Depois de fazermos um passeio relativamente aprofundado pela história dos grandes monoteísmos do planeta, voltamos aos temas religiosos por aqui destacando uma tradição muito diferente do judaísmo, cristianismo e islamismo, mas igualmente importante para a fé dos brasileiros. E o nosso mote será um livro precioso de Nei Lopes –sem parentesco com este escriba, apresso-me a acrescentar. Falo do “Dicionário de Africanismos nas Américas” (editora Civilização Brasileira), que acaba de ser lançado.
Se o leitor ainda não conhece a trajetória de erudito autodidata do autor, a entrevista disponível neste link ajuda a situar bem as contribuições de Lopes. Como pesquisador independente, ele tem produzido uma fieira de dicionários e outras obras de referência sobre a história africana e suas conexões com o outro lado do Atlântico –étnicas, linguísticas e, claro, religiosas.
E, de fato, embora o dicionário seja simplesmente de “africanismos”, ou seja, de vocábulos de uso corrente no continente americano que foram trazidos para cá ou influenciados pela diáspora de escravizados e seus descendentes, o que salta aos olhos logo no começo é como muitas dessas palavras têm uma conexão muito próxima com a pluralidade de sistemas de crença que existia na África. Uma pluralidade que se adaptou, sob o impacto dos processos de colonização e cristianização, mas continua evoluindo por aqui.
Um exemplo que talvez pareça banal: a culinária. Vamos para o finzinho do dicionário, na letra X. Pessoas da minha faixa etária quase certamente se lembram dos versos de samba-enredo “Tem xinxim e acarajé/tamborim e samba no pé”. Confesso que não fazia a menor ideia do que fosse o tal xinxim, ignorância sanada pelo verbete do dicionário:
“Molho cremoso da culinária afro-baiana, preparado com azeite de dendê, camarão seco, leite de coco e outros ingredientes.” OK, mas eis o pulo-do-gato: “De um amarelo brilhante, na culinária ritual do candomblé é uma das preferências de Oxum [orixá das águas doces]” arremata Lopes, concluindo que o termo pode derivar de “sínsín” –o significado seria “derreter, fundir” no idioma fongbé, aparentado ao iorubá.
O caso do xinxim se repete ao longo de todo o livro, refletindo o fato de que a culinária tradicional dos brasileiros de origem africana (e também o dos demais sul-americanos, caribenhos e norte-americanos descendentes de escravizados) muitas vezes reflete todo o pano de fundo de práticas religiosas trazidas do outro lado do Atlântico e transformadas. O que não deveria surpreender ninguém: em quase todas as culturas pré-modernas do planeta, atos cotidianos como a alimentação costumam estar imbuídos de significado transcendente em muitas ocasiões.
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O mesmo vale para outros temas importantes do livro, como os ritmos e instrumentos musicais, as danças, celebrações e reuniões comunitárias. Embora a nomenclatura dos orixás, por exemplo, bem como de boa parte da culinária denote uma forte influência da etnia e do idioma iorubá, o exemplo do fongbé que citei mostra como o dicionário reflete a diversidade de línguas e culturas africanas que passaram a conviver no Brasil do século 16 para cá.
Um elemento importante, dada a predominância de escravizados vindos de Angola e de regiões vizinhas da África centro-ocidental ao longo de toda a história do país, são os idiomas da família linguística bantu, como o quicongo e o quimbundo. (Aliás, um jeito simples de identificar a influência desses idiomas no português do Brasil é ficar de olho em polissílabos com essa combinação “mb”, como “cachimbo”.)
E, claro, essa regra se aplica também a “candomblé”, outro termo provavelmente de origem bantu, mas em geral usado para designar divindades da tradição iorubá, de cultura bem distinta. Mais um indício de como essas tradições se tornaram híbridas em solo brasileiro.
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