Nobel: Laureado pedófilo seguiu vida com apoio da academia – 21/08/2026 – Ciência

“Levei minha pederastia [pedofilia] de toda a vida para a carreira médica e fui bem-sucedido em ambas, com pouquíssimos fracassos”, escreveu o pediatra e virologista ganhador do prêmio Nobel Daniel Carleton Gajdusek, poucas semanas antes de morrer, em 2008, aos 85 anos, segundo a revista The New Yorker. “Sem protetores, eu jamais teria conseguido.”

A revista americana publicou, no último domingo (17), uma reportagem que detalha, com base em diários atribuídos ao médico, atos que Gajdusek teria cometido durante décadas contra crianças de locais isolados e que teriam sido levadas por ele aos Estados Unidos. Também descreve como a complacência da academia permitiu que a situação perdurasse.

A reportagem mostra ainda como o contato com o médico afetou a vida dos jovens que ele teria levado para os EUA. Diversos deles relatam problemas pessoais —inclusive enquanto morariam com o pediatra, condenado por pedofilia em 1997 a um ano e meio de prisão— e, alguns casos, ainda tentam se encontrar na vida de volta a seus países.

No caso de 1997, o ganhador do Nobel de Medicina se declarou culpado do abuso sexual de um garoto que vivia na casa dele, no estado americano de Maryland. O promotor do caso, Scott Rolle, afirmou à revista que o resto do caso caiu “quando as possíveis vítimas foram escondidas e desapareceram de volta no Pacífico Ocidental”.

Gajdusek cumpriu pena de um ano, após um acordo judicial, e, segundo a reportagem, demonstrava ter gostado do tempo na prisão. O texto da New Yorker não cita manifestações da família ou defesa do médico.

Ele era um respeitado pesquisador do NIH (National Institutes of Health), dos EUA, e não foi demitido após a condenação. Durante o tempo em que esteve preso, continuou publicando estudos.

As crianças que ele levaria aos EUA, de forma geral, seriam de locais isolados, onde conduzia pesquisas. Um desses trabalhos, envolvendo uma doença chamada kuru, rendeu-lhe o Nobel.

Outras figuras relevantes do meio científico intervieram em favor de Gajdusek, já após sua condenação. No dia em que foi solto, por exemplo, recebeu na prisão o neurologista Oliver Sacks.

Ao ser libertado, Gajdusek foi para Paris, onde o Institut de Neurobiologie Alfred Fessard havia designado um escritório para ele.

A reportagem conta um pouco da história de Michael —nome fictício—, que teria sido levado, aos 14 anos, por Gajdusek de Pohnpei, uma ilha da Micronésia, para os EUA.

Michael aceitou gravar uma conversa com Gajdusek para uma investigação do FBI, em 1996. O homem, naquela época já maior de idade, falou ao médico que o FBI estava tentando interrogá-lo. Ainda segundo Michael, Gajdusek respondeu que ele deveria dizer que nunca havia sido abusado sexualmente.

Em outro trecho da reportagem, há menção a partes do diário atribuído a Gajdusek em que ele descreve dormir nu na mesma cama com as crianças que levaria aos EUA, especialmente os garotos. Há também diversas outras descrições de toques em órgãos genitais.

Lendo diários de Gajdusek de décadas anteriores —que estavam disponíveis no NIH—, o pesquisador Mark Godec, que atuou no laboratório do Nobel, diz ter ficado chocado com o número de crianças pré-púberes que Gajdusek parecia acreditar terem “flertado” com ele ou o “seduzido”.

Godec levou o caso, em 1995, à senadora Nancy Kassebaum, presidente da Comissão de Trabalho e Recursos Humanos, responsável pela supervisão dos NIH.

Ainda segundo a reportagem da revista, na década de 80, uma investigação contra Gajdusek havia sido aberta após uma denúncia de abuso sexual contra uma criança (filho de um colega de Gajdusek do NIH), mas a apuração foi encerrada.

Durante as investigações, segundo a New Yorker, outros cientistas do laboratório Gajdusek eram protetores em relação ao pesquisador.

“Em seus diários e em cartas a colegas, Gajdusek se mostrava convicto da própria retidão, argumentando que o que fizera não era ‘mais grave do que deitar na grama ou colher um dente-de-leão’, e citava os ritos de iniciação dos Anga como justificativa. Essas cerimônias inseriam os meninos em suas comunidades como parte de um rito coletivo de passagem à vida adulta, mas Gajdusek as tratava como uma licença atemporal para os atos que cometera em privado, com um menino de cada vez”, aponta a reportagem da New Yorker.

A reportagem da New Yorker afirma que Gajdusek passou a última década de sua vida vivendo na Europa e viajando para dar palestras e participar de conferências científicas.

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore