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EUA proíbem estrangeiros de usar modelo de IA – 13/06/2026 – Ronaldo Lemos

Na última sexta os EUA proibiram o uso do modelo de IA mais poderoso da Anthropic por “estrangeiros”. Você não leu errado. O critério da proibição é nacionalidade, algo inédito nesse contexto. Mesmo quem mora nos EUA mas não tem cidadania está proibido de usar o modelo. Estão banidos também os próprios funcionários estrangeiros da empresa.

Dada a impossibilidade de cumprir uma ordem assim, já que não é fácil determinar a cidadania de cada usuário, a Anthropic decidiu suspender o acesso do seu modelo mais avançado para todo mundo, indiscriminadamente.

A decisão de Washington acendeu um alerta global. E de quebra mostrou o que “soberania tecnológica” significa na prática (já volto a isso).

As empresas do setor de IA gostam de dizer que a inteligência artificial é a “nova eletricidade”: a nova infraestrutura em cima da qual pessoas, organizações e países vão construir suas atividades, fluxos de trabalho, estudo e até a gestão de serviços públicos. Só que os EUA não têm o poder de cortar a eletricidade de “estrangeiros”. Com a IA esse poder não só existe como acaba de ser usado.

A consequência é que pessoas, organizações e países vão precisar pensar muitas vezes antes de construir em cima de uma IA que pode ser suspensa. Usar inteligência artificial requer investimento, tempo, capacitação. Nada disso se justifica se a plataforma pode deixar de funcionar a qualquer momento de forma repentina, mesmo que você dependa dela.

A proibição dos EUA repercutiu fortemente na China. Lá a ação foi chamada de “qiabozi” (卡脖子), que em mandarim significa “estrangular o pescoço”. O termo foi usado em sentido duplo: a confirmação de que depender das IAs americanas implicaria o risco de ser estrangulado a qualquer momento. E a constatação de que a estratégia chinesa de apostar em modelos locais estava certa.

Se a geopolítica continuar interferindo na tecnologia como aconteceu desta vez, vai ser necessário pensar soberania digital em quatro níveis. O primeiro, mais elementar, é ter controle local sobre os dados no país. O segundo é ter independência na cadeia de software, auditando e mitigando a possibilidade de interferências externas. O terceiro é exigir que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. E o quarto, é ser capaz de desenvolver de forma autônoma sua própria tecnologia, incluindo modelos de inteligência artificial.

Não tirei esses níveis da minha cabeça. Essa é a classificação que a Comissão Europeia lançou no último dia 3 de junho no seu “Pacote de Soberania Tecnológica”. Dadas as circunstâncias, esse sim é um modelo europeu que o Brasil poderia almejar.

Nosso país copiou a Europa para fazer sua lei de IA, em tramitação no Congresso. Mas copiou a Europa de 2019. De lá para cá a lei europeia de IA foi drasticamente simplificada. Os europeus perceberam que regulação divorciada de política industrial tem como consequência apenas atrasar as capacidades locais e gerar ainda mais dependência externa.

E vale lembrar que o Brasil não alcança sequer o nível 1. Hoje, 60% da carga digital do país está hospedada em datacenters no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos como o SUS. As possibilidades de “qiabozi” são enormes.

E em inteligência artificial, o principal projeto público para desenvolver um modelo de IA local e soberano foi feito no Piauí, o “SoberanIA.ai”. Estive em Teresina nesta semana e lá ouvi o seguinte vaticínio: “o Ministério da Defesa ainda vai precisar do SoberanIA”. Talvez esse momento chegue antes do que imaginamos.

Já era – “Teoria do Domínio do Fato”, em voga na Lava Jato

Já é – “Constitucionalismo abusivo”, usar causas justas para passar por cima da Constituição

Já vem – “Relativismo Jurídico”, aplicar a Constituição de forma diferente dependendo da causa que estiver defendendo


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