O consumo de cacau, uma fruta de origem amazônica que se tornou marca registrada das grandes civilizações da América Central, acabou chegando também a um lugar bastante improvável –os arredores de Atlanta, nos Estados Unidos– séculos antes da invasão europeia.
Análises de DNA comprovaram a presença de uma possível bebida a base de cacau em fragmentos de cerâmica dos séculos 11 e 12 d.C, achados no estado americano da Geórgia. Os artefatos vêm das fundações de um grande monumento de terra batida da antiga cidade indígena de Etowah, que teve seu auge cerca de 200 anos antes da chegada dos europeus às Américas.
Caso a descoberta seja aceita pela comunidade científica, ele trará novos motivos para repensar a ideia de um relativo isolamento entre as diferentes regiões do continente americano na época pré-colombiana.
De fato, embora houvesse alguma circulação de produtos agrícolas –além do próprio cacau, o milho veio do México e da América Central para a América do Sul, e a mandioca viajou na direção oposta, por exemplo–, as barreiras para esse tipo de contato cultural parecem ter sido maiores em relação às áreas temperadas da América do Norte do que entre diferentes regiões que compartilhavam o clima tropical ou subtropical.
No caso do atual território dos EUA, a exceção que parecia confirmar a regra era a da cultura Pueblo, do Novo México, responsável pela construção de grandes complexos de pedra e madeira em Chaco Canyon e outras localidades.
Nesse caso, as conexões culturais teriam sido facilitadas pela presença de redes de comércio atravessando trilhas do deserto de ambos os lados da atual fronteira mexicano-americana. Nos desertos do atual EUA, havia povos que pertenciam à mesma família linguística dos astecas e povos aparentados no México.
Isso ajudaria a explicar por que vasilhas achadas em Pueblo Bonito, no Novo México, datadas entre os anos 1050 d.C. e 1350 d.C., traziam resquícios da molécula conhecida como teobromina, um tipo de alcaloide que, como o seu nome indica, está presente no cacau (a designação científica da planta é, afinal, Theobroma cacao).
A presença da teobromina, porém, é uma evidência menos definitiva do que se imaginava, conforme mostraram estudos feitos na década passada com as próprias vasilhas de Etowah.
Além da teobromina, a cerâmica do local também trazia indícios da presença de três outras substâncias associadas ao cacau –teofilina, cafeína e paraxantina. Acontece, porém, que essas mesmas moléculas também podem ser derivadas de outra planta, essa nativa da região e sabidamente usada pelos indígenas norte-americanos, na época após o contato com os europeus, para fabricar a chamada Bebida Negra.
Trata-se do azevim-yaupon (Ilex vomitoria), arbusto da mesma família da erva-mate sul-americana. Considerando a ausência de outras pistas sobre um possível contato dos moradores de Etowah com povos bem mais ao sul, a conclusão mais lógica parecia ser a de que as moléculas, afinal de contas, não tinham sido derivadas do cacau.
O cenário muda bastante, porém, com os dados da nova pesquisa, que saiu na revista científica PLOS One. O trabalho foi coordenado por Adam King, da Universidade da Carolina do Sul (EUA), e contou com a colaboração de colegas americanos e franceses. E, em vez de depender da identificação da teobromina e das demais moléculas, a equipe resolveu buscar fragmentos de DNA das plantas, cuja sequência de “letras” químicas é bem mais específica, principalmente considerando o fato de que as espécies vegetais em questão não têm parentesco próximo entre si.
Conforme King e seus coautores, tanto modificações bioquímicas na estrutura do material genético quando a presença dele apenas em fragmentos muito pequenos, com apenas algumas dezenas de “letras”, batem com o que se espera do DNA com séculos ou milênios de idade –fica descartada, portanto, a possibilidade de uma contaminação moderna da cerâmica.
A análise não só revelou que um produto à base de cacau estava originalmente nas vasilhas como também que os frutos usados para a preparação vieram de cacaueiros aparentados a duas linhagens distintas da árvore existentes hoje.
As plataformas de terra batida de Etowah, conhecidas como tesos (“mounds”, em inglês) foram construídas, ao que tudo indica, após grandes festins rituais que incluíram o consumo das bebidas de cacau.
A antiga cidade indígena da Geórgia se insere num contexto mais amplo da bacia do rio Mississipi naquela época, durante a qual aglomerações urbanas se espalham pelo interior dos EUA, com populações densas e arquitetura monumental.
Nas últimas décadas, acreditava-se que esse processo teria sido interno à região, em larga medida, apesar das semelhanças superficiais com os grandes monumentos do México e da América Central. Os novos dados, porém, podem trazer um quadro mais complexo, no qual algum tipo de contato de produtos e ideias, ainda que indireto, talvez tenha influenciado a gênese das cidades pré-colombianas nos EUA.
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