motion cues” do iPhone (em ajustes/acessibilidade/movimento) de fato me ajudariam a assistir ao jogo dentro do carro sem ficar enjoada.
Se ler ou olhar para o telefone no carro em movimento já não é para qualquer um, meu cérebro autista hipersensível a estímulos sensoriais enjoa só do meu marido fazer curvas bruscas ou frear do nada –razão pela qual normalmente sou eu quem dirijo. Já escrevi aqui que enjoo é manifestação de ansiedade, e tenho cada vez mais convicção de que ansiedade é pura e simplesmente a sensação da falta de controle sobre os acontecimentos, o que se estende a futuros antecipados, mas começa da forma mais literal possível: com a incapacidade de explicar a origem dos eventos que estimulam o cérebro pelos sentidos, que dirá antecipá-los. Ainda estou educando meu marido a não me “fazer festinha” no ombro toda vez que passa por trás de mim, pois levo um bom minuto até acalmar meu cérebro hipersensível.
Donde o problema de ler, ou ver um jogo de futebol, dentro do carro. Com a cabeça baixa e o olhar focado, não se recebem os sinais da paisagem que poderiam explicar ao cérebro do carona (eu, no caso) os movimentos do seu corpo, jogado para lá e para cá nas curvas da estrada, e elas eram muitas: estávamos atravessando uma serra no norte da Espanha.
Pois pude assistir ao jogo inteirinho sem enjoo atravessando a serra e até entrando em Bilbao, o que me deu duas horas de coleta de dados para explicar meu feito inédito. Eu já sabia que o sistema usa a aceleração do telefone em mãos, dentro do carro, para fazer bolinhas brancas se moverem nas laterais da tela, às vezes invadindo o centro.
Mas agora entendo como elas funcionam. Enquanto o trabalho dos jogadores é fazer o destino da bola em campo ser imprevisível, o trabalho das bolinhas na tela –que às vezes se confundem com a bola no gramado, o único problema com o meu arranjo– é ajudar meu cérebro a explicar o que já está sendo a direção e intensidade do movimento do meu corpo sendo jogado para lá e para cá conforme meu marido faz curvas que eu não antecipo, pois não estou olhando a estrada.
Meu cerebelo, sempre acompanhando o que está sendo e comparando com o que ele esperava que fosse, agradece e se acalma, agora que tanto o sacolejo do meu corpo quanto o deslocamento da imagem no telefone relativo a ele têm explicação.
O que não tem explicação é como os tais jogadores brasileiros bambambãs de 2014 tomaram sete –sete!– gols da Alemanha num desempenho agora historicamente igualado ao de Curaçao com seu um golzinho. Ah, é verdade: acharam que bastava entrar em campo, sem treinar juntos, sem dar oportunidade aos cérebros dos jogadores para aprender a antecipar as ações e jogadas uns dos outros. Ancelotti, quer umas aulas de neurociência?
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