Ler Resumo
Séries como “Terra da Máfia” e “Tulsa King” desmistificam o glamour da vida criminosa, revelando figuras poderosas em decadência e confrontando dilemas familiares e de lealdade. Com humor ácido, as produções adaptam o universo gangster aos desafios do século XXI, mostrando que até mafiosos lutam pelo pão de cada dia.
Este resumo foi útil?
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O casal Conrad e Maeve Harrigan, interpretados pelos ótimos Pierce Brosnan e Helen Mirren, comanda há décadas o lucrativo tráfico de drogas na região norte de Londres, na série Terra da Máfia, que acaba de lançar sua segunda temporada no Paramount+. A dupla encabeça uma dinastia de mafiosos que, iludida pelos louros do passado, crê ser indestrutível. São, contudo, disfuncionais e inconsequentes, postura que os leva rumo à decadência em um mundo mais dinâmico e digital — e de competição mais acirrada entre criminosos. Na nova fase, quando o chefe de uma facção rival insinua que os Harrigan estão obsoletos, o casal simplesmente mata uma dezena de adversários à luz do dia, no camarote de um estádio para corridas de galgos. Cabe então ao incansável faz-tudo do clã, Harry Da Souza (Tom Hardy), limpar os vestígios do caos. “Se chama crime organizado por uma razão”, alerta, ironicamente, um dos seguranças, apontando para a bagunça causada pelos patrões — e que pode ser a ruína deles.
A série criminal britânica criada por Ronan Bennett, com episódios dirigidos pelo incensado cineasta Guy Ritchie, desmistifica a aura de intocáveis dos gângsteres, idealizada por clássicos como O Poderoso Chefão, para colocá-los no século XXI com uma pegada à la Succession. Os Harrigan têm dinheiro e influência, mas seu poder está ameaçado por disputas internas entre os filhos problemáticos. Eles não estão sós: a TV vem expandindo o retrato desses figurões do crime, que, além de atrativos, servem como um ótimo contraste para dilemas morais dos dias de hoje, especialmente no que diz respeito à fragilidade das relações familiares e da quase extinta lealdade, assuntos antes caros a esses grupos.
Em Tulsa King, outra da Paramount+, que ganha uma quarta temporada em 16 de outubro, o protagonista de Sylvester Stallone passa 25 anos preso, protegendo o chefe mafioso, e, quando solto, é escanteado pelo filho dele, que o expulsa de Nova York e o leva à insossa Tulsa, em Oklahoma — lá, o grandalhão septuagenário tem de reconstruir sua “carreira” ilícita do zero. A chegada de uma nova geração com códigos morais distintos é também o motor da série Magnatas do Crime, da Netflix, esta criada por Guy Ritchie, um entusiasta do filão. Na trama, o herdeiro de uma burguesia rural descobre que uma propriedade da família está ligada a um império da maconha — e é seduzido a assumir o negócio. Até o Brasil achou um recorte do gênero para explorar: em Os Donos do Jogo, da Netflix, a hierarquia de bicheiros no Rio de Janeiro é ameaçada por jovens ambiciosos e pela possível legalização dos jogos de azar.

Entender o fascínio causado pelos mafiosos não é difícil. Dos caubóis virulentos de faroestes até anti-heróis de índole ambígua, como Walter White, o professor de química que vira traficante em Breaking Bad, esses personagens são poderosos, irrefreáveis, inteligentes e representam um ideal antigo, mas ainda em voga, de masculinidade. “No começo, o crime é glamouroso, principalmente se você for jovem e ingênuo, que era o meu caso”, descreveu Martin Scorsese sobre a experiência de crescer em um bairro dominado pela máfia ítalo-americana, em Nova York, retratada por ele em Os Bons Companheiros (1990). Enquanto gênero de ficção, porém, esse poder paralelo não deixa de arrebanhar seguidores.

A primeira evolução do filão na TV veio em 1999, com a excelente série Família Soprano — nela, o chefe do crime não é tão diferente dos outros mortais: ele vive no subúrbio, tem preocupações triviais, como a faculdade da filha, e confidencia com uma terapeuta. É dessa herança que bebem as novas produções, que miram em histórias menos realistas e mais irônicas. Em Terra da Máfia, por exemplo, um lance cômico merece destaque: a filha de Harry entra para o crime e passa a extorquir influenciadores digitais, prometendo protegê-los de quaisquer perigos — um velho discurso vazio da máfia (afinal, ela é o perigo) usado com comerciantes do passado, mas aplicado aos dias de hoje. Algo assim acontece em Tulsa King: a primeira ação do personagem de Stallone é entrar em uma loja que vende maconha medicinal legalizada e ameaçar o dono para ele lhe dar 20% do lucro em troca de proteção. Ver o grandalhão negociando com funcionários sob a influência da droga é hilário. Do outro lado da tela, o espectador, quem diria, acaba se reconhecendo: até os mafiosos estão lutando pelo pão de cada dia.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013
Fonte: Link da fonte













