[the_ad_group id="564"]
[the_ad_group id="566"]

Egito antigo: Couro e gergelim eram matéria-prima de tinta – 05/09/2026 – Ciência

Por trás do esplendor da arte egípcia, com as cores vivas que decoravam paredes de templos, vasos de cerâmica ou mesmo sarcófagos, havia uma estranha mistura de quitanda com açougue. Proteínas obtidas a partir do couro de animais e de sementes de cevada, gergelim e outras plantas eram essenciais para a produção das tintas que embelezavam o reino dos faraós, mostra uma pesquisa publicada na revista Science Advances no fim do mês passado.

O trabalho, conduzido por uma equipe de pesquisadores europeus, é a análise mais completa feita até hoje da composição química de diferentes tipos de pinturas do Egito antigo, abrangendo períodos que vão desde o chamado Novo Império, por volta de 1400 a.C., até o ano 400 da Era Cristã, quando a região era uma província romana já havia vários séculos.

Liderados pelos italianos Clara Granzotto e Enrico Cappellini, ambos da Universidade de Copenhague, os autores da pesquisa trabalharam com um total de 28 amostras de arte egípcia, provenientes de museus na Dinamarca, na Suécia e no Reino Unido. Entre os objetos estudados há caixões de madeira, fragmentos de pinturas de tumbas como a do escriba e contador Nebamun (que morreu por volta de 1350 a.C.) e pedaços de estruturas arquitetônicas, também pintados.

Os especialistas escolheram como tema principal da análise não exatamente os pigmentos das tintas, mas outros componentes empregados nas pinturas, como adesivos e fixadores, principais responsáveis pela durabilidade das imagens –sem isso, é provável que elas fossem ficando cada vez mais esmaecidas com a passagem do tempo.

A técnica usada no trabalho é capaz de separar os diferentes componentes das amostras de tinta e depois “pesá-los” numa espécie de balança molecular, permitindo a identificação dos peptídeos (fragmentos de proteínas) que os compõem.

Conforme o esperado, com base no que se sabia por relatos antigos e análises anteriores, um dos elementos mais importantes dos produtos egípcios é o colágeno. A substância nas amostras é principalmente de origem bovina, mas também derivada de uma grande variedade de outros animais: cabras e/ou ovelhas (a técnica não é suficientemente sensível para diferenciar colágeno de uma espécie do da outra), jumentos, cavalos e até antílopes.

Os pesquisadores dizem acreditar que o couro, as vísceras e talvez os ossos desses animais –em geral sobras do consumo de carne, mas também de bichos mortos por outras causas– eram fervidos para a preparação de um tipo de adesivo a partir do colágeno. Proteínas derivadas da clara e da gema dos ovos de galinhas também estão presentes, por exemplo, numa camada de tinta verde da tumba de Nebamun, provavelmente com função fixadora.

Do lado vegetal, os pesquisadores identificaram proteínas de plantas como o gergelim (Sesamum indicum) e de cereais como diferentes espécies de trigo (gênero Triticum) e cevada (Hordeum vulgare) –o que não surpreende, considerando a importância desses dois últimos cereais na produção do pão e da cerveja, dois elementos essenciais da dieta egípcia.

Ainda não está clara a utilidade das substâncias derivadas das sementes, embora uma espécie de pasta à base de farinha, no caso dos cereais, ou subprodutos da produção de óleo, no caso do gergelim, também pudessem ter sido usados como fixadores na tinta.

O dado que talvez seja o mais intrigante, porém, é o emprego de substâncias derivadas de sementes da planta conhecida como moringa (não se deve confundir a palavra com o outro uso do termo em português do Brasil, que designa um recipiente de barro para armazenar água potável). Na cultura egípcia, a espécie Moringa oleifera estava envolta em simbolismo religioso, sendo associada ao deus Ptah.

Visto com um deus criador e patrono de artesão e arquitetos, uma de suas designações o ligava diretamente à planta: “Ptah khery-bak-ef”, ou seja, “Ptah que está debaixo de sua moringa [trata-se de uma planta arbórea]”.

“A detecção, no fragmento de caixão, de um material produzido a partir da moringa poderia corresponder a uma explicação prática da associação simbólica do deus com essa planta, corroborando a conexão entre Ptah e os artesãos, já que a moringa é a fonte preciosa do material de que o artífice necessita para completar sua criação”, especulam os autores da pesquisa.

Os dados obtidos pela equipe também podem ser valiosos para identificar falsificações ou modificações do material antigo original. Ocorre que, no trabalho, eles conseguiram mapear modificações específicas na estrutura química das proteínas que só aparecem com a passagem dos séculos, o que funcionaria como uma espécie de relógio molecular. Assim, mesmo que um falsificador moderno tentasse imitar as técnicas antigas de pintura, esse detalhe seria impossível de replicar.

Com análises futuras, os especialistas também esperam ser capazes de detectar diferenças regionais na escolha e no preparo das matérias-primas, o que poderia ajudar a identificar, por exemplo, em quais regiões do antigo domínio dos faraós uma obra foi produzida mesmo que sua procedência não tenha sido documentada de antemão.

Fonte: Link da fonte

[the_ad_group id="566"]

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore