Megaconstelações de satélites ameaçam astronomia – 07/07/2026 – Ciência

Os projetos de megaconstelações de satélites podem ter consequências devastadoras para a astronomia, segundo o Observatório Europeu Austral (ESO). Ao todo, em torno de 1,7 milhão de equipamentos podem ser lançados na órbita terrestre nos próximos anos.

Um estudo, realizado pelo ESO e publicado no último dia 29 na revista Astronomy & Astrophysics, avaliou até que ponto as constelações de satélites de grande porte e muito brilhantes podem um dia afetar as observações astronômicas ao clarear o céu noturno.

Desde 2019, o número de satélites na órbita da Terra aumentou rapidamente. Hoje, estima-se que somem 14 mil, sendo em sua maioria satélites da Starlink, da SpaceX.

A empresa de Elon Musk diz que prevê colocar em órbita mais um milhão de satélites, voltados a centros de dados espaciais.

Outros projetos, como o Cinnamon, da empresa E-Space, ou constelações chinesas CTC-1 e CTC-2, podem resultar no acréscimo de várias centenas de milhares de satélites à órbita terrestre.

Só a empresa americana Reflect Orbital pretende lançar até 2035 cerca de 50 mil satélites de grande porte. Os equipamentos, similares a espelhos, têm o objetivo de proporcionar luz solar durante a noite mediante feixes de luz refletida.

“Quando um satélite passa diante daquilo que estamos observando, deixa uma esteira luminosa na nossa imagem, ocultando tudo o que está atrás”, disse o astrônomo Olivier Hainaut, do ESO, autor do estudo.

“Isso já ocorre diariamente há alguns anos, mas ainda é suportável. Mas, se passarmos de 14 mil para 1,7 milhão de satélites, vamos ter problemas”, acrescentou o pesquisador, mostrando preocupação sobretudo com os satélites projetados para ser extremamente brilhantes.

Mesmo quando não apontam diretamente para o observador com seus espelhos, a luz dispersa pelos satélites da Reflect Orbital faria com que aparecessem no céu como milhares de Vênus, visível a olho nu.

“Seja em Auvergne [França], no Saara [África] ou no deserto do Atacama [Chile], o céu deixaria de ser puro e pareceria com o que se observa nos arredores de uma cidade”, afirmou o pesquisador.

Para evitar consequências dramáticas para as pesquisas, o estudo sustenta que o número de satélites em órbita deveria ser limitado em 100 mil. Além disso, segundo a pesquisa, eles deveriam ser pouco brilhantes a ponto de não ficarem visíveis à olho nu quando observados de um lugar escuro.

Contaminação luminosa e ambiental

O estudo serviu de base para um informe apresentado pelo ESO, em colaboração com a Royal Astronomical Society do Reino Unido e a União Astronômica Internacional à Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos, organismo encarregado de examinar os pedidos de autorizações apresentados pela SpaceX e pela Reflect Orbital.

“Agora, a bola está no campo da FCC e esperamos ver quais decisões vai tomar a respeito. Para a astronomia, é uma ameaça e esperamos que os reguladores compartilhem esse ponto de vista”, afirmou, em nota, Betty Kioko, encarregada de assuntos institucionais do ESO.

“Os astrônomos não têm absolutamente nada contra o uso dos satélites. A questão é como conviver”, afirmou Hainaut, mencionando uma “colaboração razoavelmente boa com os fabricantes de satélite, em particular com a SpaceX, que estão fazendo um grande esforço para minimizar o impacto de seus satélites”.

Um porta-voz da Reflect Orbital disse à AFP que a empresa encomenda estudos independentes sobre o impacto de sua tecnologia e se comprometeu a “continuar o diálogo com os astrônomos”.

“Nossos satélites estarão ‘desligados’ e evitaremos sistematicamente redirecionar a luz perto dos observatórios”, declarou ele.

A contaminação luminosa gerada por satélites não é apenas uma preocupação para os astrônomos. Também pode ter repercussões para a saúde e o meio ambiente, ao alterar os relógios biológicos dos seres vivos e dos ecossistemas.

Além disso, as grandes constelações de satélites têm um impacto direto na qualidade do ar, tanto durante seu lançamento quanto na reentrada na atmosfera, ao final de sua vida útil.

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore