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Como a Igreja desafiou extermínio de doentes por Hitler – 09/09/2026 – Darwin e Deus

As notícias nada animadoras dos últimos dias sobre a situação política na Alemanha me parecem um bom pretexto para falar de um breve lampejo de coragem em terras germânicas. Em 1941, no auge das vitórias militares do nazismo e da popularidade de Hitler, parte do clero católico alemão protagonizou os atos de resistência mais veementes contra o regime até então, desafiando publicamente a política de extermínio de pessoas com deficiência.

Conhecida como “Aktion T-4”, a eliminação sistemática de pacientes tinha como alvo as “vidas indignas de serem vividas” —definição que envolvia uma gama enorme de pacientes, incluindo pessoas com deficiências físicas sérias, problemas de saúde mental como esquizofrenia, doenças neurológicas (de epilepsia a encefalite, passando por diferentes formas de paralisia e demência), tanto adultas quanto crianças, inclusive recém-nascidas.

No topo da lista estava a população já internada em hospitais, sanatórios, orfanatos e casas de repouso, embora também houvesse pressão para que as pessoas que ainda viviam com suas famílias fossem entregues ao Estado.

A matança começou nos meses finais de 1939, quando a Alemanha já estava em guerra. Apesar das precauções para disfarçar as mortes como resultado natural de doenças, o fato de acontecerem transferências maciças de pessoas, seguidas pouco depois da entrega de atestados de óbito, começou a chamar a atenção.

Além disso, a parafernália do uso de gás (de início, monóxido de carbono) para matar em massa, bem como de crematórios para os corpos, alarmou vizinhos e fez com que boatos se espalhassem. Era uma espécie de ensaio do Holocausto.

Alguns pastores das igrejas protestantes alemãs começaram a entrar em contato com as autoridades nazistas para reclamar da prática. A chefia de hospitais e outras instituições de saúde administradas pela Igreja Católica também começou a se opor à transferência de pacientes.

Em dezembro de 1940, a Santa Sé declarou que a política de extermínio era “contra a lei natural e a lei divina”. “Matar diretamente uma pessoa inocente por causa de defeitos mentais ou físicos não é permissível”, dizia o texto.

Ainda assim, a hierarquia católica alemã evitou se pronunciar em público até uma série de quatro sermões feitos pelo bispo de Münster, Clemens August von Galen, em julho de 1941.

A irmã do bispo, que era freira, chegou a ser confinada na adega de seu convento pela polícia, mas Von Galen não se intimidou a voltar a falar das mortes diante dos fiéis. “Como será possível confiar no próprio médico?”, questionou o bispo, dizendo que as medidas abriam margem para eliminar qualquer pessoa.

Dado o escândalo, o programa foi interrompido. Hitler chegou a declarar que se vingaria do bispo assim que a guerra terminasse (o que não aconteceu).

Von Galen e outros prelados alemães mostraram inegável coragem, e seu esforço pode ter salvado milhares de vidas, mas convém que católicos como eu não reajam de forma excessivamente autocongratulatória diante do episódio.

A hierarquia católica na Alemanha jamais conseguiu deixar de lado antigos preconceitos para condenar com todas as letras o que estava sendo feito contra os judeus do país e de outras nações engolidas pelo império nazista.

Além disso, é inegável que a desconfiança de boa parte das forças políticas católicas em relação à democracia secular (não religiosa) no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial ajudou a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento do “ovo da serpente” do fascismo e do nazismo.

Para os interessados em mais detalhes sobre o episódio (e para quem tem estômago, devo acrescentar), quero recomendar vivamente a leitura de “O Terceiro Reich no Poder” e “Terceiro Reich em Guerra”, livros que integram uma monumental trilogia sobre a história do nazismo assinada pelo historiador britânico Richard Evans.


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