Exames de rotina permitiram à empresária Andressa Brognoli, 39, encontrar e retirar um tumor benigno no ovário. Mas foi só no acompanhamento da cirurgia que ela descobriu, ao mesmo tempo, um câncer de colo de útero e a gravidez do segundo filho.
A infecção por HPV (papilomavírus humano) está associada a mais de 99% dos casos desse tipo de câncer, também chamado cervical, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer). A forma mais eficaz de prevenção é a vacina contra o vírus.
“Não foi por falta de informação”, diz Brognoli, relembrando o diagnóstico, recebido em 2022. Quando a vacina ficou disponível na rede privada, em 2006, ela pesquisou sobre o imunizante. Como era caro, acabou deixando a ideia de lado.
Em 2014, a vacina entrou no calendário do SUS (Sistema Único de Saúde). “Para mim já era tarde”, diz Brognoli. Ela tinha 27 anos, fora do público-alvo inicial, meninas de 11 a 13 anos.
A descoberta do câncer na gravidez a abalou. “Você automaticamente já pensa na finitude.”
O cenário não é incomum, segundo Márcia Terra, ginecologista e presidente da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. “O diagnóstico nunca é fácil para nossa paciente. Não dá para saber de quem contraiu, há quanto tempo, de forma alguma. Na gestação, diminuindo a imunidade, o vírus aparece.”
Brognoli ouviu a recomendação de interromper a gravidez, mas procurou novos profissionais dispostos a conduzir o tratamento mantendo a gestação.
Nem sempre é possível seguir a vontade da paciente. O estágio da doença, o tamanho do tumor, o tempo de gestação podem levar à decisão médica de interromper a gravidez, segundo Pilar Estevez Diz, oncologista e diretora de corpo clínico do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo).
Tratamento na gestação
Existem mais de 200 tipos de HPV, a maioria de baixo risco, que são combatidos pelo organismo ou causam lesões menos graves, como verrugas. Entre os tipos de alto risco, os mais comuns são o 16 e 18, que não causam verrugas e respondem por 70% dos casos de câncer cervical.
A detecção do HPV, contudo, não é ameaça para a gravidez; o risco do desenvolvimento da doença é medido por meio de exames como a colposcopia e a biópsia. O primeiro permite ver e localizar lesões no colo do útero, e o segundo é a análise do tecido das lesões.
A mera presença do vírus tampouco altera o pré-natal. “Só se discute com a paciente o que fazer se for câncer. Dependendo da lesão, a gente espera a gestação acontecer e depois trata”, explica Terra.
O câncer de Brognoli não admitia espera. A metástase nos linfonodos, mais grave, foi identificada antes da lesão primária no colo do útero. Ela fez quimioterapia na gestação, seguida de radioterapia depois do parto.
Segundo a oncologista Pilar Estevez, o tipo de tratamento depende do estágio do câncer cervical quando detectado. Se for muito inicial, o tratamento é cirúrgico. Se mais avançado, pode ser radioterapia ou quimioterapia.
Mas em casos de gestação, a radioterapia não pode ser feita, e a quimioterapia, só depois do primeiro trimestre. A ginecologista Márcia Terra acrescenta que o tratamento quimioterápico deve ser interrompido cerca de três semanas antes da data do parto, minimizando possíveis complicações para a criança.
Transmissão de mãe para filho é rara
A ideia de que HPV na gravidez determine uma cesárea é um mito. “O que indica o tipo de parto é a condição obstétrica”, explica Terra. Segundo a ginecologista, o crescimento de verrugas genitais causadas pelo vírus pode impedir a descida do bebê pelo canal de parto.
No caso de Brognoli, a cesariana foi necessária. Segundo Estevez, o tecido comprometido pelo câncer não consegue se dilatar de maneira eficaz. A rigidez pode levar à ruptura do colo uterino.
Uma das dúvidas de Brognoli era se o vírus poderia afetar o bebê. “Eu tinha indícios de que não era possível a transmissão vertical. Mas a gente quer ter certeza de tudo.”
Em alguns casos, pode haver transmissão durante o parto normal, quando o bebê entra em contato com o trato genital da mãe.
Ainda assim, segundo a ginecologista e obstetra Silvana Quintana, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, na maioria dos casos em que o vírus é identificado no recém-nascido, ele se torna indetectável até o sexto mês de vida.
Em raras ocorrências, a transmissão pode originar papilomatose respiratória recorrente, condição em que lesões semelhantes a verrugas se formam nas vias aéreas da criança.
Os sintomas podem levar meses ou anos para se manifestar. A doença está associada principalmente aos tipos 6 e 11 do HPV, considerados de baixo risco.
O pediatra pode fazer a avaliação inicial dos sintomas, devendo encaminhar a criança para um otorrinolaringologista ou especialista em cabeça e pescoço. As lesões podem ser pequenas e restritas à garganta, mas também podem crescer, dificultar a respiração e exigir cirurgias. “É uma doença muito rara, mas relativamente grave”, reforça Terra.
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Desde 2024, o Ministério da Saúde recomenda que pessoas com papilomatose respiratória recorrente recebam, a partir dos dois anos, três doses da vacina contra o HPV como tratamento complementar às cirurgias.
Falta de dados
Não é possível saber quantas gestantes recebem o diagnóstico de HPV no Brasil. A infecção não integra a lista nacional de notificação compulsória, o que significa que os serviços de saúde não precisam comunicar os casos ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.
O Ministério da Saúde afirma que essa lacuna deverá começar a ser reduzida com a implementação da Rede de Biologia Molecular para Detecção de HPV. Segundo a pasta, a estrutura permitirá sistematizar os resultados laboratoriais e padronizar a produção de informações.
Outra ação do ministério envolvendo a infecção é o resgate vacinal de adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não receberam a vacina contra o HPV na idade recomendada ou que não têm registro da imunização.
Iniciada em 2025, a estratégia foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026.
Os especialistas reforçam que a vacinação, principalmente nos mais jovens, é a melhor forma de prevenção contra o HPV e as doenças associadas ao vírus. “Se uma mulher observar lesões genitais, ela deve procurar um profissional de saúde. É possível tratar essas lesões e dificultar o encontro do bebê com esse vírus”, afirma a obstetra Silvana Quintana.
Hoje, Andressa Brognoli vive com os dois filhos e é acompanhada pelos médicos da sua segunda gestação, que lhe deu Gabriel, 4. Às mulheres que enfrentam situação semelhante, ela aconselha ter uma boa equipe profissional e acreditar na medicina.
Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.
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