Mendonça autoriza PF a monitorar celular de Jaques Wagner – 31/07/2026 – Política

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a Polícia Federal a monitorar o celular do senador Jaques Wagner (PT-BA) depois de identificar riscos de vazamentos de informações da operação que investiga as fraudes do Banco Master. Segundo o relator, a suspeita surgiu depois de um dos alvos procurar o gabinete dele dias antes da deflagração das medidas contra o parlamentar.

De acordo com informações de pessoas a par das investigações, o próprio senador esteve no Supremo para falar com o ministro em 17 de junho, na véspera da operação contra ele.

A medida, que inclui o monitoramento de localização em tempo real (ERB) e o acesso a registros de chamadas, foi motivada por um “risco agudo de vazamento” das diligências.

Além de Jaques Wagner, o ministro autorizou a medida contra o empresário Augusto Lima, o enteado do senador Eduardo Mendonça Sodré Martins, David Lopes Monteiro, o pai de Eduardo, Guilherme Henrique Sodré Martins, e a diretora da PKL One Participações Andréa Lima Novaes.

A reportagem procurou o senador na noite desta quinta-feira (30), mas não obteve resposta. Em ocasiões anteriores, Jaques Wagner negou qualquer irregularidade que o envolvesse com o banco.

A decisão de Mendonça é do dia 23 de junho e teve o sigilo retirado nesta quinta. O ministro afirma que já houve anteriormente na investigação do Master casos de antecipação de ações policiais.

Diante desse cenário, Mendonça considerou “operacionalmente relevante” o acesso aos dados de localização para garantir a eficácia da operação e evitar a destruição de provas.

“Impende realçar a ocorrência de fato que agudiza os riscos de vazamento indevido da operação no presente caso. Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa (09/06/2026), inclusive em horário anterior à distribuição de algumas das representações formuladas”, disse.

Na mesma decisão, Mendonça restringe a medida aos terminais e alvos determinados. Quanto ao monitoramento em tempo real, o ministro fixou o período de dez dias para a análise.

O ministro disse não autorizar acesso ao conteúdo das comunicações. A PF pode acessar dados técnicos, metadados, registros de chamadas, ERBs e informações de conexão necessárias à localização aproximada dos terminais e à reconstrução da cadeia comunicacional.

A PF apura suspeitas de que o senador recebeu pagamentos ligados ao Master por meio da empresa da nora dele, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. A operação foi deflagrada em 18 de junho.

A apuração se deu a partir da análise de material apreendido com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.

Em novembro de 2024, o senador encaminhou à Augusto Lima o contato do gerente da Construtora Moura Dubeux, de Salvador e escreveu: “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”. No dia seguinte, enviou também o livro digital do empreendimento, segundo a investigação policial.

Naquela mesma data, Augusto Lima teria repassado a um associado dados do corretor, do empreendimento, da unidade e do valor do apartamento.

Seis meses depois, Jaques Wagner encaminha mensagem de texto de “um filho ou filha”, segundo a PF, e pede que Lima consiga dados do proprietário real do imóvel.

“Pai, bom dia! Para envio do projeto com as alterações no apartamento, é exigido também o envio do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). Para emitir esse RRT são necessários dados do proprietário”, diz a mensagem recebida por Wagner e encaminhada à Lima com o pedido: “consiga esses dados”.

“Tais elementos conferem plausibilidade à hipótese de que o imóvel se encontrava formalmente vinculado a terceiro, em estrutura de dissimulação da titularidade real”, afirma André Mendonça na decisão que autorizou a operação.

A Polícia Federal identificou um pagamento de R$ 3,5 milhões de uma empresa ligada a Augusto Lima ao “núcleo familiar” de Jaques Wagner, o que segundo Mendonça é uma das evidências de proximidade.

A transferência aconteceu em outubro de 2025, após o Banco Central barrar a venda do Master para o BRB, e foi da PKL One –que pertence à prima de Lima, Andréa– para a BN Financeira —que é de Eduardo Sodré, cunhado de Jaques.

Mensagens mostram, inclusive, que Sodré cobra de Augusto Lima a efetivação do pagamento. O empresário justifica o atraso justamente em razão da crise do Master.

Em entrevista à Folha em junho, Jaques Wagner chamou a ação da PF de “patacoada”. Disse que não tinha conhecimento dos valores pagos para a empresa da nora e que a investigação está “criminalizando qualquer tipo de relacionamento”.

“O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra.”

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