EUA devem vender US$ 1 tri em títulos de curto prazo após alta recorde dos Treasuries – 20/09/2026 – Finanças


Londres, Washington e Nova York

|Financial Times
Os bancos de Wall Street esperam que os EUA tomem emprestado até US$ 1 trilhão (R$ 5,14 trilhões) no próximo ano por meio da venda de Letras do Tesouro de curto prazo, como parte de uma dependência crescente de títulos com vencimento rápido que deixa Washington vulnerável à alta dos juros.

Os EUA tomarão emprestados cerca de US$ 1,07 trilhão (R$ 5,51 trilhões) —excluindo os recursos captados para quitar dívidas vincendas— no próximo ano fiscal, até setembro de 2027, por meio da emissão de letras, segundo projeções do Bank of America. O JPMorgan prevê a emissão de US$ 1,09 trilhão (R$ 5,61 trilhões) em letras no ano-calendário de 2027, enquanto o Goldman Sachs estima US$ 961 bilhões (R$ 4,94 trilhões).



Operador observa monitores que mostram desempenho de ações e títulos públicos na Bolsa de Nova York


Michael M. Santiago/Getty Images via AFP

A ênfase cada vez maior nas letras, que vencem em um ano ou menos, ocorre em um momento em que os Treasuries, títulos de 10 anos dos EUA, atingiram o nível mais alto desde 2007, à medida que cresce a dívida pública do país, empresas captam enormes volumes de recursos para financiar o boom da inteligência artificial e economistas elevam suas projeções para o crescimento econômico.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tem procurado conter os custos dos empréstimos de longo prazo. No mês passado, ele surpreendeu os mercados ao anunciar planos para ampliar as compras, por sua pasta, de títulos do Tesouro com vencimentos entre 10 e 30 anos.

Seu departamento também manteve a política de ampliar as vendas de dívida de curto prazo para atender às necessidades recordes de financiamento do governo —política pela qual Bessent já havia criticado sua antecessora Janet Yellen, alegando que ela havia “assumido o controle da política monetária” e “afrouxado substancialmente as condições de financiamento” antes da eleição presidencial de 2024 nos EUA.

A estimativa do BofA elevaria o estoque de letras em circulação para cerca de US$ 8 trilhões (R$ 41,16 trilhoes), ou 24,3% da dívida negociável do Tesouro, até setembro do próximo ano. O Goldman prevê que a proporção chegará a 24,3% no próximo ano e a 24,9% em 2028, aproximando-se do pico recente registrado durante a pandemia.

Isso contrasta com a meta oficial de “cerca de 20% ao longo do tempo”, estabelecida pelo Comitê Consultivo de Empréstimos do Tesouro —grupo de participantes do mercado que assessora o Tesouro— como um bom equilíbrio “entre os custos dos juros e a volatilidade do financiamento da dívida e do risco de rolagem”.

Nas últimas duas décadas, as letras só ultrapassaram um quarto da dívida em circulação nos picos associados à pandemia e à crise financeira de 2008. A média de longo prazo, desde a década de 1980, é de 22,4%, e a proporção ficava regularmente acima de 30% no início desse período.

Mark Cabana, chefe de estratégia para juros dos EUA no BofA, declarou que o Tesouro estava “tentando equilibrar oferta e demanda” no mercado de títulos públicos, mas corria o risco de ter uma conta de juros “maior e mais volátil” ao emitir tanta dívida de curto prazo.

Adam Josephson, da Sakonnet Research, expressou opinião semelhante. “Mais voláteis se tornam seus custos com o serviço da dívida”, avaliou.

Ainda assim, Joe LaVorgna, ex-assessor econômico de Bessent, afirmou que o aumento da proporção de letras não era “algo tão grave”.

“Os números absolutos parecem grandes porque os próprios déficits são realmente grandes. Mas provavelmente é melhor analisá-los como proporção —nesse aspecto, não parecem totalmente fora dos padrões históricos”, analisou LaVorgna, hoje economista-chefe para as Américas da SMBC Nikko Securities.

Um funcionário do governo recordou que, desde 1970, quando os EUA começaram a registrar déficits orçamentários de forma recorrente, a emissão de letras como parcela do total emitido ficou, em média, em 24,3%. No mês passado, a proporção estava em 22,8%, abaixo da média histórica de longo prazo, segundo o funcioário. No atual mandato de Trump, a média seria de 21,7%.

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Governos de todo o mundo têm recorrido mais à dívida de curto prazo, que normalmente tem custos de captação menores e é menos sensível às preocupações com o volume das emissões do que os títulos de prazo mais longo, acompanhando mais de perto as taxas de juros dos bancos centrais.

As letras de um ano oferecem rendimento de cerca de 4,4%, ante aproximadamente 5% nos títulos dos EUA de dez anos e 5,3% nos de 30 anos.

Mas a necessidade de refinanciar constantemente as letras está alimentando a preocupação com os riscos que se acumulam nas finanças públicas dos EUA, depois que o Federal Reserve elevou os juros na quarta-feira (16) pela primeira vez em três anos, para a faixa de 3,75% a 4%, e sinalizou novas altas.

“A ênfase específica no curto prazo nos deixa realmente vulneráveis a níveis elevados de risco de rolagem”, comentou Maya MacGuineas, presidente do apartidário Comitê por um Orçamento Federal Responsável.



Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, chega para encontro com vice-primeiro-ministro da China, He Lifeng


Kena Betancur/AFP

O Fed compra grandes volumes de letras —adquiriu US$ 250 bilhões (R$ 1,29 trilhão) somente no primeiro semestre deste ano—, o que significa que o volume líquido de emissões absorvido pelo mercado é significativamente menor do que as estimativas dos bancos. Nesse mercado, as letras encontram compradores dispostos entre os fundos de mercado monetário dos EUA, veículos de poupança de baixo risco com US$ 8 trilhões em ativos.

Bessent também destacou as stablecoins —criptoativos que acompanham o dólar e são lastreados por ativos seguros, como a dívida pública de curto prazo— como outra fonte de demanda por letras.

Alguns analistas esperam que o reforço das recompras de títulos públicos de longo prazo pelo Tesouro, destinado a conter a alta dos rendimentos, seja financiado por emissões de curto prazo, aumentando ainda mais a pressão para elevar o volume total vendido.

Desde a era Joe Biden, o governo federal tem enfrentado dificuldades para conter seus enormes déficits fiscais. O Congressional Budget Office, órgão de fiscalização fiscal do Congresso, prevê que o déficit permanecerá em torno de 6% do PIB (Produto Interno Bruto) no período de dez anos de suas projeções —mais que o dobro da meta de 3% estabelecida pelo secretário do Tesouro dos EUA para o fim do segundo mandato de Donald Trump.

Bessent afirmou que os EUA podem superar sua montanha de dívidas por meio do crescimento econômico. “Nos EUA, não temos um problema de arrecadação. Temos um problema de gastos. Portanto, tentamos conter os gastos e, então, com um crescimento de 3%, sairemos dessa por meio do crescimento”, avaliou no início deste mês.

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