Se você perguntar a um grupo de pais o que gostariam de deixar para seus filhos, provavelmente ouvirá respostas semelhantes. Os desejos podem variar em intensidade, mas dois deles costumam aparecer com frequência: garantir uma boa educação e proporcionar segurança financeira. São objetivos que atravessam gerações e fazem parte das preocupações de praticamente todas as famílias.
À primeira vista, esses objetivos parecem distintos. A educação costuma ser vista como uma despesa a ser financiada ao longo dos anos. Já a segurança financeira é frequentemente associada à construção de patrimônio para o futuro. Como consequência, muitas pessoas acabam tratando esses temas separadamente. Criam uma estratégia para pagar a escola ou a faculdade dos filhos e outra para construir patrimônio ou organizar a sucessão familiar.
Mas talvez essa separação seja artificial. Existe uma pergunta que raramente é feita: e se o plano para atingir ambos os objetivos pudesse ser o mesmo?
Antes de responder a essa questão, vale refletir sobre um problema ainda mais importante. Quando alguém afirma que deseja garantir a educação dos filhos e deixar um patrimônio para eles, está falando de um desejo ou de um plano?
A diferença parece pequena, mas costuma determinar o resultado de décadas de trabalho.
O escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry afirmou que “um objetivo sem um plano é apenas um desejo”. Poucas frases resumem tão bem a forma como muitas famílias lidam com seu planejamento financeiro. A maioria sabe exatamente o que gostaria de proporcionar aos filhos. O problema é que poucas conseguem explicar como pretendem fazer isso.
Quanto custará a educação desejada? Quanto patrimônio será necessário acumular? Em quanto tempo esses recursos deverão ser construídos? Qual estratégia será utilizada para alcançá-los? E, talvez a pergunta mais importante de todas, o que acontecerá se os pais não estiverem presentes para concluir esse projeto?
É justamente nesse ponto que muitos planos começam a apresentar fragilidades.
Imagine uma família que calcula cuidadosamente quanto precisará para financiar a educação dos filhos. O planejamento pode funcionar perfeitamente se tudo ocorrer conforme o esperado. Mas a vida raramente segue um roteiro sem imprevistos. Uma doença grave, uma incapacidade temporária para o trabalho ou mesmo a morte prematura de um dos responsáveis pode comprometer anos de planejamento e colocar em risco objetivos que pareciam perfeitamente alcançáveis.
Por essa razão, planejamento patrimonial não deveria se limitar à acumulação de recursos. Ele também precisa considerar mecanismos de proteção capazes de garantir que os objetivos continuem viáveis mesmo diante de eventos inesperados.
É aqui que muitas pessoas descobrem que educação e patrimônio talvez não sejam objetivos concorrentes, mas partes de uma mesma estratégia.
Quando uma família estrutura recursos para garantir o financiamento educacional dos filhos independentemente das circunstâncias, ela está, ao mesmo tempo, construindo uma proteção patrimonial. E quando essa estrutura é bem desenhada, os recursos destinados à educação podem continuar cumprindo uma função sucessória caso não sejam utilizados para essa finalidade.
Em outras palavras, o mesmo patrimônio que garante uma faculdade pode, no futuro, transformar-se em herança. O mesmo recurso que protege um projeto educacional pode fortalecer a sucessão familiar. O que muda não é necessariamente o patrimônio, mas a função que ele desempenha ao longo do tempo.
Talvez o maior erro do planejamento financeiro seja acreditar que cada objetivo exige uma solução completamente independente. Na prática, os melhores planos costumam ser aqueles capazes de atender simultaneamente a diferentes necessidades. Eles acumulam patrimônio, protegem a família contra riscos e organizam a transmissão dos recursos para a próxima geração.
Antoine de Saint-Exupéry estava certo. Um objetivo sem um plano é apenas um desejo. Quando o assunto é a família, quase todos possuem desejos semelhantes. A diferença é que alguns contam apenas com o tempo e a esperança de que tudo dê certo. Outros constroem um plano capaz de transformar esses desejos em realidade. No fim, a questão não é escolher entre educação e patrimônio. A questão é aplicar uma estratégia capaz de garantir ambos.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor
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