A ideia de que uma explicação científica deve ser tão simples quanto possível, mas não mais simples do que o necessário, é frequentemente atribuída a Albert Einstein. É esse equilíbrio que busca a inglesa Jessica Metcalf, ecóloga de doenças infecciosas na Universidade de Princeton, nos EUA.
Metcalf se serve da modelagem demográfica —ou seja, fundamentada em dados demográficos populacionais— para entender como a dinâmica de infecções vem sendo alterada no Antropoceno —aquele período não oficial da história mais recente da Terra definido pelo impacto humano no planeta.
Em termos práticos, a ecóloga trabalha para refinar modelos existentes com dados mais atuais, a fim de estabelecer políticas públicas eficientes. Em uma enchente, por exemplo, para onde as pessoas costumam se deslocar? Entender esse fluxo humano é essencial para o manejo de recursos —vacinas, água potável e medicamentos—, a fim de evitar surtos de novas doenças.
Se montar esses modelos era desafiador no passado, hoje temos uma ferramenta à mão: nossos celulares. Depois da pandemia de Covid-19, informações sobre a circulação de pessoas a partir de dados de telefonia móvel passaram a estar disponíveis online de forma bem menos burocrática. “Não há custo para as operadoras; elas só precisam disponibilizar uma planilha com os dados solicitados pelos pesquisadores”, conta Metcalf.
Esses registros anônimos permitem observar padrões coletivos de deslocamento: quantas pessoas saem de determinada cidade, quais regiões têm mais fluxo diário, quais distritos funcionam como “pontes” de circulação. São pistas que ajudam a prever o comportamento humano em um determinado espaço-tempo.
Entre 2012 e 2013, houve um surto de sarampo no Paquistão, com mais de 30 mil casos notificados. Cinco anos depois, Metcalf e sua equipe cruzaram dados de saúde pública –notificações hospitalares de novos casos– e registros de deslocamento de mais de 40 milhões de usuários de telefonia móvel para entender se é possível prever uma epidemia a partir dessa experiência anterior. O estudo teórico tentou mapear quais regiões corriam maior risco de enfrentar surtos para direcionar campanhas de vacinação de forma mais rápida e eficiente em cenários futuros.
Para que os modelos funcionem, é necessária uma grande base de dados, algo que costuma ser escasso. “Há poucos dados sobre infecções, e muitas vezes eles são mais frágeis justo nas áreas onde os problemas são maiores”, diz a cientista. A notificação de casos de sarampo, por exemplo, é deficitária em contextos onde a doença é generalizada. É o caso do Paquistão, que, embora exija notificação compulsória, tem falhas de vigilância sanitária.
Há países à frente nesse quesito: no Brasil, grande parte dos dados está disponível online. Por aqui, registros de mortalidade com causa de morte são abertos; em outros países, vigoram apenas processos clássicos de vigilância em saúde.
A demanda por esses dados e modelos mais precisos é cada vez maior, visto que os impactos humanos no clima têm relação direta com o surgimento de novas doenças, o que Metcalf considera um problema de pesquisa gigantesco e urgente. “Há muito trabalho a ser feito. Conseguir os dados certos é sempre o maior desafio”, conclui.
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*Jessica Metcalf é demógrafa e professora associada de ecologia, biologia evolutiva e políticas públicas na Universidade de Princeton (EUA). Esteve no Brasil em fevereiro de 2026 para dar aulas sobre dinâmicas de doenças infecciosas a alunos da Formação em Ecologia Quantitativa, promovida pelo Instituto Serrapilheira.
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