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Esse lago está prestes a explodir; entenda

Na fronteira entre a República Democrática do Congo e Ruanda, um lago de águas aparentemente tranquilas esconde um potencial devastador. O Lago Kivu, um dos Grandes Lagos Africanos, tornou-se uma verdadeira bomba-relógio geológica. Suas profundezas armazenam quantidades colossais de dióxido de carbono e metano — gases que, se liberados de uma só vez, podem asfixiar uma população inteira ou simplesmente explodir.

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Em 1986, o Lago Nyos, em Camarões, mostrou ao mundo o que um lago saturado de gás é capaz de fazer. Uma erupção límnica libertou uma nuvem de CO₂ que matou 1.800 pessoas enquanto dormiam. A tragédia serviu de alerta, mas o Lago Kivu é uma história muito mais aterrorizante. As informações são do IFL Science.

Enquanto Nyos continha apenas dióxido de carbono, Kivu tem também metano — o mesmo gás inflamável usado em fogões. As proporções são astronômicas: cerca de 300 quilômetros cúbicos de CO₂ e 60 quilômetros cúbicos de metano dissolvidos em suas águas. Para comparação, o volume de gás liberado em Nyos foi ínfimo diante disso. E Kivu é mais de mil vezes maior.

A cidade de Goma está entre a cordilheira de vulcões e o Lago Kivu, na fronteira entre a RDC e Ruanda. – Imagem: Marti.Morini / Shutterstock

O gatilho pode vir a qualquer instante

O lago está situado em uma região tectonicamente instável, sobre a fenda que lentamente separa a África Oriental do resto do continente. Abaixo de suas águas, rochas derretidas e gases sobem das profundezas. Ao lado, o Monte Nyiragongo, um vulcão ativo que já entrou em erupção várias vezes no último século, completa o cenário de risco permanente.

Atualmente, os gases permanecem presos nas camadas profundas e frias do lago, mantidos em equilíbrio pela pressão da água. Mas qualquer abalo sísmico, uma intrusão de lava ou até mesmo a agitação causada por atividades humanas pode romper esse equilíbrio. O metano, por ser menos solúvel, está mais próximo da superfície e é o maior motivo de preocupação.

A cratera do Nyiragongo é preenchida por uma lava pouco viscosa e brilhante. Embora perigosa, ela atrai turistas de todo o mundo para subir o vulcão.
A cratera do Nyiragongo é preenchida por uma lava pouco viscosa e brilhante. Embora perigosa, ela atrai turistas de todo o mundo para subir o vulcão.(Imagem: Margarita Ray / Shutterstock)

O que acontece se o lago “explodir”?

Se a camada de gás for perturbada, o metano e o CO₂ subirão em uma reação em cadeia. O dióxido de carbono, mais pesado que o ar, formará uma nuvem invisível que se espalhará pelo solo, asfixiando tudo em seu caminho. O metano, por sua vez, pode encontrar uma fonte de ignição — um raio, uma faísca de uma linha de transmissão, até mesmo o calor do vulcão — e incendiar-se.


O cenário mais catastrófico prevê a liberação de 5% das emissões globais diárias de CO₂ em um único evento.

vulcão
Imagem: Eric Isselee/Shutterstock

A solução (e o novo risco)

Para tentar evitar o desastre, empresas como a KivuWatt extraem metano das profundezas do lago e o utilizam para gerar eletricidade. Em 2024, a operação já adicionou 26 megawatts à rede elétrica de Ruanda, com planos de chegar a 100 MW. Mas a solução não é isenta de críticas. O processo de extração devolve água desgaseificada a camadas mais altas do lago, o que pode desestabilizar a estratificação natural e antecipar a própria erupção que se quer evitar.

Mesmo com intervenção humana, o Lago Kivu tem seus dias contados. Atualmente, a saturação de CO₂ em suas águas profundas está em cerca de 60% e subindo. Quando atingir 100%, a erupção será inevitável — espontânea, sem necessidade de terremoto ou vulcão.

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Para os 1,2 milhão de habitantes de Goma, do outro lado da fronteira, e para os milhões que vivem nas margens do lago, a pergunta não é se o desastre virá, mas quando. E a única certeza é que, quando acontecer, as proporções serão inimagináveis.

Lucas Soares

Lucas Soares

Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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