Mineral reforça hipótese sobre origem da cratera em SP – 16/08/2026 – Ciência

A cratera de Colônia, na zona sul paulistana, de fato resulta do impacto de um corpo celeste há milhões de anos. A conclusão é de um artigo publicado em abril deste ano na revista Earth and Planetary Science.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil).

A cratera de Colônia tem aproximadamente 3,6 quilômetros de diâmetro e está localizada no distrito de Parelheiros, a cerca de 40 km do centro de São Paulo.

A hipótese da formação por um impacto já é conhecida a partir de pesquisas anteriores do geólogo Victor Velázquez Fernandez, professor da USP, e sua equipe.

O novo estudo, do qual o docente também faz parte, analisou as deformações de um mineral presente em amostras extraídas em diferentes profundidades da cratera chamado zircão.

Marcas microscópicas preservadas no interior desse mineral só poderiam ter sido formadas por condições extremas de pressão e temperatura, dizem os autores. Os novos dados sugerem que a origem por impacto continua sendo a única interpretação compatível para a cratera.

O zircão é um mineral composto de silicato de zircônio que, como acontece com outros cristais, tem uma estrutura que não responde da mesma maneira em todas as direções, afirma a geóloga Alethéa Sallun, pesquisadora do IPA e coautora do estudo.

Utilizando análise microscópica, os autores observaram cicatrizes internas e outras deformações causadas na rocha pelo choque em um conjunto de grãos de zircão coletados.

“As feições observadas têm características geométricas compatíveis com uma deformação por choque”, diz ela. “Olhos não treinados podem confundir marcas de impacto com fraturas de estresse tectônico comum ou zoneamento de crescimento magmático.”

De acordo com os autores, a deformação em seis grãos de zircão de até 50 µm de diâmetro (aproximadamente 0,05 milímetro) examinados de um total de 40 amostrados indica que houve uma propagação de ondas de choque durante o impacto possivelmente de um meteorito.

Entre as deformações observadas estão a recristalização, desorientação cristalográfica, perturbação das zonas de crescimento, feições planares de deformação (chamadas de PDFs) e texturas granulares. Segundo os cientistas, as hipóteses de que tais choques foram gerados por uma atividade tectônica intensa ou metamorfismo, que pode ocorrer após um evento de pressão elevada interna na rocha, não são corroboradas pelos dados apresentados.

“As marcas mostram que os cristais foram submetidos a condições extremamente intensas e que só podem estar associadas a um impacto, mas esse estudo não permite calcular diretamente a pressão máxima do impacto, nem o tamanho ou a velocidade do objeto que atingiu Colônia”, afirma Sallun.

Em especial, as estruturas planares de deformação são uma das evidências incontestáveis de como o choque do impacto produziu as deformações ali encontradas, e não uma atividade tectônica ou metamorfismo, pois elas excedem em muito o tipo de deformação produzida por um evento endógeno de pressão.

“Quando a onda de choque atravessou essas rochas, a pressão extrema deformou a estrutura interna dos cristais, deixando marcas microscópicas que hoje podemos observar”, relata a pesquisadora.

Um ponto importante a se entender é que o zircão já era um mineral presente nas rochas de onde hoje é a região antes do impacto, ou seja, a sua origem no local não é extraterrestre. No entanto, não havia sido identificada, em nenhum outro local onde há o registro de um impacto por meteorito no Brasil, a presença de grãos de zircão.

Por essa razão, o achado se soma às demais evidências já observadas. “A existência da cratera de impacto já contava como outras evidências; o que os zircões acrescentam é uma espécie de ‘registro interno’ de como os minerais foram deformados durante o impacto”, diz Sallun.

Os próximos passos do estudo, segundo a pesquisadora, incluem combinar esse tipo de análise microscópica com outras técnicas, como a datação. “A datação dos zircões pode ajudar a investigar a idade do impacto, dependendo de como o evento alterou o sistema isotópico desses minerais. Combinando essas informações com outras evidências da cratera, poderemos ter uma ideia mais clara de como e quando ocorreu o impacto.”

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