A Ferrari apresentou seu primeiro carro totalmente elétrico, numa tentativa de entrar no mercado de veículos de luxo movidos a bateria sem depender apenas de sua clientela tradicional.
Batizado de Luce, o modelo chega ao mercado por 550 mil euros (3,2 milhões de reais), incluindo impostos.
O veículo simboliza uma mudança estratégica para a fabricante italiana, pressionada pela eletrificação da indústria automotiva, mas cautelosa diante da resistência de consumidores apaixonados por motores a combustão.
O lançamento marca um divisor de águas para a empresa de Maranello.
Diferentemente de outras montadoras que migraram rapidamente para veículos elétricos, a Ferrari escolheu uma abordagem gradual, focada em exclusividade, design radical e preservação de elementos associados à experiência esportiva.
O novo modelo foi desenhado pela LoveFrom, estúdio fundado pelo designer britânico Jony Ive, ex-chefe de design da Apple responsável pela identidade visual de produtos como iPhone, iMac e iPod.
O resultado é um carro de linhas minimalistas, formato futurista e aparência deliberadamente distinta dos Ferraris convencionais.
Executivos da companhia admitem que o visual pode dividir opiniões.
A intenção, dizem, não é convencer os fãs puristas de motores a combustão, mas conquistar um novo perfil de consumidor.
Ferrari quer ampliar público além dos colecionadores
A estratégia reflete uma preocupação crescente entre marcas de luxo: como tornar carros elétricos desejáveis num segmento historicamente construído sobre potência sonora, herança mecânica e exclusividade tradicional.
Segundo a Ferrari, metade dos convidados do lançamento não pertence à base habitual de clientes da marca, porcentual muito superior aos 10% a 20% registrados em apresentações anteriores.
A companhia vê uma oportunidade entre consumidores que já possuem carros elétricos e estão habituados à tecnologia, especialmente empresários de tecnologia, jovens milionários e compradores de primeira viagem.
A mudança responde a uma dificuldade observada no setor de luxo.
Diversos fabricantes descobriram que muitos colecionadores compravam modelos elétricos apenas para completar garagens, mas rapidamente revendiam os veículos, pressionando valores no mercado de usados.
O CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, afirmou que a empresa precisa ampliar sua linguagem para dialogar com novas gerações sem abandonar sua identidade histórica.
Som artificial, motores independentes e autonomia de 530 km
Um dos principais desafios para esportivos elétricos continua sendo a experiência de condução.
Para reduzir críticas sobre o silêncio dos motores elétricos, a Ferrari incorporou sons artificiais inspirados em guitarras elétricas e em motores de alta performance. O sistema busca reproduzir parte da assinatura emocional associada aos modelos da marca.
O Luce terá autonomia declarada de 530 quilômetros e quatro motores elétricos independentes, um em cada roda.
Segundo a empresa, a arquitetura ajuda a compensar o peso elevado das baterias e mantém sensação de dirigibilidade leve.
Outro ponto central da estratégia é a manutenção do valor de revenda, questão sensível para marcas de luxo.
A Ferrari afirma que todos os componentes foram desenvolvidos internamente para facilitar reparos no longo prazo e permitir futuras atualizações tecnológicas.
Mercado premium ainda enfrenta dilemas com veículos elétricos
A estreia elétrica da Ferrari ocorre num momento ambíguo para o setor de supercarros.
Enquanto montadoras chinesas e marcas como Porsche e Tesla ampliam presença em segmentos premium, fabricantes ultraluxuosos seguem hesitantes.
A Lamborghini, principal rival da Ferrari, recuou recentemente da meta de lançar seu primeiro modelo totalmente elétrico até 2030. A empresa avalia que a demanda entre consumidores de alto patrimônio ainda não justificaria a mudança.
Analistas do setor apontam que o desafio vai além da tecnologia. Tornar carros elétricos aspiracionais permanece difícil mesmo entre compradores de luxo.
A disputa também passa pela cultura digital.
A Lamborghini acumulou forte presença entre celebridades, atletas e influenciadores, impulsionada por redes sociais como TikTok e Instagram, enquanto a Ferrari continua mais associada à tradição, exclusividade e automobilismo.
Ferrari reduz meta de eletrificação
Apesar do lançamento, a Ferrari também desacelerou suas próprias ambições elétricas.
A companhia agora prevê que carros totalmente elétricos representem cerca de 20% de sua linha até 2030, metade da meta anunciada anteriormente.
A revisão acompanha uma tendência mais ampla da indústria automotiva.
Nos últimos dois anos, montadoras europeias e americanas revisaram cronogramas de eletrificação diante de demanda irregular, custos elevados de baterias e desaceleração nas vendas de EVs em alguns mercados.
Fonte: Link da fonte









