A ciência brasileira ainda se arrisca pouco. Não porque os pesquisadores brasileiros não saibam formular perguntas de risco, mas porque as agências de fomento —sejam públicas ou privadas— ainda não aprenderam a avaliar projetos com capacidade de fracasso.
A análise é do geneticista francês Hugo Aguilaniu, 50, que deixará a direção-executiva do Serrapilheira no fim deste ano. Ele está há quase dez anos à frente do instituto, a primeira instituição privada formada no país especificamente para financiar ciência fundamental. Seu sucessor será escolhido por meio de uma chamada pública, com inscrições abertas até 4 de setembro.
“Acredito que hoje, no Brasil e no [resto do] mundo de maneira geral, não sabemos avaliar o risco. Sabemos que muitas vezes o projeto vai fracassar e, de vez em quando, vai levar a uma descoberta totalmente incrível. Como avaliar esse risco é a questão”, diz ele.
O ex-pesquisador do CNRS (agência de ciência francesa) assumiu a direção do Serrapilheira em 2017, visando um modelo de fomento à pesquisa distinto daquele adotado tradicionalmente em agências.
Com financiamento flexível, o instituto se dedica sobretudo aos jovens pesquisadores e à redução dos entraves burocráticos. Desde seu surgimento, em março daquele ano, houve apoio a 297 projetos de ciências nas áreas da vida, exatas, engenharia e computação.
O Serrapilheira diz ter investido R$ 130 milhões em 453 projetos de ciência e divulgação científica, com a formação de cerca de 180 estudantes. Além disso, afirma que destinou em torno de R$ 30 milhões a ações de diversidade, com editais para grupos considerados invisibilizados e inclusão nas equipes apoiadas. Os dados são de julho deste ano.
Aguilaniu considera que um dos principais desafios continua ser encontrar pesquisas verdadeiramente arriscadas. “O nosso fracasso é quando um pesquisador submete para o nosso apoio um projeto igualzinho ao que mandaria à Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] ou ao CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Ele vai ter uma produção científica robusta, mas não tem o risco.”
A avaliação de que a filantropia permite à ciência produzir pesquisas mais arrojadas e com alto risco é também de Guilherme Ary Plonski, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.
“Não é uma ideia de substituir o setor público, mas sim de complementar com o financiamento à pesquisa de risco, menos sujeita a regras que são normais quando os recursos vêm do setor público”, avalia o docente, coordenador do Gema (Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência), que estuda filantropia na ciência.
Com orçamento anual de R$ 30 milhões, o Serrapilheira precisou conquistar a confiança de pesquisadores pouco acostumados ao investimento privado.
Enquanto a filantropia nacional antes se concentrava em doações a universidades, o Serrapilheira abriu uma linha de fomento privado à ciência, diz Plonski. “Olhando o ecossistema [de filantropia], o Serrapilheira é de fato pioneiro.”
Segundo Aguilaniu, o instituto buscou “provocar” políticas integrativas, como cotas na pós-graduação, com formação de jovens pesquisadores negros, indígenas e periféricos. “Nós produzimos formações focalizadas e demos liberdade. Isto fez com que muitos saíssem pensando em ideias que tradicionalmente em um laboratório talvez não seguissem”, diz ele sobre a chamada para pós-doutorandos negros e indígenas.
Um dos pontos centrais, que ele próprio criticava nos modelos de fomento tradicionais, era o tempo e a energia gastos por pesquisadores com importações de insumos, prestações de contas e outras atividades administrativas. “Nós sabemos centavo por centavo onde o nosso dinheiro foi gasto, mas deixamos na mão dos pesquisadores decidirem. Se ele avalia que um modelo de computador é melhor para ele, não precisa mostrar que é o mais barato, simplesmente damos o dinheiro para a compra. Nunca nos passaram a perna.”
O geneticista deixará o Serrapilheira para assumir a liderança do Instituto Relva, criado a partir de um projeto-piloto da própria organização. Diferentemente do “irmão” mais velho, o Relva não será uma agência de fomento, mas um centro dedicado a produzir pesquisa na área ambiental e a aproximar o conhecimento científico das políticas públicas. A ideia é que as equipes investigem problemas ambientais para propor soluções a gestores.
Como legado, Aguilaniu destaca o papel do Serrapilheira na ciência e divulgação científica e espera continuar apoiando pesquisadores e mídia na produção de dados. “Entendo que não necessariamente o cientista tem que fazer a divulgação por conta própria —tem cientistas que têm vocação para isso e outros não, e está tudo bem. Mas uma divulgação científica bem feita demanda bastante esforço.”
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