Ninguém constrói sozinho a própria casa. Ninguém faz sozinho uma cirurgia. Ninguém projeta sozinho um avião comercial. Até quando o assunto são reparos simples em casa, costuma-se contratar um profissional ou equipe.
Curiosamente, quando o assunto é patrimônio, muitas pessoas acreditam que fazer tudo sozinhas é um sinal de inteligência. Afinal, se elas mesmas podem escolher os investimentos, por que pagar alguém para fazer isso? Parece uma decisão mais inteligente. Nem sempre é.
Recentemente, o leitor Rodrigo Silva perguntou se os fundos de investimento seriam mais indicados para investidores menos versados. Minha resposta é: sim, eles também podem ser uma excelente alternativa para quem está começando. Mas também são uma excelente ferramenta para quem conhece profundamente o mercado.
Eu mesmo mantenho a maior parcela dos meus investimentos pessoais em fundos de diferentes categorias. Já atuei como gestor de fundos de renda fixa, gestor de fundos multimercados, gestor de fundos de ações e também como analista de investimentos em ações.
Portanto, sem falsa modéstia, conheço o trabalho necessário para investir diretamente em cada uma dessas classes de ativos. Justamente por conhecer essa complexidade, prefiro delegar a maior parte dela a equipes especializadas.
Pode parecer contraditório. Afinal, se sei analisar ações, títulos de renda fixa e estratégias, por que não faço tudo sozinho? Porque conhecer profundamente um trabalho muitas vezes aumenta o respeito pela dificuldade de executá-lo com excelência todos os dias.
Folha Mercado
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Esse talvez seja o maior equívoco dos investidores. Eles acreditam que a decisão mais inteligente é assumir todas as tarefas, quando, na realidade, inteligência costuma significar exatamente o oposto: saber quais decisões precisam ser tomadas por você e quais podem ser delegadas a quem faz isso profissionalmente.
O primeiro benefício dos fundos é a diversificação. Um investidor dificilmente consegue montar sozinho uma carteira de renda fixa pulverizada entre centenas de emissores, setores, vencimentos e estruturas diferentes.
Um único fundo de renda fixa costuma possuir centenas de ativos. Ao combinar diferentes fundos, é possível construir uma carteira cuja diversificação seria praticamente inviável para qualquer pessoa.
Isso não elimina o risco. Mas reduz significativamente o impacto que um problema específico pode causar ao patrimônio. O maior risco não está apenas em escolher um ativo ruim. Está em concentrar patrimônio demais em uma decisão que parecia boa.
Outro benefício importante é a economia de escala. Assim como um supermercado consegue comprar produtos por preços melhores do que um consumidor individual, grandes gestores negociam ativos em condições que normalmente não estão disponíveis ao investidor de varejo.
Em muitas operações de renda fixa, conseguem taxas mais atrativas, maior poder de negociação, liquidez e acesso a emissões restritas ao mercado institucional.
Por isso, comparar apenas a taxa de administração de um fundo com a aparente ausência de custos em um investimento direto pode levar a conclusões equivocadas.
Quem compra um título individual também paga um preço, embora muitas vezes ele fique escondido no spread entre as condições disponíveis para investidores institucionais e aquelas oferecidas ao varejo. Esse custo não aparece como taxa, mas reduz a rentabilidade da mesma forma.
Há ainda uma vantagem que costuma receber pouca atenção: a estrutura de pesquisa. Uma gestora reúne economistas, analistas setoriais, especialistas em crédito, profissionais de risco, compliance, auditoria, controles internos e governança. Não significa que esses profissionais acertem sempre. Significa apenas que existe uma capacidade muito maior de estudar empresas, emissores e mercados do que aquela normalmente disponível a um investidor individual.
Ao decidir sozinho qual ação comprar ou qual título de crédito escolher, o investidor não está competindo contra outros amadores. Está competindo contra centenas de profissionais que dedicam o dia inteiro exatamente à mesma tarefa. A questão não é saber se é possível vencê-los eventualmente. A questão é perguntar se essa é realmente a melhor utilização do seu tempo.
Esse, aliás, talvez seja o patrimônio mais negligenciado nessa discussão. Tempo também é patrimônio. Cada hora dedicada à análise de balanços, emissões, cenários econômicos e acompanhamento de empresas deixa de ser utilizada na profissão, na família, no lazer ou em qualquer outra atividade que possa gerar mais valor para a vida do investidor. Um fundo não entrega apenas uma carteira. Ele também entrega milhares de horas de trabalho especializado.
Existe ainda um aspecto menos visível: disciplina. Gestores profissionais seguem processos, limites de risco e critérios de investimento previamente definidos. O investidor pessoa física, por outro lado, muitas vezes compra motivado pelo entusiasmo e vende movido pelo medo. O processo não elimina erros, mas reduz bastante a influência das emoções sobre as decisões.
Naturalmente, isso não significa que qualquer fundo seja uma boa escolha. Existem fundos caros, inconsistentes, excessivamente concentrados ou incompatíveis com os objetivos do investidor. Muitas pessoas concluem que “fundos não prestam” porque tiveram uma experiência ruim ou ouviram relatos sobre um produto mal administrado. Mas esse raciocínio seria equivalente a afirmar que mesmo ações americanas não funcionam porque algumas empresas já quebraram.
O problema não é a ferramenta, mas a escolha. Por isso, é fundamental avaliar a estratégia, os riscos, os custos, a liquidez, a qualidade da equipe gestora e a consistência dos resultados ao longo do tempo. Delegar não significa deixar de analisar. Significa trocar a análise de centenas de ativos pela análise da competência de quem tomará essas decisões diariamente.
Warren Buffett costuma dizer que risco é não saber o que se está fazendo. Eu acrescentaria apenas uma reflexão. Risco também é acreditar que sabemos o que estamos fazendo só porque o operacional de compra e venda é simples.
O investidor inteligente não mede sua competência pela quantidade de decisões que toma. Mede pela qualidade das decisões que escolhe tomar. E uma das mais importantes pode ser justamente decidir o que vale a pena delegar.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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