Bruno Halpern: ampliar acesso a emagrecedores é urgente – 17/08/2026 – Equilíbrio e Saúde

O endocrinologista Bruno Halpern, 43, presidente da Federação Mundial de Obesidade (World Obesity Federation), é crítico ao falar sobre o tratamento da obesidade no SUS (Sistema Único de Saúde). As opções são restritas, e o acesso, difícil, ele diz.

Diante do uso crescente de canetas emagrecedoras e dos bons resultados de alguns desses medicamentos, ele afirma que é urgente uma discussão séria sobre maneiras de ampliar o acesso. “Isso inclui discutir com as indústrias farmacêuticas formas de o custo ser reduzido”, diz, em entrevista à Folha.

Halpern afirma, contudo, que oferecer medicamento não deve ser a única medida. É necessário ter médicos que saibam prescrevê-lo, acompanhem os pacientes no longo prazo e avaliem efeitos colaterais e a eficácia.

O especialista assumiu a presidência da federação no último dia 17 de julho, em sucessão ao pesquisador mexicano Simón Barquera. À frente da entidade, diz querer levar educação em saúde a mais profissionais. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Abrir o mercado para laboratórios internacionais, com a anuência da Anvisa, democratizaria o tratamento da obesidade no Brasil?

Toda inovação científica, no início, não chega para todos. O custo de produção de um medicamento novo que seja eficaz é alto. Isso não aconteceu somente com os remédios para obesidade, mas [aconteceu também com medicamentos] para hipertensão e as estatinas.

Quando falamos em obesidade, há um desejo individual maior de tratar. As pessoas escutaram a vida inteira que podiam comer menos e se exercitar mais. Tentaram e não conseguiram. Quando surge uma opção, querem imediatamente. O lado bom é que já existem medicações boas. É o caso das produzidas com semaglutida, cuja patente expirou.

Abrir mercado para produtos não registrados não é o caminho que devemos seguir. A lei da patente do Paraguai difere da do Brasil. A Anvisa é uma referência mundial em agência regulatória.

O que ocorre não é a democratização, mas o uso desordenado de medicamentos sem controle de segurança, inclusive com contrabando, que é crime. Não será pegando traficante na fronteira que vamos resolver o problema, mas, sim, se tivermos uma discussão séria na sociedade, do que nós podemos conseguir para ter mais acesso. Isso inclui discutir com as indústrias farmacêuticas formas de o custo ser reduzido e alternativas de maior acesso.

Com a invasão das canetas paraguaias, a Anvisa perdeu o controle?

Eu acho que a Anvisa está trabalhando para ter regras mais claras e evitar brechas que levem à insegurança jurídica. Mas a situação está fora de controle, sim.

O assunto é importante e pede urgência em uma conversa mais franca entre a Anvisa, as sociedades médicas, o Ministério da Saúde, a Conitec [Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS] e as indústrias farmacêuticas para que todos trabalhem em conjunto e encontrem soluções. Do jeito que está não pode ficar.

Como ajudar o paciente com indicação para uso de canetas emagrecedoras que não tem condições financeiras para o tratamento?

Se tivermos esses medicamentos no SUS, inicialmente, será para uma população prioritária, com algumas indicações.

No ano que vem estarei em Nova York na Assembleia Geral da ONU que discutirá a cobertura universal de saúde. Cobertura universal de saúde significa acesso a um espaço em que as pessoas com obesidade possam ser ouvidas e tratadas.

Existe uma tendência de que vamos conseguir ter alguma coisa a preços menores e no SUS num período curto de tempo. Abeso e a Federação Mundial estão trabalhando nesta direção como podem. Com o número de pessoas com obesidade e o alto custo dessas medicações, não é uma coisa que ocorre muito rapidamente.

Como a Federação Mundial de Obesidade avalia a incorporação desse tipo de medicamento em sistemas públicos de saúde de países em desenvolvimento?

Existem diretrizes em desenvolvimento pela federação para que os países possam usar como base nas suas políticas públicas. No ano passado, a Organização Mundial da Saúde considerou esses medicamentos GLP-1 como essenciais à humanidade, embora tenha se referido somente à população com obesidade, diabetes e doença cardiovascular ou renal, e soltou uma diretriz sobre o uso. O documento da OMS foca países de baixa e média renda.

A tendência é que os de alta renda conseguirão oferecer medicamentos para a maioria da população, e os de baixa renda vão focar em grupos prioritários. O ideal seria o tratamento precoce, mas considerando que daqui a dez anos metade da população mundial vai ter obesidade ou sobrepeso, não é possível.

Estamos falando de remédio, mas isso não significa que não devemos continuar investindo em estratégias de prevenção.

Qual seria a linha de cuidados ideal para obesidade?

Hoje, no SUS, o único tratamento disponível para obesidade em âmbito nacional é a cirurgia bariátrica —e a indicação cirúrgica não é para todos com obesidade. É uma estratégia isolada no tempo e no espaço. Para fazer o procedimento [o paciente] precisa ter tido dois anos de tratamento clínico malsucedido. Só que o SUS não oferece esses dois anos [de tratamento].

Depois da cirurgia bariátrica você deve tomar vitaminas e ter um acompanhamento. Também não tem.

Disponibilizar remédio no SUS não resolve 100%, porque é necessário ter médicos que saibam prescrevê-los, que acompanhem os pacientes a longo prazo, avaliem efeitos colaterais e a eficácia. Tomar o remédio e não ter nenhum cuidado alimentar pode causar deficiência de vitaminas e proteínas e perda de massa muscular. O ideal é ter um acompanhamento nutricional, mesmo sem uso de medicamentos, ter educadores físicos e psicólogos para alguns, a depender de condições mentais importantes.

O grande problema é que, quando pedimos a incorporação de uma medicação à Conitec, eles falam que é caro. No caso de outras doenças sempre haverá alguma opção de tratamento; para obesidade, não.

Como a gente não faz nada, qualquer coisa que você ofereça é muito caro. Qual o custo da inação, de não fazer nada? Estima-se que 3% do PIB mundial são gastos com obesidade. E [esse índice] vai crescer mais nas próximas décadas.

O ideal de uma linha de cuidados seria um ambiente com acesso a profissionais de saúde que entendam do que se trata —o que não é realidade, porque a maioria não entende nada sobre obesidade e não aprendeu isso na universidade. E que o médico pudesse ter a liberdade de prescrever medicamentos, continuar com eles se a pessoa responder bem, fazer cirurgia em quem precisa e dar o acompanhamento depois. Exercício físico é importante. As classes sociais mais altas têm tempo e espaço para praticar. Para a população mais vulnerável ainda é um enorme gargalo.

Percebe que andamos em círculos? O que a Conitec diz? Não vamos oferecer medicamento, continuaremos oferecendo dieta e exercício. Onde as pessoas vão se exercitar? Quem vai passar a dieta? Tem nutricionista para todos? Como reduzir o consumo de ultraprocessados, se são baratos e não precisa cozinhar? Como seguir diante de um ambiente que favorece o consumo de alimentos de baixa qualidade?

O avanço rápido dos medicamentos agonistas de GLP-1 pode impactar nas políticas públicas de prevenção? De que forma?

É o receio de quem trabalha com prevenção, mas eu acho que não. A prevenção e o tratamento devem correr juntos, não um em função do outro.

Emagrecer virou símbolo de status social e financeiro. O senhor concorda com a afirmação?

Concordo. Com esses novos remédios, houve uma redefinição de padrões de beleza. Estamos voltando para a ideia de que ser mais magro é melhor. Principalmente a alta sociedade.

À frente da Federação Mundial de Obesidade, quais medidas pretende implementar?

A federação funciona com planejamento estratégico de longo prazo. Não é porque assumi a presidência que posso mudar o que está traçado.

O que eu vejo como prioridade é a educação. Quero que mais médicos e profissionais de saúde entendam de obesidade. Temos programas de educação ao redor do mundo para isso.

No discurso de posse eu coloquei alguns pontos. Um deles foi a ideia de que não podemos considerar prevenção e tratamento como inimigos ou excludentes.

Outros pontos são os sistemas de saúde nos países de baixa e média renda e o acesso à cobertura universal de saúde nesses locais. Centrar também em lideranças e ciência em países periféricos, para podermos ter bons cientistas e boas pesquisas, e garantir acesso a tratamentos evidence-based (baseados em evidências). Também é importante melhorar a forma de comunicação para combater a desinformação.

RAIO-X | BRUNO HALPERN, 43

Endocrinolista, é presidente da Federação Mundial de Obesidade e uma das principais referências internacionais no estudo e tratamento da doença. Atua como colaborador do Grupo de Obesidade da USP e investigador principal em estudos clínicos na área de endocrinologia. Também é editor associado da revista científica Clinical Obesity e autor e coautor de dezenas de artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais. Já presidiu a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

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