Com o uso de inteligência artificial e técnicas avançadas de imagem, pesquisadores conseguiram realizar a primeira leitura completa de um pergaminho fechado de Herculano, segundo um comunicado divulgado nesta quinta-feira (25). O texto faz parte de um artigo queimado pela erupção do Monte Vesúvio há quase 2.000 anos.
A descoberta representa um grande avanço no processo para decifrar centenas de manuscritos antigos encontrados em Herculano, a cidade romana destruída junto com Pompeia no desastre de 79 d.C.
Buscando acelerar as pesquisas, o Vesuvius Challenge, que promove novas tecnologias para tentar compreender os textos carbonizados, anunciou que disponibilizará online todos os seus dados, códigos e modelos dos papiros e oferecerá um prêmio de US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões) para a primeira pessoa ou equipe que conseguir ler integralmente qualquer outro pergaminho.
“Há apenas um ano, seria loucura qualquer um de nós acreditar que seria possível ler um pergaminho completo de forma totalmente não invasiva, com centenas de colunas de texto”, disse Brent Seales, professor de ciência da computação da Universidade de Kentucky e um dos fundadores do projeto.
“Hoje mostramos que isso é possível”, afirmou ele em uma conferência transmitida de Nápoles. “Acredito que vamos ler cada um dos pergaminhos da coleção.”
Texto descoberto explora ética, artes e comportamento humano
Os pergaminhos enegrecidos e frágeis não podem ser abertos fisicamente sem que isso acarrete sérios danos aos materiais. Em vez disso, os pesquisadores utilizaram escaneamentos de alta resolução e técnicas computacionais para “desenrolá-los virtualmente” e detectar a tinta nas camadas de papiro.
Até o momento, cerca de 45 pergaminhos de papiro e fragmentos foram escaneados. Mais de 600 pergaminhos fechados permanecem intactos, e grandes partes da vila onde foram descobertos ainda não foram escavadas, levantando a possibilidade de que mais itens possam ser encontrados.
O Vesuvius Challenge já concedeu US$ 1,8 milhão (R$ 9,4 milhões) em prêmios por trabalhos relacionados à revelação dos textos de Herculano, mas Nat Friedman, executivo de tecnologia americano e patrocinador fundador do projeto, disse que novos conhecimentos levarão a grandes avanços.
“É possível melhorar drasticamente os algoritmos que temos e achamos que as técnicas de detecção de tinta que estamos usando provavelmente podem ser muito aprimoradas”, afirmou, incentivando mais especialistas em computação a se envolverem.
No novo material apresentado nesta quinta, estavam 70 colunas do texto “Sobre os Vícios, Livro 1”, atribuído ao filósofo epicurista Filodemo.
Quase 1,5 metro de texto legível em 20 colunas também foi recuperado de um documento datado de 200-300 a.C. —o pergaminho de Herculano mais antigo já desenrolado— que explora ética, artes e comportamento humano.
Federica Nicolardi, papirologista-chefe do Vesuvius Challenge, disse que as novas tecnologias são transformadoras. “Mesmo com os métodos mais bem-sucedidos disponíveis, para desenrolar fisicamente os pergaminhos e lê-los, era necessário danificá-los. Mas, com o desenrolamento virtual, não somos mais forçados a escolher entre preservar e ler esses artefatos extraordinários. Podemos fazer ambos.”
Para Nicolardi, o progresso está se acelerando rapidamente, com pesquisadores nas últimas 24 horas desenrolando toda a extensão de um pergaminho, produzindo em torno de 140 colunas de texto novo. Até pouco tempo atrás, era possível descobrir apenas cerca de 10% das colunas, acrescentou.
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