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O Brasil, agora potência petroleira, transforma a crise internacional em ganhos bilionários, com arrecadação extra superando R$100 bilhões. Diferente do passado, o país está protegido e lucra. O grande desafio é usar essa fortuna temporária com prudência, evitando despesas permanentes e garantindo um futuro sustentável.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em 2010, diante das reservas recém-descobertas do pré-sal, o ex-ministro Antonio Delfim Netto resumiu o significado daquela riqueza: “Estamos em posição muito mais confortável do que nos últimos cinquenta anos e temos que aproveitar bem esse bônus concedido pela natureza”. Ele falava com experiência. Nos anos 1970, quando Netto foi ministro da Fazenda, dois choques do petróleo expuseram a fragilidade energética do mundo e atingiram em cheio o Brasil, onde 80% do petróleo consumido era importado. Em 1973, após o corte de produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep, o preço do barril saltou de menos de 3 dólares para 11. No fim da década, avançou de 13 para 30 dólares, agravando o desequilíbrio das contas externas e ajudando a alimentar a hiperinflação dos anos seguintes. Cerca de cinquenta anos depois, o mundo enfrenta um novo choque energético. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em fevereiro passado, pelo menos um quinto da produção global ficou represada no Golfo Pérsico, elevando o preço de 65 dólares para mais de 100 por barril. A diferença é que o Brasil de hoje ocupa posição oposta à daquele período.
O país se tornou um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo e, desde 2016, exporta mais do que importa. Se antes crises do setor ampliavam a vulnerabilidade brasileira, agora elas encontram um país mais protegido e capaz de extrair ganhos econômicos da turbulência internacional. “É a primeira vez que passamos por um choque como este tendo um colchão de reservas disponível para amortecer os efeitos da crise”, diz Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras. “Nas anteriores, as reservas sempre acabavam. Isso nos coloca entre os países que menos devem sofrer com o conflito.” A nova realidade brasileira, porém, não equivale a um cheque em branco. A abundância de petróleo reduz fragilidades históricas, mas não elimina a necessidade de prudência nem deixa o país imune às oscilações do mercado global.

A mudança de status do Brasil fica evidente quando se observam os números com atenção. O país integra agora o grupo restrito de produtores para os quais um choque dessa magnitude passou a gerar ganhos extraordinários. Estimativas de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas apontam que a arrecadação total do Estado brasileiro com rendas do petróleo pode superar 330 bilhões de reais em 2026 — é o equivalente a 2,5% do PIB, no que seria a maior proporção já registrada. O cálculo inclui royalties, impostos e, no caso da Petrobras, dividendos distribuídos à União. Desse montante, aproximadamente 100 bilhões de reais surgiram como receita adicional provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã, que elevou em torno de 50% o valor do barril em dólar. O estudo é assinado por Bráulio Borges e Manoel Pires, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. “Trata-se de uma receita que era inexpressiva há dez anos e que ainda vai crescer mais”, diz Borges. Em 25 anos, a produção nacional praticamente triplicou, passando de 1,3 milhão de barris em 2000 para 3,7 milhões no ano passado. O alerta, segundo Borges, está em outro ponto: “O risco são os governos usarem o que é receita excedente temporária para criar despesas permanentes”.
Com a ajuda da fartura do petróleo, o governo federal deverá arrecadar, em 2026, ao menos 50 bilhões de reais acima do previsto, segundo estimativas de analistas e da própria equipe econômica — um reforço e tanto ante o desequilíbrio das contas públicas na administração petista. Parte desse ganho adicional, porém, já tem destino definido. Há alguns dias, o presidente Lula anunciou medidas emergenciais controversas, como subsídios ao diesel, à gasolina e até às companhias aéreas. Em sua defesa, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, assegurou que as ações são transitórias e não agravam o quadro fiscal.

Em outros momentos de disparada do petróleo, o país recorreu a medidas que deixaram custos prolongados e cicatrizes na economia, como o congelamento de preços e os prejuízos bilionários acumulados pela Petrobras no governo Dilma Rousseff e o corte compulsório do ICMS sobre combustíveis na gestão Jair Bolsonaro, posteriormente coberto pelo Tesouro. A lógica era sempre a mesma: combater o choque externo, mas com medidas cujos custos se revelavam altos demais depois. Desta vez, o mecanismo funciona ao contrário: parte do impacto da alta do petróleo chega acompanhada de arrecadação adicional, e não de um rombo a ser tapado. É essa inversão que oferece ao governo um bônus encorpado que o país nunca teve. A questão, como alertam os economistas, não é se o ganho extra existe, mas se será usado com parcimônia suficiente para durar além da crise.
Os subsídios anunciados em resposta à guerra devem consumir cerca de 25 bilhões de reais dos cofres públicos, podendo alcançar 43 bilhões caso sejam prorrogados até o fim do ano, segundo estimativas feitas pelo banco BTG Pactual. Em contrapartida, a receita adicional gerada pelo petróleo mais caro tende a superar esse custo. O alívio, contudo, tem alcance limitado. Mesmo com a arrecadação reforçada pela escalada de preços do barril de petróleo, as contas públicas devem permanecer no vermelho. Segundo a média das projeções reunidas no boletim Prisma Fiscal, o governo federal deverá encerrar o ano com déficit de 58 bilhões de reais, um cenário menos grave do que o projetado no início da guerra, quando a estimativa chegava a 67 bilhões, mas ainda assim alarmante. “Nem é factível politicamente atravessar um choque desse tamanho sem algum tipo de apoio”, afirma Fábio Serrano, economista do BTG. “Mas não se pode perder de vista que esse é um ganho temporário. O benefício da arrecadação passa, enquanto o desafio fiscal do Brasil continua.”

O percurso das receitas geradas pelo petróleo fica mais nebuloso quando elas deixam Brasília e chegam a estados e municípios, destinatários da outra metade das rendas. “Tem prefeito que usa o dinheiro para melhorar uma escola ou um hospital, e tem os que usam para colocar granito na praça ou pagar um show milionário”, diz David Zylbersztajn, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. “São recursos com pouca transparência e que deveriam ser bem monitorados, em especial porque vão acabar.” A discussão, portanto, vai além da guerra atual e da alta do barril. O ponto central é o uso que o Brasil pretende dar à riqueza produzida por suas reservas. “A Noruega e o Chile são exemplos de países que criaram uma boa governança de suas receitas com recursos naturais, para não consumir tudo no presente”, diz Borges, da FGV. “Mas o Brasil está longe disso.” O desafio é impedir que o dinheiro que jorra do petróleo seja consumido todo agora, com fins eleitoreiros, e guardar um pouco para o futuro.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997
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