Os problemas econômicos no caminho de Trump

Os Estados Unidos chegam às eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3, com inflação persistente e dívida pública bruta acima de US$ 40 trilhões. Quase dois anos depois da volta de Donald Trump (Partido Republicano) à Casa Branca, a alta dos preços limita o espaço para reduzir os juros, enquanto o descompasso entre arrecadação e gastos amplia a necessidade de financiamento do governo.

“A economia americana segue crescendo, com dinamismo e robustez, especialmente sustentada pela iniciativa privada e pelo consumo das famílias. Mas, pelo lado do governo, a fragilidade fiscal continua sendo um problema”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

A disputa pelo controle do Congresso coloca à prova uma agenda que combinou aumento de tarifas de importação, cortes de impostos e endurecimento da política migratória. “Trump sempre deixou claro o que pretendia fazer e quais seriam as principais diretrizes do seu governo”, afirma Castro Alves.

O que o tarifaço entregou

O chamado Liberation Day, quando o presidente anunciou uma ampla rodada de tarifas em abril de 2025, marcou a tentativa de usar o acesso ao mercado americano para obter concessões comerciais e estimular a produção dentro do país.

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O déficit comercial, registrado quando as importações superam as exportações, permaneceu expressivo. Em agosto, o saldo negativo apenas no comércio de bens chegou a US$ 136,6 bilhões. Considerados também os serviços, nos quais os americanos têm superávit, o resultado foi deficitário em US$ 105,6 bilhões. No acumulado do ano, porém, o déficit de bens e serviços caiu 19,9% em relação ao mesmo período de 2025. “Ainda assim, a política comercial não foi efetiva na resolução dos problemas que pretendia enfrentar”, afirma o estrategista.

A mudança ocorreu também na distribuição das compras americanas entre seus fornecedores. “A participação da China e da União Europeia caiu significativamente, enquanto parte dos fluxos comerciais foi redirecionada para outros parceiros, especialmente países asiáticos”, afirma Castro Alves.

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As tarifas ofereceram proteção a segmentos industriais, como o aço, e geraram receita para o governo. A arrecadação, contudo, sofreu o efeito das revisões da política comercial e da devolução de valores cobrados. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte invalidou as tarifas impostas com base em uma lei de poderes econômicos emergenciais. A decisão preservou medidas amparadas em outras legislações, como as aplicadas ao aço e ao alumínio.

“Vejo essa política muito mais como uma forma de trazer a discussão comercial para o centro da agenda americana do que como uma solução efetiva para os problemas existentes”, afirma Castro Alves.

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Outra frente foi o incentivo ao reshoring, nome dado à transferência de atividades produtivas de volta ao país. “Embora esse movimento e os investimentos estrangeiros diretos não tenham avançado no ritmo prometido, houve progresso nessa direção”, afirma.

Atividade resistiu às incertezas

O Produto Interno Bruto (PIB) americano avançou 3,4% em ritmo anualizado no terceiro trimestre, depois de crescer 2,2% no segundo. Essa forma de apresentação projeta por um ano o ritmo observado no trimestre. A expansão efetiva entre julho e setembro foi de 0,8%. “Havia muito receio de que a elevação das tarifas pudesse provocar uma recessão nos Estados Unidos. Isso não aconteceu”, afirma Castro Alves.

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A agenda tributária foi outro instrumento de estímulo. “Os cortes de impostos, em particular, contribuíram para manter a economia aquecida”, afirma o estrategista.

Na tecnologia, a corrida pela inteligência artificial ampliou a demanda por chips e equipamentos e influenciou os fluxos comerciais. “Grande parte do desenvolvimento da inteligência artificial acontece nos Estados Unidos, com uma participação relevante também da Ásia, enquanto a Europa aparece em uma posição menos central nesse movimento”, afirma.

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O desempenho agregado, entretanto, não se traduz automaticamente em melhora do orçamento doméstico. Em setembro, as despesas de consumo aumentaram 0,5% em valores nominais, mas ficaram praticamente estáveis depois de descontada a inflação. A renda disponível, também corrigida pela variação dos preços, caiu 0,3%.

Menos vagas e desemprego estável

O mercado de trabalho passou a criar menos empregos. Em setembro, foram abertas 29 mil vagas fora do setor agrícola, enquanto a taxa de desemprego permaneceu em 4,2%. Desde março, o indicador oscilava entre 4,1% e 4,3%.

“Quando há um controle maior das fronteiras e uma redução da entrada de trabalhadores, a dinâmica do mercado de trabalho também muda. A oferta de mão de obra diminui e, consequentemente, o ritmo de criação de vagas pode ser menor”, afirma Castro Alves.

A adoção de novas tecnologias é outra possível influência sobre as contratações, mas seu peso ainda exige cautela. “Parte desse movimento também pode estar relacionada aos impactos da inteligência artificial, embora ainda seja cedo para atribuir a ela uma parcela significativa dessa desaceleração”, afirma.

Preços pressionam o eleitor

O índice de preços ao consumidor, conhecido como CPI, acumulou alta de 3,7% nos 12 meses até setembro. Já o indicador de preços dos gastos com consumo, o PCE, avançou 3,6% no mesmo período. É sobre este último que se aplica a meta de 2% do Federal Reserve, o banco central americano.

“Parte dessa pressão veio das tarifas, mas, mais recentemente, o choque nos preços de energia provocado pelo conflito com o Irã também passou a contribuir para esse cenário”, afirma Castro Alves.

Em setembro, a gasolina subiu 9,1% e respondeu por mais da metade da alta mensal do CPI.

“Afinal, independentemente dos indicadores macroeconômicos, a percepção do consumidor é muito influenciada pelo custo de vida. Quando os preços continuam subindo, isso pesa diretamente no bolso dos americanos”, afirma o estrategista.

No comando do Fed desde maio, Kevin Warsh conduziu uma elevação dos juros em setembro. Na reunião de 28 de outubro, a instituição manteve a taxa entre 3,75% e 4% ao ano, com dois integrantes do comitê favoráveis a um novo aumento de 0,25 ponto percentual.

A troca na presidência da instituição havia provocado preocupação com uma possível interferência da Casa Branca nas decisões monetárias. “Por outro lado, é importante destacar que o Federal Reserve e as instituições americanas continuaram funcionando, e a independência do Banco Central foi preservada”, afirma Castro Alves.

Os limites de um dólar mais fraco

O câmbio também atravessou fases distintas durante o mandato. “Quando Trump assumiu, a moeda estava em patamares elevados, impulsionada, entre outros fatores, pela expectativa de cortes de impostos e de uma economia americana mais dinâmica”, afirma o estrategista.

“Depois de um período de maior enfraquecimento em 2025, o dólar encontrou algum suporte e passou a apresentar uma trajetória relativamente mais estável, também sustentada pelos juros americanos ainda elevados e pelo papel da moeda como ativo de reserva global”, afirma.

Uma desvalorização pode favorecer os exportadores dos Estados Unidos, ao tornar seus produtos mais baratos para compradores estrangeiros. Em contrapartida, encarece as importações.

“Mas não é possível manter uma moeda desvalorizada apenas pela vontade do governo ou por declarações presidenciais”, afirma Castro Alves.

A conta dos cortes de impostos

O ano fiscal de 2026, encerrado em setembro, terminou com déficit próximo de US$ 2 trilhões, cerca de US$ 218 bilhões acima do registrado no exercício anterior. O aumento das despesas incluiu programas de benefícios, defesa e juros da dívida. Estes últimos consumiram aproximadamente US$ 1 trilhão no período, em termos líquidos.

“Quando você reduz impostos, pode estimular a atividade econômica. O problema é que, se não há uma redução correspondente dos gastos públicos, o resultado é uma ampliação do déficit e da trajetória de endividamento”, afirma Castro Alves.

Para cobrir a diferença entre receitas e despesas, o Tesouro emite títulos. O custo dessas novas operações depende das taxas exigidas pelos investidores, o que conecta o desequilíbrio orçamentário à condução da política monetária.

“Além disso, o controle da inflação será essencial no médio e longo prazo, inclusive para permitir uma redução dos juros e, consequentemente, um custo menor para a emissão de novas dívidas”, afirma.

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