Durante anos, conquistar um Grammy esteve entre as maiores ambições declaradas pelo BTS. Os integrantes repetiram em entrevistas que a principal premiação da música mundial representava um reconhecimento que ainda faltava à trajetória do grupo sul-coreano. Nesta quarta-feira, porém, a banda surpreendeu fãs e a própria indústria ao anunciar que não inscreverá suas músicas para a 69ª edição do Grammy Awards, prevista para fevereiro de 2027.
O comunicado foi curto:
“Decidimos não submeter nossas músicas ao Grammy este ano. Esperamos que a música possa ser ouvida e acolhida pelo que ela é, independentemente da região ou do idioma”, escreveu o grupo nas redes sociais. Em seguida, agradeceu ao ARMY, seu fandom, e aos admiradores que continuam apoiando a carreira da banda.
Embora o BTS não tenha explicado os motivos da decisão, o momento escolhido dificilmente passa despercebido. O anúncio ocorre poucas semanas depois de a Recording Academy revelar cinco novas categorias para a edição de 2027, entre elas a inédita Asian Pop Music Performance, criada para reconhecer performances de artistas do pop asiático.
Segundo a Academia, a categoria busca reconhecer a excelência artística da música pop produzida na Ásia. A novidade, entretanto, dividiu opiniões na Coreia do Sul e em outros mercados asiáticos.
Parte da indústria recebeu a iniciativa como um reconhecimento tardio da influência global alcançada pelo K-pop e por outros gêneros asiáticos. Outra ala interpreta a medida de forma oposta: em vez de ampliar a inclusão, a nova categoria poderia criar uma espécie de “divisão paralela”, restringindo artistas asiáticos a uma disputa específica em vez de consolidar sua presença nas categorias consideradas mais importantes da premiação.
A discussão não é inédita. Ao longo de sua história, o Grammy criou categorias dedicadas a diferentes gêneros e mercados, como ocorreu com a música latina e o R&B. Defensores dessas mudanças argumentam que elas ampliaram a visibilidade de estilos antes pouco representados. Já os críticos afirmam que a segmentação pode retardar o reconhecimento desses artistas nas categorias principais.
O BTS conhece esse debate de perto. O grupo tornou-se o maior símbolo da internacionalização do K-pop, liderou rankings globais, bateu recordes de vendas e streaming e acumulou indicações ao Grammy, mas nunca conquistou o prêmio. Para muitos fãs, havia um contraste entre o impacto comercial e cultural da banda e o reconhecimento recebido pela principal premiação da indústria fonográfica.
Em 2026, a relação entre o Grammy e o universo do K-pop parecia caminhar para uma nova fase. A música “Golden”, tema da animação da Netflix KPop Demon Hunters, tornou-se a primeira canção ligada ao K-pop a vencer um Grammy ao conquistar o prêmio de Melhor Canção Escrita para Mídia Visual. A criação da categoria dedicada ao pop asiático reforçou a percepção de que a Recording Academy buscava responder ao crescimento da música produzida na região.
Foi justamente nesse contexto que o BTS decidiu ficar de fora.
A frase escolhida pelo grupo, o desejo de que sua música seja ouvida “além da região ou do idioma”, foi interpretada por muitos como uma defesa de um reconhecimento universal, sem que a origem geográfica dos artistas determine a forma como são avaliados.
Ao abrir mão da disputa justamente no ano em que o Grammy cria uma categoria específica para o pop asiático, o BTS, considerado o mais importante grupo de música do mundo, transforma uma decisão administrativa em um gesto que muitos no mercado da música interpretam como uma decisão política.
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