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O declínio global da natalidade é impulsionado pela inserção feminina no mercado de trabalho e pelos altos custos de criação. Governos implementam incentivos, como subsídios à educação infantil, mas nem sempre são suficientes diante de desafios financeiros e da busca por realização profissional. Entenda as complexas razões e os esforços para reverter a tendência.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Estudar, arranjar emprego, subir ao altar, multiplicar a família — esse era o roteiro quase que inescapável de uma expressiva fatia da humanidade não faz tanto tempo assim. Mas aí revoluções que trepidaram o globo abriram novas vias. Ao longo das últimas décadas, as mulheres marcharam com passos firmes rumo ao mercado de trabalho, o que as levou a adiar a maternidade e ter menos filhos na tentativa de acomodar as aspirações profissionais em meio à atribulada equação da vida. Também as cifras para sustentar a garotada inflaram e, pouco a pouco, maternidades antes abarrotadas foram registrando menos bebês, fenômeno que desembocou em um enrosco do ponto de vista demográfico: com a turma miúda minguando, sobretudo na banda mais desenvolvida do planeta, vários governos acenderam o sinal amarelo e começaram a correr para estimular o aumento da prole — passo essencial para seguir com a economia girando.
E dá-lhe incentivos para fornecer um alívio ao bolso e facilitar toda a logística envolvida na criação dos rebentos. Um dos mais usuais tem sido baixar os gastos com a educação infantil, que costuma abocanhar a maior fatia do orçamento familiar, até 20% em alguns casos (no Brasil, estima-se que o custo fique em 9%). Um recente levantamento da Economist Intelligence Unit, que observou nos últimos dez anos a conta com creches e escolas em países da OCDE, o grupo dos mais ricos, concluiu que ela diminuiu em 28 de um total de 36 nações — isso enquanto a inflação corroía a renda em várias outras áreas. Ocorreu de caso pensado: robustos subsídios e programas direcionados à primeira infância foram providenciados a um elevado custo público, sendo alçados ao escaninho dos investimentos prioritários. Surtiu efeito, e os valores minguaram, destoando dos ainda cobrados nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo (veja no quadro).
Uma bem-vinda ajuda, dizem os especialistas, mas nada é garantia de berçários mais cheios nestes tempos em que há tantos fatores a fazer as pessoas pensarem duas, três vezes antes de aumentar a família. Sob o ângulo dos que decidem se aventurar pelo dispendioso e trabalhoso (mas tão prazeroso) universo de fraldas e mamadeiras, o leque de benefícios pode ser vasto. Na Coreia do Sul, onde a população encolheu a um ritmo recorde, há creches gratuitas e abertas 24 horas para atender a criançada de pais e mães de jornadas esticadas, além do equivalente a 3 000 reais mensais para cada novo ser posto no planeta. Na Itália, até uma mãozinha para arcar com o salário da babá o Estado dá, até 15 000 reais ao ano. A Alemanha, dona de um generoso sistema de bem-estar social, oferece um programa de cuidadores certificados que monitoram grupos de bebês na própria casa.
Tudo muito sedutor, porém, insuficiente aos olhos da amostra ouvida pelos pesquisadores da Economist: 48% ainda consideram o projeto maternidade “inacessível”. “Embora positivos, os incentivos não deram conta até o momento da questão financeira nem da sobrecarga de tempo dos cuidados com as crianças”, avalia o cientista social Ricardo Ojima. Os ventos da modernidade promoveram um profundo sacolejo na mentalidade das pessoas, que já não se veem mais tão aferradas à expectativa de gerar herdeiros. A aspiração de ter uma família numerosa também vem sendo substituída pela vontade de parar em um filho só, para o qual são canalizados todos os esforços, dentre um inesgotável (e oneroso) cardápio de atividades extracurriculares.

Para a ala feminina, a que até hoje mais sente o rojão, o receio de não conseguir deslanchar na carreira permanece — um impacto sentido por 59% das brasileiras, segundo um recém-divulgado estudo da consultoria FESA Group. “Muitas preferem investir em si mesmas a ter uma responsabilidade que acaba recaindo mais sobre elas”, diz a demógrafa Luana Myrrha. Os rumos do planeta, envolto em tantas incertezas, é outro tópico que põe muita gente para refletir. “Ganha cada vez mais espaço a ideia de não querer colocar um filho num mundo em que as mudanças climáticas avançam e a instabilidade política cresce”, explica o demógrafo José Eustáquio Alves.
Estudiosos que vivem de observar os declives de natalidade enfatizam que, com menos braços para mover as engrenagens da economia, é preciso elevar a produtividade e fornecer atrativos para que o crescente pelotão de cabeça branca siga na ativa por mais tempo. Nesta caminhada em direção a contingentes cada vez mais grisalhos, um caso que atiça a curiosidade dos demógrafos é o da China, que perdeu o posto de nação mais populosa para a Índia e por décadas travou uma dura batalha para frear os nascimentos, implantando a severa política do filho único. Pois agora a situação pôs-se de ponta-cabeça, e o governo de Xi Jinping aderiu à turma dos que tentam suavizar a conta da educação com o objetivo de conter a iminente queda de habitantes no país. No Brasil, onde as taxas de fecundidade já ombreiam com as da OCDE — 1,5 filho por casal, bem inferior aos 2,1 necessários para a população não encolher —, não se avista no horizonte nada que amenize custos como o das cada vez mais salgadas mensalidades escolares. É verdade que os resultados do empurrãozinho que tantos países têm dado em prol da multiplicação de bebês só serão conhecidos mais adiante. Por ora, o que se vê é uma criançada bem cuidada e pais menos exauridos. Só isso já vale a pena.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004
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