A Câmara aprovou nesta quarta-feira (22) um projeto que obriga a comprovação da origem do ouro, cria um sistema de rastreabilidade e abre espaço para responsabilizar toda a cadeia de compra e venda do metal.
As medidas visam a dificultar a comercialização do metal extraído de áreas ilegais, como terras indígenas e reservas ambientais. O texto segue para o Senado Federal.
O projeto define que o sistema de rastreabilidade deverá incluir o registro obrigatório de todas as transações e dos envolvidos na cadeia produtiva, com marcação física e digital para identificar a origem legítima e combater a comercialização ilegal em todo território nacional. O sistema servirá para registro, controle e gestão das informações.
A marcação será confeccionada, aplicada e gerida pela CMB (Casa da Moeda do Brasil) e conterá dispositivos de segurança aprovados pela ANM (Agência Nacional de Mineração), possibilitando a verificação de sua autenticidade por meio de equipamentos de inspeção.
As pessoas e empresas que exerçam atividades autorizadas de extração, tratamento, refino, beneficiamento, depósito, custódia, transporte, primeira aquisição, compra e venda de ouro, inclusive para exportação, serão obrigadas a utilizar o sistema.
O texto que reformula as regras de comércio e transporte de ouro no Brasil foi enviado ao Congresso pelo governo federal em junho de 2023. O projeto foi elaborado em um grupo de trabalho coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e criado após o STF (Supremo Tribunal Federal) decidir pela suspensão da presunção de boa-fé e da legalidade do ouro.
A lei de 2013 dizia que as distribuidoras de ouro poderiam aceitar a palavra do garimpeiro como garantia de que o metal vinha de uma área legal, ou seja, as empresas compradoras não eram obrigadas a checar a real origem do ouro, o que facilitava a entrada ilegal no mercado.
A proposta também exige que o transporte e a custódia de ouro ocorram acompanhados de Guia de Transporte e Custódia de Ouro, a ser gerida pela ANM. O ouro que circular fora dessas condições poderá ser apreendido e repassado à União.
A guia deverá conter os dados completos de identificação do vendedor e do comprador, além do número do processo que permite o funcionamento do garimpo e da licença ambiental, entre outros.
O projeto também institui a Touro (Taxa de Registro das Transações e de Marcação Física do Ouro), que constituirá receita vinculada no orçamento geral da União e será destinada integralmente à CMB.
Será cobrada taxa de R$ 2 pela emissão da guia e de R$ 5 pela marcação física da grama de ouro. Os valores serão atualizados anualmente pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
O texto define o ouro como um ativo financeiro ou instrumento cambial até a primeira venda, que deverá ser feita por titulares de garimpos autorizados e exclusivamente para instituições integrantes do SFN (Sistema Financeiro Nacional) autorizadas a funcionar pelo Banco Central —as DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários).
As instituições deverão registrar todas as aquisições de ouro realizadas, identificando o responsável pela compra, a região aurífera produtora, o número de permissão do garimpo, a massa de ouro bruto e a identificação do vendedor. O primeiro pagamento deverá ser feito em reais com nota fiscal obrigatória.
As instituições do SFN deverão adotar medidas de prevenção da utilização do sistema financeiro para a prática dos crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, além de comunicar autoridades em caso de irregularidades.
O texto também proíbe que pessoas condenadas por organização criminosa, lavagem de dinheiro, grilagem, extração ilegal de ouro, entre outros, sejam sócios ou administradores de instituições do SFN. A vedação também vale caso as pessoas tenham cônjuges, companheiros ou parentes até 3º grau condenados pelos crimes.
Folha Mercado
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A extração ilegal de ouro em terras indígenas gera consequências para os povos tradicionais. Uma delas advém da contaminação por mercúrio, metal utilizado para facilitar a extração do ouro.
O território yanomami, por exemplo, chegou a registrar a presença de 20 mil garimpeiros em diferentes pontos em 2023, o que gerou uma crise humanitária. Casos de desnutrição grave e de outras doenças associadas à fome, como pneumonia e diarreia, tornaram-se rotina, assim como a incidência de malária.
A invasão era tolerada e estimulada pelo governo de Jair Bolsonaro (PL). No começo de 2023, o governo Lula (PT) deu início a ações de emergência em saúde na terra yanomami e a operações para expulsão de garimpeiros. Entre 2023 e 2025, a PF (Polícia Federal) realizou 24 operações, e as investigações seguem em curso.
O projeto foi criticado por deputados do PL e Novo, que foram contrários, por exemplo, à proposta de marcação para rastreabilidade do ouro. O deputado Joaquim Passarinho (PL-PA) também criticou a classificação do ouro como ativo financeiro e disse que o “projeto vai fazer um cartel da compra do ouro” ao restringir as empresas que podem comprá-lo.
“Esse projeto busca enfrentar o garimpo ilegal, busca fazer o rastreamento do ouro para que não tenhamos territórios que sejam completamente devastados”, disse a deputada Erika Kokay (PT-DF).
Na Câmara, o texto foi relatado pelo deputado Marx Beltrão (PP-AL). No relatório, o deputado destacou que a prática ilegal do garimpo está vinculada com o “crime organizado, evidenciando-se a lavagem de dinheiro e, notadamente, a ocorrência de inúmeros conflitos socioambientais dele decorrentes, que envolveram e vitimaram os povos indígenas da região”.
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