A exposição diária a imagens de pessoas excessivamente magras, especialmente figuras midiáticas, pode ser negativa para a autopercepção de adolescentes, segundo especialistas.
De acordo com a psiquiatra Mireille Coelho da Astral (Associação Brasileira de Transtornos Alimentares), o público nesta faixa etária tende a estar mais vulnerável a figuras de referência. Pessoas já adoecidas são mais impactadas pela cultura da magreza extrema de famosas.
“Ver uma figura de referência, bem-sucedida e funcional, muito abaixo do peso, pode ser um gatilho. Além disso, é um reforço do desejo de ser mais magra, pois há alguém tão ou mais magra que eu que é bem-sucedida”, diz, como é o caso de Ariana Grande. No início de agosto, a cantora anunciou uma pausa na carreira em decorrência de julgamentos sobre sua aparência.
“A naturalização do corpo com um peso muito abaixo do recomendado altera a visão da sociedade sobre o que é um peso saudável, porque a imagem corporal é uma construção”, diz. A normatização da o corpo muito magro prejudica quem já está adoecido e pode afetar pessoas predispostas ao desenvolvimento de transtornos alimentares, seja por fatores genéticos ou outros.
A presidente do Conselho Federal de Psicologia Ivani Oliveira diz que a exposição contínua à imagem de magreza extrema gera um fenômeno de comparação disfuncional. Ela explica que pacientes que sofrem com essa pressão estética precisam de atendimento que fortaleça a compreensão da própria história. O objetivo é mostrar que é possível admirar atrizes, cantoras e outras referências pelos valores com que contribuem, sem adotá-las como padrão de autoimagem.
A maneira como entendemos a forma corporal tem dois aspectos: o técnico, que é aquilo que se enxerga, e o subjetivo, que é o que se tem na própria mente, segundo Mireille. A especialista diz haver teorias que consideram o impacto da sociedade na totalidade, de familiares e amigos próximos a figuras da mídia, como referências na construção das concepções do que é ou não considerado um corpo saudável ou belo.
Em pessoas com disforia de imagem, há uma interação diferente das áreas do cérebro e a autoimagem oscila conforme o humor, seja por impactos da rotina ou hormonais. Mesmo com acompanhamento psicológico, essa imagem pode levar anos para ser identificada, tratada e normalizada. Ela está entre os maiores causadores de recaídas em transtornos alimentares, como restrição e compulsão alimentar, compulsão por exercícios ou comportamentos que forcem a purgação.
Segundo a pesquisa Tic Kids Brasil 2025, 77% dos usuários de 9 a 17 anos reportaram possuir um celular próprio; destes, 80% relataram usar o aparelho para assistir vídeos de influenciadores digitais e 58% veem esse tipo de conteúdo mais de uma vez por dia. O levantamento do ano anterior aponta que 49% dos usuários de 11 a 17 anos tiveram contato online com conteúdo sobre dietas e refeições saudáveis, e 33%, sobre exercícios, esportes ou como entrar em forma.
Ivani diz que é preciso que psicólogos entendam a pressão para magreza extrema como um problema social. “Estamos sendo bombardeados por imagens extremamente agressivas. É importante acolher sem julgar e oferecer ao paciente uma higiene digital e crítica, para que ele possa se nutrir de outros referenciais.”
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