Olho no Japão – Fundos cortam 40% da aposta no real em nova virada do iene

Esta é a terceira de uma série de cinco reportagens que o Radar Econômico publica sobre a mudança do regime de juros no Japão, o yen carry trade e os efeitos dessa transformação sobre os mercados globais e os ativos brasileiros.

Em apenas duas semanas de setembro, fundos alavancados cortaram em 40% a posição líquida comprada em real no mercado futuro americano. Quase simultaneamente, esses mesmos investidores protagonizaram uma mudança ainda mais abrupta no iene: em sete dias, deixaram uma grande posição apostando contra a moeda japonesa e passaram a apostar a favor dela.

O movimento chama atenção porque algo parecido aconteceu durante a turbulência financeira de agosto de 2024.

O cruzamento feito pelo Radar Econômico a partir dos dados da Commodity Futures Trading Commission, a CFTC, mostra que, em 8 de setembro de 2026, os chamados leveraged funds mantinham 81.760 contratos comprados e 130.858 vendidos em iene. O saldo era, portanto, de 49.098 contratos líquidos vendidos na moeda japonesa.

Uma semana depois, a fotografia estava invertida.

Continua após a publicidade

Em 15 de setembro, os fundos apareciam com 110.302 contratos comprados e 87.132 vendidos. Tinham passado para uma posição líquida comprada em 23.170 contratos de iene.

A virada entre uma semana e outra foi de 72.268 contratos. Como cada contrato futuro acompanhado pela CFTC equivale a 12,5 milhões de ienes, a mudança representa aproximadamente 903 bilhões de ienes em valor nocional.

Enquanto a aposta no iene virava de lado, a aposta no real encolhia.

Continua após a publicidade

Em 8 de setembro, os fundos alavancados tinham 40.182 contratos comprados e 15.311 vendidos em moeda brasileira, uma posição líquida positiva de 24.871 contratos. Uma semana depois, o saldo havia caído para 16.105 contratos.

Em 22 de setembro, recuou novamente, para 14.917 contratos líquidos comprados. A redução acumulada em duas semanas chegou a aproximadamente 40%. Como cada contrato representa 100.000 reais, quase 1 bilhão de reais em exposição líquida nocional ao real desapareceu desse pequeno recorte do mercado no período.

Isso não significa que 1 bilhão de reais tenha necessariamente saído do Brasil. Tampouco demonstra que os contratos vendidos em iene financiavam diretamente os contratos comprados em real.

Continua após a publicidade

Os dados da CFTC não permitem conectar um lado da operação ao outro.

Mas a coincidência ganha relevância quando se volta a agosto de 2024.

Naquele momento, o mercado viveu um dos episódios mais violentos de desmontagem do yen carry trade dos últimos anos. O Banco do Japão havia elevado os juros, o iene começou a se valorizar e investidores que haviam financiado posições com a moeda japonesa correram para reduzir risco.

Continua após a publicidade

Em 30 de julho de 2024, os fundos alavancados estavam líquidos vendidos em 70.333 contratos de iene: possuíam 27.725 contratos comprados e 98.058 vendidos.

Duas semanas depois, em 13 de agosto, restavam apenas 2.415 contratos líquidos vendidos.

Em outras palavras, cerca de 97% da posição líquida contra o iene havia desaparecido.

Continua após a publicidade

E o que aconteceu com o real?

Em 30 de julho, esses mesmos fundos possuíam uma posição líquida vendida em apenas 1.751 contratos de real. Em 13 de agosto, estavam vendidos em 13.251 contratos.

A aposta contra a moeda brasileira havia aumentado em 11.500 contratos, equivalentes a 1,15 bilhão de reais em valor nocional.

A coincidência aconteceu justamente quando a turbulência japonesa atravessava os mercados globais.

Em 5 de agosto de 2024, o iene chegou ao maior nível em sete meses frente ao dólar, enquanto bolsas e moedas de maior rendimento sofriam uma forte onda de aversão ao risco. A moeda japonesa chegou a subir mais de 2% naquele pregão.

A comparação entre os dois episódios produz um padrão difícil de ignorar.

Em 2024, os fundos praticamente eliminaram uma grande posição vendida em iene enquanto aumentavam fortemente a posição vendida em real.

Em 2026, os fundos novamente fizeram uma enorme virada no iene e, ao mesmo tempo, cortaram em 40% a posição comprada em real.

Não é prova de causalidade.

É uma correlação em dois episódios distintos e exatamente o tipo de pista que especialistas em carry trade recomendam observar diante da impossibilidade de rastrear diretamente uma operação financiada em iene até sua aplicação final.

Como mostrou a segunda reportagem desta série, um fundo pode construir o equivalente econômico a uma operação iene-real sem jamais negociar diretamente o par de moedas. Pode vender iene contra dólar em um mercado e comprar real contra dólar em outro. Derivativos, forwards e NDFs tornam a ligação praticamente invisível nas estatísticas tradicionais.

Por isso, o comportamento simultâneo das posições passa a ser uma das formas de procurar as pegadas do carry.

Há, porém, uma diferença essencial entre setembro e o momento atual.

O real não está hoje vivendo uma crise de carry.

Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, os ativos brasileiros passaram por uma forte valorização puxada pela reação dos investidores ao desempenho de Flávio Bolsonaro e de seus aliados no Congresso. Em 5 de outubro, o Ibovespa avançou 7,7% em um único pregão, atingiu recorde e o real registrou sua maior valorização diária em quatro anos.

O fator doméstico, neste momento, está jogando a favor da moeda brasileira.

Isso não invalida o sinal encontrado nos dados de setembro. Ajuda, na verdade, a definir o que ele significa.

O yen carry trade não determina sozinho o preço do real. Política fiscal, juros brasileiros, commodities, eleições, crescimento e apetite global por risco podem facilmente dominar a influência japonesa em determinados momentos.

O que os episódios de 2024 e 2026 mostram é outra coisa: quando grandes investidores passam rapidamente de uma posição contra o iene para uma posição a favor da moeda japonesa, o real aparece entre os ativos nos quais esses mesmos fundos reduzem risco.

Em 2024, isso aconteceu em meio a uma crise global de mercado.

Em setembro de 2026, aconteceu novamente, mas sem produzir uma ruptura semelhante.

A diferença pode estar na intensidade do choque, no nível de alavancagem, no posicionamento inicial dos investidores ou simplesmente na presença de forças domésticas mais poderosas.

Para o Brasil, é justamente essa sensibilidade que importa.

O real está entre as moedas de maior rendimento do mundo e o diferencial de juros continua enorme em relação ao Japão. Essas características ajudam a atrair capital quando investidores querem carregar risco e capturar juros elevados. Mas também tornam a moeda brasileira uma candidata natural à redução de posições quando fundos precisam diminuir alavancagem rapidamente.

O padrão encontrado pelo Radar Econômico não permite calcular quanto dinheiro tomado em iene está aplicado no Brasil.

Permite dizer algo diferente.

Nas duas vezes examinadas em que fundos alavancados fizeram grandes movimentos para desmontar apostas contra o iene, eles simultaneamente reduziram sua exposição ao real.

Em 2024, passaram a apostar muito mais contra a moeda brasileira.

Em 2026, reduziram em 40% a aposta a favor dela.

O iene pode estar a mais de 17.000 quilômetros de Brasília. Para quem negocia dinheiro global, a distância é muito menor.

Na quarta reportagem da série Olho no Japão, o Radar Econômico mostrará por que o Brasil, mesmo sem ser um grande destino identificável de dinheiro japonês, está na linha de transmissão dessa mudança — e qual é a dimensão do capital estrangeiro exposto aos ativos brasileiros.

Leia as outras duas reportagens publicadas pelo Radar Econômico:

1 – A era do dinheiro quase grátis começa a mudar

2 – O carry de centenas de bilhões que ninguém consegue rastrear até o Brasil

Fonte: Link da fonte

Tags

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore