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Como visitar um presídio me ajudou com o alcoolismo – 01/06/2026 – Vida de Alcoólatra

O ano era 2014, eu ainda estava tentando parar de beber e com uma baita depressão. Eu lembro perfeitamente do sentimento de que minha vida tinha acabado. Com apenas 30 e poucos anos, já achava que tinha fracassado em tudo.

Era freelancer, como até hoje, então os trabalhos chegavam ou não. Se estava envolvida com algum, ficava mais tranquila. Mas, se não aparecia nada num mês, a depressão dava as caras com tudo.

Um médico amigo da família trabalhava numa penitenciária feminina e me convidou para acompanhá-lo em suas visitas. Aceitei, claro. Não tinha muita coisa para fazer, e, quando minha cabeça estava vazia, era uma loucura. Só pensava em desgraça. Como até hoje, aliás.

Então, num determinado dia da semana, eu ia até a casa dele e seguíamos para a penitenciária. Jamais esqueci da primeira vez que entrei lá e passei pela revista corporal, deixei meus documentos, vi a desconfiança no olhar dos guardas, que só se desfazia quando o médico dizia: “Ela está comigo”. Aí eles abriam um sorrisão.

Enquanto o médico atendia, eu, com um medo difuso, ficava sentada numa escada, ao lado do carcereiro que organizava os atendimentos. As conversas que tive com esse senhor são das mais bonitas de que me lembro. Ele sabia do meu problema com o álcool e se abriu comigo. Disse que não bebia mais, que tinha se descoberto alcoólatra, e me contava sua rotina. Morava numa casa com muitas galinhas, cuidava de cada canto do seu lar. Amava trabalhar na cadeia e cuidar com zelo de todas as detentas. Arrumava remédio, servia de terapeuta, fazia o que podia.

Também conversei com as mulheres que esperavam a consulta. Uma delas contou que tinha três filhos e me perguntou se eu não queria ser mãe. Não consegui, respondi. Ela olhou para mim e disse: “porque você teve opção”. Fui entender essa frase muito tempo depois.

Permanecíamos lá das nove ao meio-dia. Às onze, eu começava a sentir o cheiro de comida que emanava dos carrinhos que passavam com o almoço. O carcereiro me dizia adorar almoçar ali, chegou a me convidar algumas vezes, mas nunca coincidiu. O médico era muito ocupado e tinha outros afazeres. E naquela época eu não conseguia fazer nada sozinha, então, para voltar para casa, seguia os passos do doutor.

Foi uma experiência marcante. Em determinado momento, as detentas se punham em roda e começavam a fazer a oração da serenidade. Naquela época eu não tinha ideia do que era aquele ritual, e o carcereiro me explicou que era uma reunião de Alcoólicos Anônimos. Achei uma loucura. Poxa, a mulher está ali trancada, sem nada para fazer, e ainda se dispõe a parar de beber?

Pois é, hoje eu entendo o que é a liberdade de viver sem o álcool. Não importava se elas estavam na prisão: viver sem o álcool proporciona uma qualidade de vida que independe de onde você está. Isso para quem tem problema com a bebida, é claro.

Essa semana mandei uma mensagem para o médico, agradecendo por ele ter me salvado naquele ano. “Alice, você se salvou, não fui eu.” Minha gratidão será eterna por ele e por tudo que vivi e aprendi naquelas segundas-feiras. Desde o trajeto de ida, com conversas muito ricas, até o momento em que o doutor me deixava no metrô perto de sua casa.


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